08 de julho de 2026
Bairros

Tumulto transfere jovens de abrigo

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Éder Azevedo

Abrigo social teve vidros de portas e janelas quebrados

As quatro adolescentes de 13 e 14 anos responsáveis por um tumulto que culminou com vários danos materiais no Lar Social Santo Aníbal, no Parque Vista Alegre, foram transferidas – junto às demais menores atendidas – para outros dois abrigos, também mantidos por entidades filantrópicas com apoio da Secretaria Municipal do Bem Estar Social (Sebes).

As adolescentes foram levadas à Central de Polícia Judiciária (CPJ), junto ao Conselho Tutelar, para prestarem esclarecimentos sobre o conflito ocorrido no final da noite de segunda-feira.

Localizado na quadra 3 da alameda das Verônicas, o abrigo teve vidros de janelas e portas quebrados, além de ventiladores, móveis e utensílios da cozinha danificados.

No momento, duas educadoras sociais estavam na unidade, mas ninguém ficou ferido. O abrigo acolhe atualmente 13 crianças e adolescentes com idades entre 7 e 14 anos.

Destino

Segundo a direção do abrigo, as jovens foram transferidas temporariamente para a Casa de Nazaré e para o abrigo Bom Pastor.

“Após a reestruturação da casa, umas voltarão, outras continuarão onde estão e algumas, que já tiveram o aval no processo, seguirão de volta para suas famílias”, resume Elisabeth Nardo Baio, coordenadora da Casa do Garoto – entidade que mantém o abrigo em questão com apoio da prefeitura.

“Elas serão acompanhadas por um corpo técnico, formado por assistentes sociais e psicólogos, que deve apurar as causas desse desentendimento. Teremos que entender quais as angústias dessas meninas e o que de fato motivou esse comportamento”, reforça a conselheira tutelar Ieda Maria de Souza.

O caso foi registrado na Polícia Civil como ato infracional resultado de danos. No boletim de ocorrência consta como adolescentes infratores apenas as quatro adolescentes. As demais moradoras do abrigo, que possuem entre 7 e 11 anos, foram elencadas como testemunhas.

Sem regras

Qual o motivo para tanta revolta? Em entrevista ao JC, a coordenadora da Casa do Garoto nega que a entidade tenha registrado problemas anteriores ao desta segunda-feira e sustenta que as adolescentes teriam se rebelado diante de algumas regras do abrigo, o que incluiria, por exemplo, a proibição de saída do local desacompanhada dos educadores sociais e em período noturno.

“O problema é que elas querem sair sozinhas em dia de semana à noite e não querem respeitar as regras. Elas não ficam confinadas. Passam o dia em atividades da escola, de dança e judô, por exemplo. No final de semana, são liberadas para chácaras, shoppings e piscinas, acompanhadas por padrinhos cadastrados no abrigo”, contesta Elisabeth.

Cadê o celular?

A negativa do uso de celulares e de tablets pelas adolescentes também teria pesado contra o abrigo durante o tumulto.

“Assim como qualquer adolescente, todas têm Facebook e usam a Internet na residência e na Casa do Garoto durante o dia. Elas não estão desconectadas do mundo. Mas não podemos fazer diferença entre elas – se uma tem celular, todas teriam que ter”, fecha questão a coordenadora.

E a piscina?

Outra reivindicação, conforme o JC apurou, seria uma casa maior com a instalação de piscina. “A casa não é pequena, tem quatro quartos e os cômodos são grandes”, afirma Elisabeth.

Sobre a piscina, a coordenadora conta que há um projeto do abrigo, em parceria com um clube na cidade, mas que não está em andamento.

“Elas devem ter reivindicado a piscina ao saberem da existência desse projeto”, comenta a coordenadora, acrescentando que conversaria ainda ontem com o promotor da Infância e Juventude, Lucas Pimentel, na tentativa de encontrar soluções para alguns dos pedidos.


O abrigo

O Lar Social Santo Aníbal é mantido pela Casa do Garoto com apoio da Sebes e funciona em Bauru desde 2006. Inicialmente, o abrigo atendia crianças até os 12 anos de idade, mas a partir do ano passado começou a acolher também adolescentes de até 14 anos para ajudar a suprir a demanda no município.

A entidade atua acolhendo crianças e adolescentes em situação de risco, como, por exemplo, vítimas de abandono, maus-tratos e violência sexual.

O padre Marcos Lourenço Cardoso, diretor-presidente da Casa do Garoto, é o gestor do abrigo, que conta ainda com a coordenação de Elisabeth Baio.


Clima tenso

Em conversa com uma educadora social que trabalha na área há anos e afirma conhecer o abrigo, o JC foi informado que o clima do local estaria tenso já há alguns meses.

“As maiores estão comandando e judiando das menores. O clima ali é tenso e fugiu um pouco do controle. Elas devem ter feito isso para chamar a atenção. O problema ali não são as questões materiais, mas sim emocionais dessas meninas”, aponta a mulher, que pediu para não ser identificada pela reportagem.