09 de julho de 2026
Geral

A despedida do ?amigo silencioso?

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Fotos/Quioshi Goto

O pequeno vira-lata acompanhou o sepultamento e parecia conhecer o andarilho

O cão vira-lata acompanhou desde a entrada do caixão no cemitério Cristo Rei até o fim do sepultamento. No momento da prece, deitou à beira da cova. O animal magrelo parecia conhecer o andarilho oriental, que foi enterrado ontem sob orações e cantorias. Será que se conheciam? É mais uma das perguntas que poderá ficar sem resposta.

Além do pequeno vira-lata de olhar manso, 32 pessoas deram adeus ao japonês que foi atropelado no último sábado. A curiosidade sobre o passado do quieto homem foi aguçada, uma vez que, com ele, foram achados mais de R$ 6 mil. Timura, Sato, Nakamura, Shimura e tantos outros nomes surgiram, mas nenhum foi confirmado.

Era por volta das 16h30 quando o corpo chegou ao cemitério e foi direto para o columbário. Lá, em covas sinalizadas com números em tijolos, ficam, entre outros, aqueles que são sepultados como indigentes. Foi o caso do andarilho.

Se ele viveu por décadas sozinho, não foi assim seu enterro. Nenhum familiar esteve presente, porém, membros da igreja Tenrikyo de Bauru e de Duartina fizeram uma singela cerimônia. Entre palavras em japonês e português, as palmas isoladas eram o sinal de referência.

“Eu conheço ele há mais de 12 anos. Sempre que vinha a Bauru, passava por lá para levar água e comida. Mas ele nunca falou seu nome”, conta Tiharu Mabuti, condutor da Tenrikyo de Duartina.

Os membros da igreja fizeram uma fila e, um por um, despediam-se do andarilho, que foi sepultado na cova de número 69. Ramos eram depositados sobre o caixão. Frutas também foram oferecidas. É a natureza sendo oferecida para a alma.

Além da Tenrikyo, membros da Seicho-No-Ie também estiveram presentes para prestar suas condolências.

Enterro teve cerimônias das igrejas Tenrikyo e Católica no final da tarde de ontem

Anonimato?

Um diácono e outros presentes no enterro conheciam o andarilho de trabalhos assistenciais a moradores de rua. Foi dali que surgiu, inclusive, o mais próximo de um documento (leia mais abaixo).

“Ele não morre no anonimato. Tem um nome na eternidade. Viemos aqui agradecer por ele ter passado em nossa vida”, proferiu o diácono Rafael Mazzoni, em cerimônia católica.

Muitos dos rostos ali já eram conhecidos por terem procurado o JC ao longo desta semana para tentar ajudar de alguma forma. Inclusive Cirlene Terezinha Ramos Lacerda, 59 anos, que ofereceu o jazigo da família para um velório mais digno. Por questões familiares e de documentação, no entanto, não foi possível a doação do túmulo.

Após cerca de meia hora, o corpo foi enterrado. No rosto de cada um, a expressão de quem perde um amigo. “Nunca conversamos, mas era um amigo...”, disse uma senhora, exemplificando bem o sentimento de cada um daqueles que estavam ali.

Aos poucos, todos foram embora. O último a sair do lado da cova, porém, foi o pequeno cão. Tão silencioso quanto o andarilho, ele parecia dar seu adeus.


 

Colocada junto ao caixão, ficha preenchida pelo andarilho foi o mais próximo de alguma identidade

O mais próximo de um documento

Junto às flores, foi colocado um papel no caixão. Talvez o mais próximo de um documento. Foi uma ficha preenchida pelo próprio andarilho em outubro do ano passado. A letra ilegível, contudo, não findou o mistério.

Na ficha, é possível ler apenas ter noção da data de nascimento: 1937. Se estivesse correto, o homem teria 77 anos. Nome e profissão também aparecem, mas a leitura é impossível.

A ficha foi preenchida exatamente quando um grupo visitou o homem para dar assistência. Mesmo silencioso, ele a preencheu.


Catadora de recicláveis faz questão de estar presente

Como derrubar lágrimas por alguém que nunca trocou uma palavra com você? A resposta estava no rosto de Maria de Lourdes Siqueira da Silva, 64 anos. A catadora de recicláveis foi uma das que mais se emocionou no enterro.

Ela conta que conheceu o andarilho há mais de 10 anos. “Ele era muito bonzinho. Não fazia mal a ninguém. Por isso, fiz questão de vir aqui hoje”.

Das ruas, ela acabou criando um laço bastante próximo ao homem. “Eu brincava que ia me casar com ele e tirá-lo da rua. Mas ele só balançava o dedinho que ‘não’”, relembra, com ternura.


O caso

A história misteriosa está sendo acompanhada de perto pelo JC desde o último fim de semana. O andarilho foi atropelado na quadra 4 da avenida Nações Unidas no sábado.

O condutor do veículo disse que não conseguiu evitar o acidente e o caso segue em investigação. No momento da colisão, o andarilho vestia sete blusas. Quando a equipe médica retirou as peças de roupa, encontrou R$ 6.015,96.

O valor foi depositado em conta judicial e, caso não surja nenhum familiar, vai para o Estado.

Há ainda uma possibilidade de identificar a vítima. As impressões digitais foram colhidas e, caso o homem tenha retirado algum documento no Estado de São Paulo, as respostas devem vir ainda este mês.