07 de julho de 2026
Polícia

PM e acusado morrem em confronto

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

Dois policiais militares foram alvejados por vários disparos durante uma abordagem a um suspeito em liberdade condicional, na madrugada de ontem, na quadra 3 da rua Thomaz Bosco, no Jardim Ouro Verde.

Integrante da Base Oeste da Polícia Militar, Yuri José da Silva, de 27 anos, que estava há apenas dez meses em Bauru, morreu no local ao ser atingido por um tiro na testa e outro que transfixou lateralmente a região do tórax.

Já seu companheiro de trabalho, o soldado Tiago Rodrigues Palma, foi ferido por quatro disparos – na coxa direita, na virilha, na nádega e no ombro. Ele foi internado no Hospital da Unimed em estado grave, mas não corre risco de morte.

O autor dos disparos, Rafael Maurício Fernandes, de 26 anos, fugiu do local, mas foi localizado pela PM, cerca de uma hora depois, em um barraco próximo. Na ocasião, houve troca de tiros com a polícia e o acusado morreu atingido por dois disparos que acertaram o tórax e o abdome.

Rafael é irmão de Rodrigo Fabiano Fernandes, o suspeito que resistiu à abordagem inicial feita pelos soldados. Ele estaria em liberdade condicional e, agora, é procurado acusado de participação no crime.

Era por volta das 2h de ontem quando a dupla de policiais da Base Oeste realizava patrulhamento no Jardim Ouro Verde e abordou Rodrigo Fabiano Fernandes.

Conforme informou o relações públicas da PM, capitão Fabiano Serpa, ao ver a aproximação da viatura dos militares, o rapaz teria apresentado atitudes suspeitas e tentado fugir, mas acabou abordado segundos depois.

Na revista pessoal, os policiais teriam encontrado porções de maconha no bolso da bermuda do rapaz, que foi algemado de imediato. Rodrigo, porém, resistiu à voz de prisão e começou a gritar, dizendo que estava passando mal, causando certo tumulto de moradores no local.

Nesse instante, Rafael, irmão de Rodrigo, se aproximou dos PMs e, armado com um revólver .357 Magnum, efetuou seis disparos contra os soldados Yuri e Palma.

No primeiro instante, Yuri foi alvejado por um tiro que entrou pelo vão existente entre colete e o braço do soldado e transfixou a região do tórax. Já Palma foi atingido na nádega e na coxa direita.

Mas a brutalidade não parou por aí e o acusado se aproximou ainda mais dos policiais para deflagrar o tiro fatal. Yuri acabou atingido na cabeça.

Mesmo ferido, Palma entrou em luta corporal e conseguiu desarmar o assassino, momento em que levou outros dois tiros na virilha e no ombro.  Mesmo assim, o soldado conseguiu acionar reforço, mas os irmãos acabaram fugindo instantes após cometerem o crime.

Os policiais foram socorridos, porém, devido à gravidade dos ferimentos, Yuri não resistiu e morreu no local. O soldado Palma permanece internado no Hospital da Unimed em estado grave, mas estável. (Colaborou Thiago Vendrami)


Arma subtraída

No momento em que Palma desarmava o assassino, sua arma, uma pistola .40, acabou caindo na calçada, sendo localizada horas depois em um terreno baldio no bairro.

Na ocasião, Isaias Almeida Cordeiro, de 19 anos, sobrinho dos irmãos, foi detido acusado de furtar o armamento, sendo levado à Central de Polícia Judiciária (CPJ), onde foi interrogado pelo delegado Kléber Granja, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG).

“Estamos investigando a participação dele direta ou indireta. Aparentemente ele participou do tumulto que gerou o homicídio. Em relação ao Rodrigo, representamos pela prisão temporária para apurar se ele concorreu de forma direta ou não ao homicídio do policial”, resume Granja.

Ainda de acordo com o delegado, há suspeita de que a abordagem inicial tenha ocorrido em virtude de Rodrigo cumprir restrições impostas por uma ação de execução penal à qual responde como suspeito de homicídio.


