Todo homem ao nascer traz consigo a pureza de criança e a graça de um anjo. Ele nada sabe fazer e desde muito pequeno, ainda bebê, começa a imitar o que ele vê seus pais fazerem. À medida que ele cresce seus pais vão se tornando cada vez mais os espelhos onde mira com atenção para fazer tudo igual. Nos anos 50 e 60, anos em que vivi minha infância, adolescência e juventude, tudo era diferente. Não vou me atrever a dizer que tudo era mais pacífico, pois o mundo acabara de sair de sua Segunda Guerra Mundial e os Estados Unidos já tinham guerreado com a Coreia e estava em plena ação no Vietnam. Os protestos que assistimos nos dias de hoje são protestos vãos que não levam a nada, pois aqueles que protestam abusam da violência, abusam da falta de moral, ficam nus pelas capitais do mundo e agridem a todos aqueles que não concordam com eles.
Agora me permitam falar de futebol. Quando Charles Miller, um brasileiro, trouxe da Inglaterra o futebol para o Brasil, este esporte era praticado pela elite da sociedade brasileira. Com o passar dos anos o esporte foi chegando aos bairros mais pobres e sendo praticado por pessoas mais humildes e foi dessa classe mais humilde que começaram a despontar os grandes craques do passado do futebol. Quando o Brasil ganhou a primeira Copa do Mundo em 1958, os jogadores eram tratados por aqui como heróis de uma grande conquista. Mesmo quando jogavam mal pelos seus clubes eram respeitados como campeões do mundo. O mesmo aconteceu com os bicampeões do mundo quatro anos depois. Nesse tempo não havia separação de torcidas e era muito comum irmos aos estádios com amigos que torciam por outros times. Às vezes saía uma briga isolada aqui ou ali que era logo separada pelos outros torcedores. Claro que havia um pequeno tumulto, mas era apenas uma briga entre duas ou quatro pessoas que era logo abafada pela polícia ou pelos próprios torcedores.
Nas transmissões pelas rádios, os locutores e comentaristas sugeriam que as torcidas fossem separadas. Foi uma verdadeira campanha para que isso acontecesse. E aconteceu! O Corinthians estava há muito tempo sem ganhar um título e a imprensa batizou sua torcida que crescia a cada jogo de Fiel Torcida. Logo depois, surgiram as torcidas organizadas, não só do Corinthians, mas de todos os clubes do Brasil. As arquibancadas viraram praças de guerra. De repente era um bando de um lado e outro bando de outro. Não era mais uma briguinha provocada por uma discussão. Era guerra mesmo, e valia tudo, com ataques de rojão, mastros de bandeiras e o que houvesse pela frente. Isso acontece até hoje.
O que essas torcidas organizadas estão fazendo pelo futebol é um crime. As pessoas de bem se afastaram dos estádios, os pais não levam mais seus filhos como antes e a televisão também prejudicou a frequência das pessoas. Por que pagar ao cambista um alto preço e correr o risco de ser atacado por torcedores mal intencionados, verdadeiros bandidos, vagabundos da pior espécie? E a imprensa ainda fala que o torcedor tem todo o direito de vaiar seu time quando ele joga mal. Por que tem esse direito? Por acaso temos o direito de vaiar um ator porque a peça que ele representa não é muito boa? Nós vaiamos um filme ruim no cinema? Se uma bailarina tropeça e cai, nós temos o direito de vaiá-la? Ora, que gente mais hipócrita.
O que esses bandidos fizeram no sábado, dia 1 de fevereiro, no Centro de Treinamento do Corinthians foi de uma barbárie sem precedentes na história do futebol brasileiro. O autor do gol mais importante do Corinthians, que deu ao clube o título de bicampeão mundial no Japão, quase foi enforcado por essa gangue de malfeitores.
Eu creio que se deveria acabar com as torcidas organizadas de futebol que convenientemente também se transformaram em Escolas de Samba e blocos carnavalescos. Não basta o futebol. Eles brigam também nas apurações dos desfiles. Fechem essas escolas de samba, acabem com as torcidas organizadas e o povo voltará aos estádios. Proíbam a entrada de bandeiras, luminosos, raios laser e quaisquer outros materiais que possam ferir alguém. Acabem com as barraquinhas em torno dos estádios que vendem cerveja e cachaça à vontade. Que se acabe essa autoridade que foi dada à Rede Globo de Televisão que marca os horários dos jogos para às 22 horas de um dia de semana. E que o torcedor vá para os estádios para torcer pelo time de seu coração. Eu disse estádios e não arenas como a imprensa começou a denominar os campos de futebol. Arena lembra o Coliseu, onde se lutava até a morte, onde leões comiam cristãos sob os aplausos de um povo doentio.
Augusto dos Anjos, um dos maiores poetas deste país disse em seus Versos Íntimos: "Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável,Mora, entre fera, sente inevitável. Necessidade de também ser fera." O homem sozinho pode ser do jeito que ele nasce, pode ser bom. Mas misturado à Mente Coletiva que prega o ódio torna-se uma besta humana.
Ivan Jubert Guimarães