08 de julho de 2026
Articulistas

Vai ter Copa

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Para quem acha que o governo brasileiro está gastando muito com a Copa do Mundo de Futebol, talvez sirva como consolo o exemplo da Rússia que enterrou na neve dos Jogos de Inverno o equivalente a 51 bilhões de dólares (R$121 bilhões). É coisa de cinco orçamentos da Copa de 2014, somados. Muito além das enormes somas despendidas ressurge a velha discussão sobre a utilização do esporte como vitrine de ideologia política. O governo Putin quer mostrar ao mundo os avanços econômicos e tecnológicos da Mãe-Rússia. Eis que, logo na festa de abertura dos Jogos falha a projeção espacial do ícone Olímpico - aqueles cinco círculos entrelaçados representando cada um dos continentes. As luzes de led deixaram de acender, justamente, no elo correspondente ao Continente Americano. A mídia ocidental não perdoa o que seria apenas um detalhe... O lamentável é que segue em voga o princípio que já deveria ter desaparecido com a Guerra Fria, quando as potências e seus satélites se esmeravam para demonstrar a superioridade dos seus atletas. Quem é capaz de produzir mais campeões: o comunismo ou o capitalismo? Quem tem mais de 40 anos sabe que, terminada a II Guerra Mundial começou outro tipo de batalha, sem uso de armas de fogo. Somente de atitudes ameaçadoras e luta surda pelo poder de influenciar o mundo. Mesmo "fria", nem assim esse tipo de "guerra" deve ser adequada para se repetir em Jogos de Inverno, em pleno século 21.

No Brasil o sistema Lula de governo, evidentemente não tem essa pretensão de extasiar o mundo com a Copa deste ano e os Jogos Olímpicos do Rio 2016. O objetivo é a de atingir a população, escamoteando as mazelas das políticas públicas em setores prioritários como a saúde e a educação. Parte da cesta básica está garantida em forma de bolsas; falta agora o divertimento. Essa estratégia política é antiga, advém dos romanos. Juvenal já a havia denunciado em As Sátiras ao dizer a hoje célebre frase: "Agora, (o povo) se limita ansioso a desejar duas coisas: pão e circo". Juvenal utilizou este texto para compor uma dura crítica à plebe, que naquele tempo rogava aos desuses muito mais por suas ambições despudoradas do que por qualquer altruísmo em benefício do coletivo. Segundo o poeta, este costume impedia que o cidadão tivesse uma participação ativa em seu universo social. Faltava à plebe consciência política, cidadania. A sociedade romana procurava por futilidades em vez de se ocupar com coisas mais edificantes.

Para o bem e para o mal, não é este o quadro que se vê aqui. Ganha destaque no país um movimento de protestos organizado pelas redes sociais que usa como grito de guerra uma frase ameaçadora: "Não vai ter Copa!" O coro entoado em várias capitais poderia ser encarado como um simples soluço de pessoas conscientes, mas inconsequentes. Temos compromissos internacionais e não podemos dar vexame. Deveríamos ter pensado nisso antes da Fifa decidir. Mas, é legítimo que as pessoas cobrem rigor e transparência nos gastos com o dinheiro público. É válida a exigência do "padrão Fifa" também para as nossas escolas e hospitais. As manifestações contrárias ao evento esportivo devem ser consideradas perfeitamente democráticas. É bom que elas ocorram. O povo dá um exemplo de maturidade política. Imagine: enquanto no gramado da festa de abertura da Copa ocorrem exibições de escolas de samba, bunda e pandeiro, do outro lado dos portões a multidão protesta por melhorias na saúde e na educação. E pelo fim da corrupção. Nessas especialidades o Brasil não passa de gandula, de um coadjuvante de campeonato que se satisfaz com os poucos segundos em que a bola fica em suas mãos.

Vai ter Copa, sim! É outro departamento. O Mundial passou a ser uma responsabilidade de todos os brasileiros. O Brasil não pode passar por um vexame histórico, maior do que esses atrasos na construção de estádios e de operários mortos por falta de segurança. Principalmente neste momento em que busca investimentos externos para retomar o desenvolvimento econômico. O Brasil vive uma democracia e todos devem ter liberdade de se manifestar. Mas o limite para tais arroubos é o respeito a quem pensa diferente. Até prova em contrário, o brasileiro ama o futebol e apoia majoritariamente a realização do evento.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC