07 de julho de 2026
Ser

Bloco na rua


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Quando criaram o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, há quatro anos, o apresentador Alê Youssef, 39 anos, e o empresário Alexandre Santacci, 45 anos, esperavam reunir 200 amigos. Juntaram 3 mil. No ano passado, já eram 25 mil pessoas, segundo os organizadores. No último dia 2, o jornalista Rodrigo Bento esperava 4 mil pessoas para a segunda edição do seu bloco, o Pilantragi, na Pompeia, zona oeste de São Paulo. Apareceram 15 mil. O movimento já é considerado o ressurgimento do carnaval de rua de São Paulo.

"É uma explosão", diz Alberto Ikeda, professor do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pesquisador da cultura popular brasileira. "Nos anos 1970, no mesmo período em que as escolas de samba se fortaleceram, o carnaval de rua ficou meio esquecido. Há dez anos, começou esse movimento de volta, com alguns blocos alternativos. O carnaval é uma festa da qual as pessoas querem participar, e não apenas assistir."

Quase 200 blocos e cordões carnavalescos se cadastraram na Prefeitura de São Paulo. No ano passado, de acordo com a Secretaria Municipal de Cultura, saíram pelas ruas da capital entre 50 e 60 blocos.

Idealizador de um dos blocos mais antigos em atividade, a Banda Redonda, Carlos Costa, ou simplesmente Carlão, de 80 anos, acompanhou as mudanças pelas quais passou a folia de rua paulistana. "Bom mesmo era quando a gente fazia carnaval na Praça da Sé, nos anos 1940.

Todos os bondes chegavam e saíam de lá, então era o lugar da cidade em que nos reuníamos. O grande momento era quando íamos para a frente da Rede Record (também na região central) ver os artistas que vinham do Rio", lembra.
Nas décadas seguintes, a folia de rua foi diminuindo, até que se tornou praticamente inexistente nos anos 1970.

Foi em 1972 que Plínio Marcos, inspirado na Banda de Ipanema, fundou a Banda Bandalha. "Ele estava fazendo uma novela no Rio e os cariocas só falavam que São Paulo era o túmulo do samba, que cordão de paulista era cordão de isolamento e piadas desse tipo. Então, surgiu a Bandalha, que acabou durando só dois anos", lembra Carlão.

Para substituir a Bandalha, em 1974, Carlão criou a Redonda, que sai até hoje no centro da cidade, com concentração na frente do Teatro de Arena. "Naquela época, era tudo muito simples, não pensávamos em dinheiro."


Manifestações

Hoje, segundo os especialistas, o modelo é mais empresarial. "Mas não deixa de ser um carnaval de participação", aponta Alberto Ikeda, que vê ainda uma conexão com as manifestações de junho. "É o mesmo tipo de ocupação do espaço público, que deixa de ser apenas usado para deslocamento e vira palco de expressões culturais e políticas."

"As pessoas querem uma transformação, estão cansadas de ficar dentro de casa, querem se relacionar na rua", opina Rodrigo Bento, de 31 anos, idealizador do Pilantragi. "O trânsito para sair de São Paulo está demais, as praias estão cheias. O paulistano está começando a querer pular carnaval aqui mesmo", afirma Julio Pimenta, idealizador do novíssimo Cordão Carnavalesco Amigos Pratododia, que sai pela primeira vez neste ano, na Barra Funda.

"Estamos caminhando para o modelo do Rio, em que a Prefeitura centraliza tudo, o que considero muito positivo. Não é possível que São Paulo não tivesse um carnaval de rua decente", diz Alê Youssef.


?Agora ou nunca?

Em Bauru, os trios elétricos são a principal inspiração para o bloco bauruense de rua "Agora ou Nunca", que segue os mesmos moldes das folias dos trios elétricos no Brasil afora. E, mais uma vez, o bloco (restrito para convidados) "desfilou" pelas ruas de Bauru para mostrar a força da alegria e Os foliões sairiam ontem.

Em entrevista ao JC, os organizadores afirmam que, além do resgate da festividade carnavalesca, o "Agora ou Nunca" também tem caráter solidário. Todo o valor arrecadado com a compra de abadás é revertida ? assim como no ano passado ? para a Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes).

"O bloco nasceu o ano passado, e veio pra ficar e virar tradição. Foi um sucesso ? alcançamos o objetivo que foi unir a diversão, lazer, com uma ação social ? e tivemos em torno de 300 pessoas ano passado, revivendo os tempos de auge do Carnaval, resgatando aqueles tempos mágicos", ressaltou Roger Barude, integrante e organizador do bloco e também secretário municipal de Esportes ao JC em entrevista veiculada no início deste mês.