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João Rosan |
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Legislação terá de exigir área permeável nos quintais, de acordo com tamanho do terreno e área construída |
A torneira está cada vez mais seca em milhares de moradias. Água potável é produto em falta! E faz tempo... A conhecida crise no abastecimento de água em regiões de Bauru e as mudanças climáticas exigem alterações nas regras comportamentais e de política de consumo que ataquem da reservação ao desperdício, da multa para quem jorra sem juízo o líquido na calçada ao incentivo ao consciente que economiza para consumo em casa.
O JC colheu nas ruas abordagens e experiências reais de uso racional e sustentável e identificou práticas de consumo próximas de “zero” com a adoção, por exemplo, de um sistema de calha de captação da água da chuva associado à reutilização por vários ciclos do líquido com o uso de filtragem em cisterna.
Mas no meio empresarial e acadêmico, e também entre consumidores individuais, há consenso de que a cidade já deveria ter revisto a legislação que trata da reutilização e da racionalização de água potável.
As medidas discutidas entre diferentes segmentos são vinculadas. Em uma ponta, o poder público reconhece a necessidade de estabelecer um plano de substituição de rede e de combate a vazamentos no sistema. Em outra, representantes do setor acadêmico e empresarial sugerem pressa na adoção de regras para utilização de água da chuva e de coeficientes de permeabilização do solo.
O produto é finito e o abuso, farto. No ano passado, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) retirou do rio Batalha (que abastece 40% da cidade) e de 35 poços profundos o equivalente a 48 milhões de metros cúbicos de água. Metade desse volume tratado com cloro escorreu por vazamentos em tubos. Já é considerada nesse patamar uma parte do líquido que chegou aos imóveis mas não foi medida pelos milhares de hidrômetros velhos ou avariados.
Além disso, enquanto na quadra 1 da rua João Dal Médico, no Núcleo Mary Dota, o aposentado Ricardo Wagner representa milhares de bauruenses com torneira seca em casa, em outros tantos diferentes endereços “cidadãos” apontam o esguicho para levar um pouco mais longe de suas calçadas um punhado de folhas que incomodam na entrada das casas. A água virou vassoura. E faz tempo.
Experimental
O professor de engenharia elétrica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Angelo Cagnon é um dos que se debruça sobre projeto a respeito da temática.
A ideia é conceber uma espécie de imóvel experimental que seja praticamente autossuficiente para consumo de energia e água. “E a questão não é o fim do mundo”, adverte. Na verdade, o “fim do mundo” é o abismo entre a sabida limitação de oferta de água e a postura cultural do brasileiro.
“Em 2002 eu participei de um trabalho para o DAE na área energética que concluiu que, se as bombas dos poços profundos não trabalhassem no horário de ponta, a economia com energia elétrica seria de 40%. E a saída para sustentar esse sistema era investir em reservação, para permitir que essas bombas sejam desligadas exatamente no horário onde a energia é mais cara em mais de cinco vezes do que horários convencionais. Mas a crise no abastecimento se agravou e o sistema continua sem avançar”, comenta.
Para o acadêmico, a epidemia da água precisa ser tratada sem pano seco. “Em condomínios ou construções verticais a norma tem de exigir medição individual, por exemplo. Você cobra de forma justa de cada um e acaba com o anticomportamento coletivo do vizinho que se aproveita da cobrança por um único hidrômetro e esbanja sua falta de consciência cidadã e ambiental”, sugere.
O professor também considera atraso a administração municipal não exigir projetos elétrico e hidráulico para moradias.
“A prefeitura só exige o projeto civil. É preciso rever isso. Eu levei ao Crea [Conselho Regional de Engenharia e Agronomia] uma sugestão de discutir junto ao poder público a exigência de reuso de água para construções a partir de 150 metros quadrados. É preciso pensar em cisterna como uma parte dessa problemática. O mais assustador é que tem água da chuva para ser captada e isso não é uma medida cara para a construção”, aborda.
