09 de julho de 2026
Geral

Solo impermeabilizado: modernidade pede os velhos quintais

Nelson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

Ele mora no meio de troncos, galhos, flores e plantas e o quintal é formado por materiais e espécies descartados. Etelvino Zacarias Martins é exceção. Sua casa é o inverso do hábito da cidade de cimento. A menor porção em sua casa é o cimento. A maior, o verde. Ele ainda combinou “relacionamento”, vínculo, entre o ambiente natural das plantas e a sala e quartos, instalando vidros em uma parte das “paredes”. 

 

Os antigos quintais, onde árvores frutíferas e plantas ornamentais se misturavam a terra, são conceito de proteção contra enchentes. Mas a “mania” do cidadão urbano é instalar piso em toda a área de lazer, contribuindo com o esgotamento da capacidade de escoamento através da rede de água pluvial. A natureza, em parte por isso, devolve a “gentileza” com enxurradas invadindo quintais e destruindo instalações sempre que São Pedro manda uma chuva mais densa.

 

“As áreas permeáveis são fundamentais para o equilíbrio da drenagem. Pensar apenas em tubulação e barragens é esperar tudo do poder público, quando cada cidadão tem de se comprometer com sua parcela, a área onde ele mora. O problema é que, regra geral, as pessoas pensam em piso e churrasqueira e piscina, impermeabilizam tudo. E essa água vai para a rua e corre em velocidade para os fundos de vale porque não tem por onde escoar”, aborda Theo.

 

Auditor florestal e atualmente na função de Diretor do Departamento de Obras da Prefeitura de Bauru, o servidor fala de sua opção pela conexão com o meio ambiente. “Quem não gosta de plantas e de árvores, da terra, não deve vir à minha casa. Eu moro com mato no entorno de meu quarto. Faço minha parte na recarga do aquífero e isso evita que a água escorra pela rua e abra erosões em áreas não pavimentadas e estoure asfalto e galerias em áreas pavimentadas”, defende.

 

Ele considera que, além de exigir área permeável nos quintais, a legislação municipal tem de proibir lotes pequenos. “Tem de acabar com lote com testada de cinco metros. Isso é absurdo. Os terrenos que têm árvores realizam uma proteção à queda da água da chuva pelas copas. O clima fica bem ameno, a fotossíntese e troca de oxigênio é muito mais eficiente e o clima e a umidade relativa do ar é bem melhor que os lugares impermeáveis. É sensação térmica boa com ajuda à drenagem urbana combinados”, reforça.

 

Ele conta que montou seu quintal a partir de mudas descartadas nas ruas e instalou bancos e o deck na borda de uma pequena piscina também de material aproveitado de descarte. “Até a piscina eu consegui na rua, jogado. Pedi para um morador e instalei aqui. No meu quintal preservei árvores que já existiam do cerrado. O cerrado tem árvores frágeis e precisa da mata adensada para dificultar a queda. A maior parte das plantas do quintal eu peguei em caçambas e replantei”, acrescenta.

 

Em um ponto do mesmo quintal, o servidor ainda instalou um biodigestor. “Ele realiza o tratamento anaeróbio da água que vem do banheiro, antes de devolve-la ao subsolo para a recarga d o aquífero. Sem usar o solo como uma esponja o aquífero estará condenado no tempo”, adverte. 

 

 

Macrodrenagem e praças permeáveis

 

O secretário municipal de Obras, Sidnei Rodrigues, se reuniu, coincidentemente, com membros do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Condema) na última sexta-feira. Na apresentação, ele discutiu que nem todos os projetos de barragem previstos para a cidade trarão resultado e que, além disso, a administração municipal tem de mudar o conceito em instalações, como o de praças.

 

“Eu apresentei ao Condema o plano de macrodrenagem e sugeri que eles apresentem propostas de coeficientes de permeabilização para edificações. Mas também lancei que as praças não podem ser impermeáveis, mas têm de ter, inclusive nas calçadas, entornos verdes e com terra. Tem de adequar a questão da acessibilidade com a necessidade de garantir drenagem urbana”, diz Rodrigues.

 

Em relação à macrodrenagem, além das barragens, como a em construção no Córrego Barreirinho, é necessário avançar em recarga do aquífero para reabastecer o subsolo e prever dispositivos de infiltração naturais, a partir das residências, como os sistemas que capam água da chuva e ajudam o líquido a infiltrar. “Hoje a maior parte o volume de água na chuva escorre, gerando erosões e não retorna para o subsolo”, menciona. 

 

 

Assenag discute

 

A direção da Associação dos Arquitetos, Engenheiros e Agrônomos (Assenag) de Bauru reitera que a administração municipal deve abrir o debate de revisão no Plano Diretor (PD) e lembra que vem contribuindo com a discussão, como a mais recente realização de seminário sobre drenagem urbana. 

 

Quanto à adoção de medidas que ampliem a permeabilização, o diretor da Assenag Afonso Fábio considera que a Prefeitura não pode cometer o erro de realizar ações pontuais. “Quando se fala em calçada ou áreas permeáveis, bacias de contenção, etc, com certeza essas medidas trarão beneficios para a retenção de água, diminuição do escoamento e da velocidade da água dos pontos de montante para a jusante dentro da comunidade. Porém, vemos hoje ações pontuais que não resolvem e apenas adiam a solução do problema”, aborda.

 

A entidade reitera a necessidade da discussão aberta da temática. “Imprescindivel a discussão do Plano Diretor envolvendo toda a comunidade para debates sobre o tema, devendo ser definidas ações corretivas e preventivas de imediato e ações a médio e longo prazos, após projeção de qual Bauru nós queremos para o futuro a nivel de crescimento, habitabilidade e qualidade de vida”, enfoca.