Troca de tiros

Cerca de uma hora após o crime contra os policiais na rua Thomaz Bosco, a PM recebeu a informação de que Rafael estaria escondido em um barraco na quadra 12 da rua Giocondo Turini, a menos de duas quadras do local do assassinato.

Localizado em um dos quartos do imóvel, Rafael, que estava em posse de outro revólver, dessa vez um calibre 32, reagiu à prisão e houve troca de tiros.

O acusado teria efetuado dois disparos contra os dois policiais que estavam no local, mas os tiros acertaram a parede da casa.

No mesmo momento, os PMs reagiram e acertaram três tiros no assassino, que morreu em seguida.

Durante todo o dia, as viaturas percorreram o bairro e as imediações na intenção de encontrar Rodrigo, mas, até o fechamento desta edição, ele ainda não havia sido preso.

As duas armas utilizadas no crime, assim como as armas .40 dos policiais, foram apreendidas.

O revólver 357 Magnum, que vitimou os policiais, estava com todas as cápsulas deflagradas e o revólver calibre 32, com duas.

Os policiais envolvidos na troca de tiros com o assassino foram ouvidos por Granja e liberados, por ficar constatada legítima defesa.

O caso foi registrado como homicídio qualificado por meio que impossibilitou a defesa da vítima, tentativa de homicídio, subtração de armamento policial, subtração de algema policial e dupla tentativa de homicídio.

“Vamos apurar todas as causas dessa tragédia, que é uma das piores, se não a pior que já aconteceu em Bauru”, comenta o titular da delegacia de Investigações Gerais.


Ficha extensa

Rafael Mauricio Fernandes e Rodrigo Fabiano Fernandes são moradores do Jardim Ouro Verde e possuem várias passagens pela polícia, sendo acusados de praticarem, inclusive, um homicídio ocorrido em 2009, na saída de uma casa noturna em Bauru. Ambos também foram investigados por participação em um roubo a uma república de estudantes no dia 23 de agosto de 2013, no Jardim Brasil.

Além disso, Rafael contaria com uma ficha criminal que teve início ainda aos 17 anos, após ele ser apreendido por tráfico de drogas. Os registros incluem também outro homicídio, vários roubos, porte ilegal de arma de fogo, porte de entorpecentes e direção sem habilitação.

Há suspeita ainda de que os irmãos tenham ligação com uma facção criminosa atuante em todo o Estado.

À reportagem, a PM informou que, mesmo diante de tantas ocorrências, Rafael não era considerado nem mesmo foragido, fato que foi duramente criticado pelo coronel Airton Iosimo Martinez, comandante do Comando de Policiamento do Interior 4 (CPI-4).


Associação dos Cabos e Soldados

O presidente da regional de Bauru da Associação dos Cabos e Soldados, soldado Roberto Ferreira, lamentou o ocorrido. “Em 24 anos de carreira, nunca vi um evento tão triste e desagradável. Perdemos um amigo, um companheiro de farda e Bauru, um grande profissional. Ele morreu defendendo a sociedade, assim como todos os policiais que se arriscam nas ruas diariamente”.

Segundo Ferreira, a polícia tem sido duramente criticada ultimamente.

“Nós não merecemos isso. Esse policial tinha sonhos e uma família, que foram destruídos pela criminalidade”, completa.


Bandeiras a meio mastro


O 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior amanheceu ontem com suas bandeiras a meio mastro, em sinal de luto à tragédia que matou o policial Yuri. “Essa é uma perda irreparável. Infelizmente, dessa vez a criminalidade sobressaiu”, lamentou o coronel Airton Iosimo Martinez, comandante do Comando de Policiamento do Interior 4.

E completa. “Esses criminosos já haviam sido presos pela polícia, não deveriam estar na rua em liberdade. O Brasil precisa rever urgentemente a Lei de Execução Penal. Senão, nós continuaremos enxugando gelo. Se o criminoso é condenado a 15 anos, deve cumprir os 15 anos”.

Mmmm

Sobre a sensação de insegurança que ronda a população, o coronel foi enfático. “O policiamento em Bauru está perfeito. O problema é que quase 99% dos presos atualmente são reincidentes”.