Na experiência em andamento no projeto do campus, o engenheiro conta que o consumo e o desperdício estão próximos de zero.
“A água da chuva é captada pela calha e o bombeamento é feito com o uso de energia captado por placa fotovoltaica e isso não gera nenhum custo de consumo. No Nordeste brasileiro quem tem cisterna é rei e aqui parece horroroso falar nisso”, expõe.
Lei do reuso em desuso
No mês de seu aniversário, em agosto de 2011, Bauru ganhou de presente: uma legislação para criar o Programa Muniicpal de Uso Racional e Reuso de Água em Edificações. De autoria do vereador Francisco Carlos de Góes (PR), o projeto, entretanto, sofreu uma modificação que inibe sua eficácia.
Carlão defendeu, no projeto original, que imóveis com área construída a partir de 200 metros quadrados teriam de contar com cisternas para armazenar a água captada da chuva.
“Eu defendi que essa exigência seria importante para que a água da cisterna fosse utilizada para lavar carro e calçada, uma medida inicial para caminharmos com o sentido de racionalização e conscientização. Mas o projeto foi aprovado com definição de 300 metros quadrados de área de cobertura, de telhado. É um início, mas muito tímido para atacar o tamanho do problema que temos”, conta.
O parlamentar defendeu, ainda, que a água captada da chuva pudesse ser direcionada para o uso em vasos sanitários.
“É absurdo a água potável, clorada, ser desperdiçada pela válvula de descarga e ir para a tubulação junto com o esgoto. A medida é barata para construções a partir de 200 metros quadrados e o resultado é gigantesco em escala. É um sistema simples, de cantoneiras. A cisterna com bomba e uma caixa separada é o elemento adicional. Imagina a economia de água por reuso e aproveitada da própria natureza. Na Austrália se bebe água da chuva após tratamento e no deserto investem milhões em dessalinização. Aqui no Brasil temos falta d´água e falta de consciência na mesma proporção”, lamenta.
As esponjas naturais
Francisco de Góes e Etelvino Zacarias atuam em segmentos diferentes, moram em bairros distantes um do outro, mas pensam igual quando a questão é sustentabilidade. Ambos defendem que, além de regulação na política de uso, reuso e racionamento de água, a prefeitura tem de passar a regulamentar a permeabilização da área urbana.
“Os quintais são esponjas naturais, mas as pessoas passaram a eliminar árvores frutíferas e perdemos também a brisa das sombras. A onda passou a ser de piso frio para todo lado e então o homem moderno passou a conviver com a era do porcelanato e do quintal com churrasqueira sem ter consciência de que está, com isso, impedindo a reposição de água no aquífero.”, reforça Francisco.
Etelvino Zacarias, auditor florestal, de sua parte, cuidou de manter em pé e sob cuidados as árvores de seu quintal. “A copa das árvores faz o trabalho de redução do impacto da queda da água da chuva diretamente no solo, o que já contribui. Depois as árvores e as plantas, com o chão em terra de preferência, realizam a recarga natural do aquífero. Como era antigamente. Isso precisa ser regulamentado a partir de determinado tamanho de construção em relação ao tamanho do terreno. Não é para terrenos pequenos essa medida. Mas é fundamental para a recarga do aquífero, do subsolo. Hoje essa água corre rapidamente pelo asfalto e pelo sistema pluvial e não repõe nossa reserva subterrânea”, salienta.
A outra parte dessa história já está inscrita em lei. A lei dos passeios públicos, de 2009, instituiu exigência de área permeável, a chamada lei das calçadas. O então vereador José Roberto Segalla (DEM) trabalhou intensamente pela aprovação do projeto e, também, pela sua aplicação. Mas a norma não faz parte da prioridade de fiscalização da Seplan.
Propostas de uso inteligente
multa para desperdício
desconto para economia
captação de água da chuva
sistema de reuso
plano contra vazamento
mudança no comportamento
quintal permeável
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