08 de julho de 2026
Geral

Vivências: ?solução para educação?

Dulce Kernebeis
| Tempo de leitura: 6 min

Pedagogos, pais, professores e alunos conhecem a história de cor e salteado, como se dizia no jargão dos bancos escolares de antigamente: os problemas são muitos, as soluções para uma educação de sucesso, poucas.

O ano escolar é novo, tem até calendário diferente por causa da Copa do Mundo, mas os problemas são velhos conhecidos: baixo rendimento escolar, dificuldade de aprendizagem, falta de concentração, ausência de limites e até os conflitos originados pelos relacionamentos entre amigos/alunos e alunos/educadores. Educar é realmente uma tarefa difícil. Isso sem falar no bullying, na hiperatividade, assuntos que permeiam o universo escolar cada vez mais nos dias de hoje.

E como enfrentar estes e outros desafios? Além da pedagogia tradicional e suas ferramentas, muitas delas milenares, e sem contestar essas eficiências, mas procurando algo mais profundo, um novo método de educar está atraindo a atenção: trata-se da pedagogia sistêmica.

Para falar sobre o assunto esteve em Bauru, na Viver Escola Waldorf, o “learning designer”, pesquisador e terapeuta sistêmico, autor de vários livros, Tarso Firace.

Vivências para entender o processo

No encontro com professores e pais de alunos da escola, Tarso lança mão das vivências como forma de explicar o que é a pedagogia sistêmica. Ele próprio diz que para entender o processo é preciso participar dos encontros e reconhece não haver outra maneira. “É impossível explicar o que é a pedagogia sistêmica de fora para dentro. Não existem regras, programas” admite. Os poucos começam a ser escritos agora. É uma nova forma de entender o mundo para adultos, especificamente.

Quem participa de suas vivências e encontros pode até se espantar. Nada lembra a escola tradicional com quadro negro e um monte de gente ouvindo. Tudo se faz em círculos. Mais: num determinado momento os participantes estão deitados no chão, em outros fazem uma representação para entender sua própria origem.

Em outro momento ainda, os participantes estão ajudando um casal a tirar da filha única, já adulta, que está terminando a universidade, a responsabilidade que carrega. Cobranças, que a jovem se impôs por dar certo profissionalmente ou até para atender as expectativas paternais. Afinal, ela não tem irmãos com quem dividir as responsabilidades do sucesso. E isso pesa.


Visão evolutiva: ponto de encontro entre o ser e o universo

“É disso que se trata essa pedagogia. Compreender a extensão do aprender”, escreve o autor do livro Pedagogia Sistêmica, resultado do projeto realizado em 2013 com educadores de duas cidades da grande Goiânia. “O modo como cada um aprende revela o ponto de encontro entre o ser e o universo. Para entender a pedagogia sistêmica é preciso deixar vir de dentro a onda amorosa e libertadora que nos aproxima do outro”, pontua Tarso Firace.

É preciso lembrar que a pedagogia sistêmica está abrindo um novo paradigma. Implica em modificações profundas na forma de pensar a educação e nas atitudes em relação a todos os envolvidos no processo educativo: famílias e docentes, para chegar ao aluno. E o aprendizado, como numa corrente, é mútuo.

Como metodologia, serve todos os elementos da escola orientando-os para solução dos problemas e desafios, para enfrentar os momentos de grande dificuldade. Isso inclui, inclusive, a aceitação da família na resolução dos conflitos.

Filhos diferentes

Como exemplo da aceitação de como cada pessoa é, o desfecho da vivência da filha única é um choro catártico, desses de lavar a alma e de se sentir libertada. O exemplo é a porta de entrada para entender duas novas visões que defende o pesquisador.

A primeira delas é a observação do aluno por parte de quem está ensinando. Especialmente observar as crianças. Aprimorar a observação, a percepção, em busca da luz que aquele ser traz dentro de si e que se manifestará de diferentes formas em função da sua posição na hierarquia familiar.

Como pesquisador e estudioso da ciência sistêmica, Tarso procura mostrar a importância de estarmos abertos para olharmos para o outro dentro de seu contexto familiar e das relações que estabelece. Enriquecem seu trabalho o conhecimento sobre constelações familiares trazidos por Bert Hellinger e por Marianne Franke Gricksh (na área pedagógica).

Experiência pessoal

Como pai, Tarso teve a oportunidade de participar da implementação do ensino fundamental na Escola Waldorf de Avaré, no final da década de 90. As escolas Waldorf utilizam a pedagogia desenvolvida por Rudolf Steiner, que concebe o homem como um ser integral e não apenas  “mente sã em corpo são”. Nesse movimento, conheceu e encantou-se com a teoria de Karl König sobre as influências do posicionamento dos irmãos, da ordem de nascimento na família.

Profundo admirador de König, usou e ampliou suas percepções sobre as diferenças naturais entre os primeiros, segundos e terceiros filhos (no quatro a contagem recomeça), a quem denominou Alfa, Beta e Gama. Esse e outros estudos sobre “a mecânica da vida” constam de outra obra sua: “Imensa Vida”.


Diferenças entre os filhos

Firace observou que Alfa, Beta ou Gama têm necessidades diferentes. Quando o assunto é a lição de casa, por exemplo, os Alfa tendem  a cumprir o que é pedido, em função de seu grande senso de dever. Os Beta gostam de estar mais livres para usar sua criatividade. Os Gama precisam entender a mecânica, o funcionamento das coisas. Dado um tema e solicitada uma redação, mas aberta a possibilidade de outras formas de apresentação, o Alfa tende a trazer a redação, o Beta a trazer um poema ou uma imagem, e o Gama a trazer uma pesquisa. 

Sem cobranças, sem juízo de valor, só aceitação

A segunda visão do autor, e não menos importante, na resolução dos conflitos e na evolução das pessoas é “não julgar”.

Ele defende: nenhum tipo de juízo de valor, em nenhum momento e acima de tudo a aceitação. E aqui vai uma surpresa: não se trata apenas de não criticar o aluno, a pessoa, mas também para contribuir para o desenvolvimento pessoal, não elogiar. Quando se elogia, também “você está bonita, você é inteligente” por exemplo, parte-se do pressuposto que a pessoa tem “momentos de feiura” e há a existência da não inteligência. “O que não existe, todo mundo é apenas o que é”, defende ele. Com isso, a melhor forma de recepção de  um professor para um aluno na sala de aula seria “que bom que você veio”. Ou então “fico feliz por você estar aqui” e “que bom que você executou sua tarefa”. Percebem a diferença? Não é fácil. É mesmo algo como uma reprogramação interior. Um jeito todo novo de pensar.

Um método para todos

Para finalizar de acordo com a visão sistêmica, esta também não é uma pedagogia somente para professores. “É uma forma de entender o mundo para adultos. De todas as profissões. Adultos que estejam dispostos a exercer a libertadora dimensão de serem pontes. Ponte entre o eu e o tu. Entre o eu e o nós, entre a busca e o encontro, entre a singularidade e a totalidade entre a consciência humana e o universo. Não individualmente, não fragmentadamente, não isoladamente”.