08 de julho de 2026
Bairros

Trilhas de terra são alternativas

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

João Rosan

As trilhas percorrem trajetos de terra que interligam diferentes regiões da zona rural

Não obstante muitos não abrirem mão de trechos às margens das rodovias para pedalar, Bauru conta, há anos, com grupos que percorrem percursos majoritariamente de terra. Organizados, os frequentadores formam elos de amizade, contam com apoio operacional para socorro mecânico e para eventuais acidentes e cadastramento.

Um desses grupos é o Bike Brothers. Na primeira quarta-feira de fevereiro, eles repetiram o encontro, cuja concentração é realizada às 19h30 em um posto de combustível localizado próximo á rodovia Marechal Rondon, no prolongamento da avenida Getúlio Vargas.

O grupo reuniu 80 bikes, entre veteranos e iniciantes. Lá estava Valdinei Garcia. A trilha é informada no dia. A opção do dia foi para um percurso de 26 quilômetros. Apenas um pequeno trecho entre a marginal da Bauru-Jaú próxima do Instituto Lauro de Souza Lima até o Hospital da Unimed é de asfalto. “Andar em estrada não dá. Ninguém respeita. É mais seguro ir pelo trecho de terra”, pondera.

O grupo sai do posto e entrada na estrada de terra logo após a travessia por baixo do viaduto da Rondon, na zona sul. “Vamos pela estrada de terra até chegar ao radar da Unesp e descemos até o rancho M. Em seguida passamos pelo linhão até chegar na entrada do Lauro de Souza Lima. Seguimos pela pista novamente até o posto que tem ao lado do hospital da Unimed e entramos novamente pela estrada de terra na lateral do posto até o cemitério Dolores (antigo cemitério do hospital Lauro de Souza Lima). De lá ou percorremos até o Vale do Igapó ou voltamos, dependendo de quem estiver pedalando”, conta uma das integrantes da ala feminina do Bike Brothres, Lilian Zardetto. 


Perigo na pista

João Aldo, o Foguinho, gosta tanto de pedalar que o grupo da qual participou da fundação, o Vai quem qué, tem mais de 20 anos. “Nas rodovias, a segurança é muito difícil, mesmo em trecho de acostamento autorizado pela Polícia Rodoviária. Um dos perigos ignorados por quem pratica atletismo ou pedala em rodovia é o forte deslocamento de ar, sobretudo com caminhões. É muito perigoso”.   

Seu grupo também tem trilhas já consolidadas. “Percorremos a zona rural. Tem na saída para Bauru-Agudos, tem por Bauru-Piratininga e outros trechos que se cruzam na zona rural em diferentes pontos. Temos uma picape de apoio para quem cansa ou tem algum problema e definimos o percurso com orientação na saída”, conta.

Foguinho conta que, além de uma bike preparada, com manutenção em dia, é indispensável luva, capacete, faixa refletiva, flash em cima do guidão e óculos.


Risco iminente

O 1º tenente PM, Fernando Ferreira de Moraes, ressalta a relação entre velocidade e risco de acidente em rodovias. “Quanto maior a velocidade desenvolvida, menor será o tempo que o condutor de um veículo automotor terá para reagir diante de um obstáculo. Em regra, a velocidade máxima das rodovias é entre 80 e 120 Km/H, a qual é consideravelmente alta quando comparado com a velocidade das vias urbanas (ruas e avenidas). Assim, o risco de ocorrer um acidente na rodovia é maior, bem como sua gravidade”.

Outro fator que o profissional destaca é que os ciclistas visualizam os veículos automotores com facilidade, em razão do tamanho, do sistema de iluminação e do ruído do motor ou do próprio deslocamento dos veículos. “No entanto, os ciclistas não são vistos pelos condutores dos veículos automotores com a mesma facilidade, em razão do tamanho reduzido, por não fazer ruído e não dispor de sistema de iluminação”, diz.

A polícia lembra que o Código de Trânsito Brasileiro, em seu artigo 58, prevê que “nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores”.

Entretanto, o risco de acidente reduz quando o ciclista, além de respeitar o previsto no CTB, adota procedimentos de segurança, tais como: uso de sistemas de iluminação (vermelha na traseira e branca na dianteira), uso de faixas retro refletivas, de capacete e de roupas claras (durante a noite) e, ainda ,quando este se mantém no ponto mais afastado possível em relação à faixa de rolamento, entre outros.


Acidente fatal

Hailton Pereira da Silva, 48 anos, trafegava pelo acostamento do quilômetro 225 da rodovia mais 650 metros, por volta das 8h40, em março do ano passado, quando foi atingido por um Fiat/Strada, com placas de Bauru, conduzido por um rapaz de 19 anos, que teria perdido o controle do veículo e capotado na pista. O jovem não sofreu ferimentos. O ciclista morreu no local.

Hailton, conhecido como “Ceará”, morava no Jardim Bom Samaritano, praticava ciclismo há 20 anos e representou Bauru e Itatinga em Jogos Regionais e no Abertos do Interior.

Na manhã do acidente, ele havia se encontrado com outros dois colegas com quem treinava diariamente na beira das rodovias que cercam a cidade, mas teria decidido seguir sozinho pelo outro lado da pista, relatou a repórter Marcele Tonelli, do JC, em matéria sobre a morte do ciclista na ocasião.

“Sempre andamos na mão certa do acostamento e com todos os equipamentos de segurança. Não dá para entender uma tragédia dessas”, lamentou, à época, o amigo do ciclista Carlos Augusto Resta Guimarães, 26 anos.

No local, o cenário do acidente envolvendo a bicicleta e o carro era de destruição. A força do impacto chegou a arrancar o pneu traseiro da bicicleta, que ficou completamente amassada.

De acordo com o delegado plantonista Mário Ramos, a cena apontava que a vítima teria sido arrastada pelo veículo enquanto capotava e só parou ao colidir contra um barranco. À polícia, o condutor do Fiat/Strada, placas DDZ-3292, Westerley Beltrami informou ter perdido o controle do carro.

O acidente aconteceu a alguns metros de um acesso a um posto de combustível, localizado entre os limites do município de Bauru e Pederneiras. O local integra um trecho da trilha de grupos de bikers de Bauru.