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Os poucos episódios de chuvas que atingiram Bauru, inclusive na manhã de ontem, não bastaram para alterar um cenário preocupante no campo.
Com a precipitação abaixo da média e o forte calor nos últimos dois meses, vários foram os prejuízos registrados nas lavouras de Bauru e região.
Um levantamento realizado ontem pelo Sindicato Rural de Bauru estima perdas de até 80% da produção em algumas culturas, como a cana-de-açúcar, por conta da estiagem prolongada.
Os grãos como a soja e o milho, que seriam colhidos neste primeiro semestre, também tiveram cerca de 50% do plantio perdido.
O cenário é confirmado por produtores rurais e, inclusive, pela Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) de Bauru, que registra aumento de até 80% no preço de legumes e verduras.
“O forte calor em todas as regiões provocou grande evaporação do solo e agravou os problemas da falta de chuva. Mesmo que comece a chover agora, não será intenso como deveria ter sido em dezembro e janeiro. O prejuízo em algumas atividades, a meu ver, já é irreversível”, avalia o presidente do Sindicato Rural de Bauru, Maurício Lima Verde Guimarães, que também é vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp).
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Prejuízo
Produtor rural há mais de 40 anos, Filipe Manoel de Oliveira, de 57 anos, permissionário do Ceagesp, afirma nunca ter passado por tanto aperto.
“As plantações estão sendo regadas dia sim dia não, por falta de água. De janeiro para cá não choveu nada e eu perdi quase tudo. Beterraba, alface, repolho, acelga”, enumera.
“Daqui para frente, o consumidor pagará muito mais e terá uma qualidade inferior dos hortifrútis. Isso só não acontecerá com as frutas, porque elas vêm de longe”, reforça o técnico operacional da Ceagesp, Luiz Eduardo de Oliveira Barros.
De fato, ontem mesmo já era possível notar certo vazio no galpão da companhia.
“Do que restou, trouxe hoje (ontem) o meu melhor para vender e, mesmo assim, não está bonito. Até os produtos plantados em estufa não estão aguentando o calor e a falta de chuvas”, ilustra Filipe, mostrando as folhas queimadas dos repolhos e alfaces.
Na avaliação do sindicato, os prejuízos no ramo dos hortifrútis devem elevar em até 40% os preços finais de legumes e verduras nos supermercados.
“Em dez dias o consumidor já estará sentindo todos os efeitos da seca no bolso. O sol está queimando as folhagens”, aponta Lima Verde.
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Douglas Reis |
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O produtor Filipe Manoel de Oliveira relata 'aperto' |
Os mais afetados
Na lista dos produtos mais afetados pela estiagem prolongada na região, segundo o sindicato, estão a soja, o milho, a cana-de-açúcar, a laranja e o café.
“O calor elevado aborta as flores e a formação de estágios mais avançados na soja, como o enchimento dos grãos”, aponta Lima Verde.
Já em relação ao café, o presidente do sindicato ressalta que os cafezais estão murchos e derrubando as folhas, quando deveriam ter grande vegetação nesta época do ano.
“Os chumbinhos (estágio inicial da frutificação) caem e os que sobram ficam irregulares, causando grande problema na colheita”, resume.
Sobre as laranjas, Lima Verde aponta que o problema na redução da produção já ocorria no ano passado por conta da descapitalização do setor, mas que a falta de umidade tem dificultado ainda mais a produção, gerando maior perda.
Carnes
A estiagem dos últimos dias também refletiu na seca de 50% das pastagens da região, segundo o sindicato.
Fato que, somado ao preço elevado da soja e do milho, matérias-primas da ração artificial para bovinos, suínos e avicultura, deve elevar ainda mais o preço das carnes e até do leite ao consumidor final, correndo até mesmo risco de um possível desabastecimento.
“O pessoal está desesperado porque a ração artificial custa caro. Com os pastos secos, o gado não engorda e as vacas não produzem leite”, ilustra Lima Verde.
A chuva de ontem e a previsão de mais chuvas até o final do mês, contudo, devem amenizar os efeitos da estiagem prolongada no pasto.
“O pasto, diferentemente das culturas permanentes, tem capacidade de se recuperar mais rapidamente”, afirma o presidente do Sindicato Rural de Bauru.
Sem abusos
Segundo Lima Verde, os dados fornecidos pelo Sindicato Rural de Bauru, contudo, refletem uma expectativa de prejuízo dos agricultores frente ao fenômeno que começa a ser percebido, mas deve ocorrer de fato daqui a alguns meses.
“Infelizmente, alguns estabelecimentos já estão elevando seus preços ao consumidor antes mesmo das perdas das culturas permanentes serem constatadas de fato no campo. Grande parte dessas produções de soja, milho, laranja, café e cana teria a colheita apenas em meados de maio, não tem por que aumentar o preço agora”, critica.
‘Laranja da boa’
Enquanto vários produtores sofrem com a perda de parte da produção na região, alguns, como é o caso de Hélio Lira, 67, comemoram a colheita da laranja plantada em sistema controlado de irrigação. “Não perdi nada, aqui só tem laranja da boa. Mas conheço muita gente que perdeu produção por causa da falta de chuva. Aposto tudo na irrigação correta”, comenta o agricultor, que comercializava ontem seus produtos no Ceagesp.