08 de julho de 2026
Articulistas

Ter e possuir

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Existir é uma oportunidade e se inicia com uma posse: nossa existência acontece quando nos apossamos de um corpo, um instrumento para a alma vivenciar as experiências desse mundo. Nossa história é, na verdade, uma sucessão de experiências, uma trajetória de posses: de coisas que possuímos e experimentamos e de coisas que não possuímos. Assim como a luz permite enxergar e os sons a escutar, o que possuímos ou deixamos de possuir ensina ao cérebro o nosso tamanho no mundo.

Muitas vezes, por sentir um vazio profundo se deseja preenchê-lo com uma série de coisas e como o mundo parece ser constituído por coisas, nos lançamos numa árdua tarefa de obtê-las. No entanto, rapidamente descobrimos que para se ter certas coisas temos que abrir mão de outras: para termos, devemos aceitar que os outros também tenham.

Existe uma diferença sutil entre ter e possuir: é possível ter e não usufruir do que se tem, por outro lado, possuir é experimentar, é usufruir da sensação daquilo que se tem ou daquilo que não se tem. Onde não há posse não há vida; a posse é o gosto da vida; a posse satisfaz a alma.

Toda ocasião em que nos apossamos do agora, toda ocasião em que vivenciamos a sensação daquele momento, carregamos para sempre essa posse. Os momentos vividos assim não se perdem no passado que se esvai, ao contrário, fazem parte permanente da bagagem de nossa existência e os levamos para onde formos. Nós somos os somatórios desses momentos.

Em um de seus escritos, o Rabino ucraniano Nachman de Bratslav (1772 ? 1810) desafia aqueles que têm uma boa qualidade de vida a se submeterem a um teste definitivo para medir a veracidade dessa qualidade. Ele propõe que as pessoas com boa qualidade de vida imaginem-se perdendo uma a uma as coisas que têm. Se com as coisas perdidas a qualidade desaparece, então elas não têm qualidade de vida. Talvez essas pessoas tenham "quantidade de vida", mas a "qualidade", medida pelas verdadeiras posses de um indivíduo, elas não têm.

As coisas de uma pessoa são passíveis de serem perdidas, esbanjadas, tomadas ou roubadas, mas a relação com elas, a verdadeira posse, ninguém pode usurpar. A verdadeira posse é inalienável, é monopólio daquele que existiu e interagiu com o mundo a sua volta.

Com o envelhecimento aparece a renúncia gradativa da posse até a renúncia definitiva, aquela da posse de si mesmo, quando o corpo se afasta do físico e revela a esfera espiritual que sempre conteve. Com o envelhecimento se reconhece que a vitalidade não está mais na árvore em si, mas na semente que dela se desprende. Passa-se pela vida exatamente como um viajante que, pelo caminho, atira as sementes que leva nas mãos: a terra as apanha, a água as cultiva e o sol e o ar as ajudam a crescer.

A bagagem permitida em nossa derradeira viagem não inclui a mais ínfima das malas de mão, mas desse mundo muito se leva e muito se deve levar: as verdadeiras posses, aquelas experiências vivenciadas pela alma e que permanecem para sempre incrustadas em nossa própria identidade: o cheiro das flores e o gosto das frutas.

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru