08 de julho de 2026
Articulistas

O preço da Copa 2014

Gerson Vasconcelos Luz
| Tempo de leitura: 3 min

Muito se tem discutido acerca dos valores aplicados na construção de estádios para a realização dos jogos da Copa 2014. Sabe-se que, segundo levantamento feito pela consultoria KPMG, os estádios do Brasil são os mais caros da história do evento mundial. Diante disso, uma questão parece incomodar o cidadão comum, pagador de altíssimos impostos: não teria sido melhor aplicar os recursos disponibilizados para a Copa em melhorias em setores como ? entre outros ? saúde, educação e segurança?

Os valores aplicados não são baixos. Sabe-se que o Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, utilizado na abertura da última edição da Copa das Confederações, é o mais caro de todos. A previsão inicial de custo da obra era de R$ 745 milhões. Porém, o custo final ficou em 1,566 bilhão. No Rio de Janeiro, o Estádio Mário Filho, Maracanã ? o maior (8.639 lugares) ?, cujo custo inicial era de R$ 932 milhões, ficou em R$ 1,2 bilhão. Deve-se lembrar de que no total são 12 estádios construídos ou reformados ou em processo de finalização.

E quem paga a conta? Sabe-se que, apesar da promessa de que não haveria dinheiro público nos estádios da Copa, as obras nas arenas são realizadas com quase 100% de dinheiro governamental. Apenas esse fator já justificaria certos protestos contra a realização do evento.

O preço da Copa é um ótimo tema para se iniciar uma conversa enquanto se espera por atendimento na fila do SUS. Já que os hospitais públicos não possuem padrão Fifa. Aliás, ficam muito aquém do que se deve esperar de um país que, recentemente em sua história (2011), ultrapassou o Reino Unido e se tornou a 6° economia do mundo.

Voltando a questão dos valores, a organização de um evento do porte de uma Copa não requer apenas investimentos em arenas. Há muito que se fazer, modificar, aperfeiçoar, melhorar. E nada sai de graça. Tudo tem um valor. E, no que tange a isso, conforme informou o Ministério do Esporte ao jornal Folha de São Paulo (fevereiro de 2013), a previsão é que os investimentos para o Mundial atingem R$ 33 bilhões. Repetindo: R$ 33 bilhões.

Muito dinheiro. Mas não há como saber se os valores aplicados em infraestrutura para a realização da Copa seriam investidos nas áreas deficitárias citadas. O mais provável é que a coisa continuaria como está, um caos. Ou, para não ser tão pessimista, a beira do caos.

Pior mesmo é se a Seleção não obtiver bons resultados em campo. Nesse caso, seria um tanto quanto revoltante para a população carente de educação, saúde, segurança. Por outro lado, em caso de bons resultados, não deve haver muito a lamentar. O brasileiro ama o futebol ? uma paixão que custa caro. De todo modo, o Brasil já tem um título garantido, o de realizar a Copa do Mundo dos estádios mais caros da história das Copas. O hexa pode ficar para 2018 na Rússia. Mas o troféu indesejável já nos pertence. Pelo menos pelos próximos anos.

O autor, Gerson Vasconcelos Luz, é leitor do JC, professor de Filosofia