Ainda bastante abalada, a esposa pegou cinco rosas do mar de flores que estava sobre o túmulo de Yuri José da Silva. Uma de cada cor. Faltavam poucos minutos para a fim do sepultamento.
“Vou fazer igual eu fazia na missa. Vou pegar as flores e levar para a casa. Você dizia que ia morrer. Mas eu vou cuidar. Não vou deixar elas morrerem”, prometia para o soldado, aos prantos.
O corpo de Yuri foi velado no Velório Municipal de Marília. O enterro ocorreu no fim da tarde de ontem no Cemitério da Saudade, também na mesma cidade. A cerimônia contou com grande número de policiais de toda a região e do comandante-geral da PM do Estado de São Paulo, Benedito Roberto Meira (leia mais abaixo). Mais do que gente, contudo, estava lotada de comoção e indignação.
Os poucos metros que separavam o local do velório ao do enterro pareciam uma eternidade. Em uma das pontas do caixão, estava o bombeiro Fábio de Lima Félix. “Eu me formei com o Yuri em 2005. Era um homem excepcional. Tranquilo e equilibrado. Não dá para acreditar”.
Logo atrás do pequeno veículo que levava o corpo do soldado, seguiam os pais. Separados há anos, ficava evidente que a dor da perda os uniu como nunca naquele momento.
Já no cemitério, a cerimônia militar começou com uma salva de tiros. A cada disparo barulhento – semelhante aos que levaram a vida de Yuri – aumentava o som do choro dos familiares e amigos.
“O momento é de reverência a um herói. Ele sempre foi entusiasmado, justo, equilibrado e honesto. Descanse em paz, soldado Yuri”, discursou o comandante do 4º BPM-I, tenente-coronel Walter Oliveira.
A bandeira do Brasil que cobria o caixão foi cuidadosamente retirada e dobrada. A esposa de Yuri a recebeu das mãos do comandante Meira. Talvez mais simbólico do que toda a cerimônia foi vê-la enxugar as lágrimas no pano.
Adeus e um pedido
Já no local do sepultamento, a esposa pediu para ver o soldado pela última vez. “Um dia vamos nos encontrar”, disse um dos irmãos. Sob o som do “toque do silêncio”, encerrava a honraria militar do dia.
“Eu te faço um pedido: me ajuda a continuar vivendo. Põe a mão no meu coração e na minha cabeça. Me ajuda a seguir minha vida”, pedia a esposa, olhando fixamente para o túmulo.
Não era preciso ler mentes para saber o que se passava na cabeça dos vários policiais presentes ali. Os olhos marejados deixavam claro que todos pensavam que podia ser o choro da família de qualquer um deles naquele momento.
Alguns, porém, receberam uma “bênção”. Antes de ir embora, a esposa de Yuri passou em quatro oficiais. Tirou o emblema da corporação que eles carregam e beijou o símbolo. “Que Deus os proteja em serviço”, disse.
Aos poucos, o cemitério foi se esvaziando. Em meio a tantas coroas de flores, uma planta. Uma samambaia. “É a samambaia dele. A samambaia que ele tanto quis. Vai ficar uma aqui e uma em casa”, concluiu a esposa.
‘Valeu a pena... sou pescador de ilusões’
“Se meus joelhos não doessem mais/ diante de um bom motivo/ que me traga fé”. Ontem, era tudo o que a família e amigos de Yuri José da Silva precisavam: fé. A esposa pedia, em todo momento, um celular com a música “Pescador de Ilusões”, do O Rappa. “Quero me despedir com a música ‘dele’. É a música do Yuri”, dizia, debruçada sobre o caixão.
Com o refrão “valeu a pena”, a música realmente parece dizer o que foi a vida de Yuri. A irmã mais velha dele, R.C.S., 38, afirmava que o soldado sempre foi um sonhador. “Ele já fez de tudo. Chegou a fazer teatro, jogou futebol e era goleiro. Ele era um sonhador”.
Ela conta que, no último domingo, a família toda se reuniu. Faltou Yuri. Foi quando ela pareceu sentir o que estava por vir.
“Eu senti algo estranho e até disse que estava com saudade dele. Disse que só faltava ele conosco. De noite, ele falou com minha mãe e disse que estava tudo bem. Queria dizer que eu o amo muito”.
A irmã relata que o soldado sempre foi o orgulho da família. “Ele ter entrado para a polícia foi uma vitória muito grande. Sempre fomos humildes e tínhamos muito orgulho dele. Ele queria continuar na polícia, mas queria ir para a parte administrativa. Ele foi tirado da gente”, conclui a irmã de Yuri.
Impunidade
Além da Polícia Militar e dos bombeiros, integrantes da Polícia Civil de Bauru também foram ao velório e enterro para prestar as condolências. O diretor do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior 4 (Deinter-4), Benedito Antônio Valencise, foi mais um dos que criticaram a impunidade.
Mobilização
“É um problema muito grave. É preciso haver uma mobilização de todas as instituições e da sociedade para que não se coloquem esses marginais nas ruas. É preciso que o criminoso fique preso por um bom tempo”, finalizou.