Uma operação deflagrada pela Polícia Civil de Bauru terminou, na manhã de ontem, com a desarticulação de uma quadrilha fortemente armada acusada de comandar o tráfico de drogas no Jardim Vitória. Ao todo, 14 pessoas foram presas, três continuam foragidas e um 18º suspeito ainda não foi identificado.
O grupo atuava em duas grandes biqueiras na cidade. A principal delas funcionava na quadra 24 da rua Walter Belian, no Jardim Vitória, e a outra na quadra 3 da rua Vidal Inácio Rodrigues, na Vila Ipiranga. Juntos, os pontos chegavam a faturar mais de R$ 20 mil por dia com a venda de entorpecentes, segundo a polícia.
As prisões dos supostos integrantes, assim como a apreensão das drogas e armas da organização criminosa, aconteceram entre o período das investigações, que tiveram início em novembro de 2013 e, terminaram ontem de manhã, com a prisão dos quatro últimos suspeitos.
Armamentos
Acusada de dominar o Jardim Vitória e, inclusive, causar terror aos demais moradores, a quadrilha em questão escondia armas em um terreno na entrada do bairro.
São armamentos de grosso calibre e de alto poder de precisão usados normalmente em situações de guerra, como os fuzis AR-15 calibre 556 e um mosquetão de 7 milímetros, além de uma submetralhadora calibre 380.
Também foram apreendidos dois revólveres calibre 38, duas pistolas calibre 9 milímetros e uma pistola ponto 45, todos municiados.
"A biqueira funcionava como um quartel general no Jardim Vitória. Qualquer crime que ocorresse lá dentro e que gerasse prejuízo ao tráfico era retaliado depois”, comenta o delegado Ricardo Dias, titular da Delegacia de Investigação Sobre Entorpecentes (Dise).
“Com certeza, é uma das maiores quadrilhas, senão a maior e com mais poder bélico, que já desbancamos em Bauru", comenta o delegado Ricardo Martines, titular da Seccional de Bauru.
Estrutura familiar
Apontado como líder da quadrilha, Thiago Ramos de Menezes, vulgo Catatau, de 29 anos, foi preso em uma casa de luxo na Vila Santa Luzia, no dia 19 de fevereiro, com a esposa, Letícia Alves Ribeiro, vulgo Leka, de 25 anos. Ela receberia cerca de R$ 5 mil por mês do bando pelo uso da antiga casa de sua família, no Jardim Vitória, como ponto de tráfico.
No mesmo dia também foram presos Wesley Taumaturgo, vulgo Marquinho, de 23 anos, indicado como sócio de Catatau no esquema, e a moradora do Parque Real Marlene Ramos de Menezes, de 48 anos, mãe do líder do bando que seria responsável pela contabilidade do tráfico.
“Estamos diante de uma verdadeira organização criminosa, com armamento pesado, hierarquia - muitas vezes imposta através da força-, distribuição de tarefas e que conta, inclusive, com estrutura familiar”, comenta Martines.
Além dessas, foram várias as abordagens realizadas entre as biqueiras do Jardim Vitória e da Vila Ipiranga, nos meses de janeiro e fevereiro, que culminaram ainda com a prisão de mais dez integrantes.
Até o fechamento desta edição, o 18º integrante ainda não havia sido identificado e outros três estavam foragidos: Thiago Luiz Alves, o Tiaguinho, Diego Moreira de Souza, o Japa, e Gustavo Pereira Mendes, o Gu.
Atuações
De acordo com um organograma apresentado pela polícia, Leandro dos Santos Silva, vulgo Peixe, de 25 anos, atuava como o gerente de vendas e era o elo entre os dois sócios, Catatau e Marquinho.
Eliezer Henrique Pinheiro Alves, vulgo Xaninha, de 25 anos, seria gerente de um das biqueiras. Sidnei Queiroz, vulgo Nei, é apontado como responsável por armazenar a droga. Já Edypo Pery Barbosa Prado, vulgo Edinho, de 25 anos, comercializava os entorpecentes, e os irmãos Edivaldo Galdêncio, vulgo Sarna, de 27 anos, e Reginaldo Galdêncio, vulgo Nanaco, de 24 anos, auxiliariam Nei no armazenamento e na distribuição dos entorpecentes.
Também foram presos Fernando dos Santos, vulgo Fernandão, e os irmãos Lucas Henrique Pereira, vulgo Luquinha, de 23 anos, Luciano Pereira e Leonardo Pereira, vulgo Nardo, que moravam próximos à biqueira do Jardim Vitória.
Eles são acusados de participar da organização como “olheiros”, ou seja, eles avisavam os demais sobre a movimentação da polícia no local. Luquinha, porém, também seria responsável por transportar o entorpecente e atuava como vendedor.
No final da operação, ontem, as equipes da Polícia Civil da Central de Polícia Judiciária (CPJ) deram cumprimento aos mandados de prisão temporária contra Sidnei Queiroz, Lucas Pereira e os irmãos Edvaldo e Reginaldo.
Alguns acusados foram presos em flagrante e encaminhados ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru. Outros, que cumprirão mandado de prisão temporária, foram para a Cadeia Pública de Avaí.
Se condenados, os integrantes do bando devem responder por tráfico e associação para o tráfico de drogas, além de outras ocorrências distintas envolvendo porte ilegal de arma de fogo.
Mais de 1.400 porções de drogas foram apreendidas
Além dos armamentos, foram apreendidos ao longo de toda a operação aproximadamente R$ 7 mil em dinheiro, 1.484 porções de drogas, entre cocaína, maconha e crack, além de um colete à prova de balas e seis veículos que teriam sido obtidos com o lucro do tráfico – entre eles uma Captiva e um Civic.
A polícia suspeita ainda que Thiago tenha vendido, recentemente, um Camaro na cor branca para a compra de um imóvel na cidade, após suspeitar da atuação da polícia.
Após o término das investigações, os bens apreendidos serão revertidos para um fundo de ações de prevenção ao uso de drogas do Estado.
Sem conta bancária
O curioso é que, apesar das posses e do alto lucro obtido com a venda dos entorpecentes, o líder do bando, Thiago Ramos de Menezes, segundo os delegados, não possuía dinheiro em contas bancárias.
“O que intriga é que nenhum dos integrantes dessa quadrilha possui ocupação lícita, ou seja, numa tentativa de lavar o dinheiro obtido com a venda das drogas”, frisa Dias.
Entre as quantias em dinheiro apreendidas nas biqueiras havia mais de R$ 3 mil em moedas.
Outro detalhe que chama a atenção da polícia é que um dos acusados, que não teve a identidade revelada pela polícia, possui carteira de habilitação paraguaia – o que aponta a possibilidade de importação da droga e dos armamentos.
“É um indício de que essa organização também tinha um trânsito fora do País, mas tudo será investigado”, comenta o delegado seccional.
Empréstimos de armas?
Em posse das armas, a Polícia Civil de Bauru pretende esmiuçar ainda mais a atuação da organização criminosa. “Acreditamos na possibilidade de que eles agiam alugando as armas para outras quadrilhas da região”, aponta o delegado Ricardo Dias.
O fuzil AR 15, apreendido na operação no Jardim Vitória ontem, possui o mesmo calibre do armamento utilizado em um assalto a banco ocorrido em Avaí, nas últimas semanas.
“Nada impede que essas armas tenham sido usadas em outros tipos de crime, como homicídios e roubos”, reforça Ricardo Martines, antecipando que o armamento passaria por exames de balística.
Para se ter ideia do poder de fogo do fuzil AR-15, um disparo chega atingir até 950 metros por segundo. “Não tem colete à prova de balas que pare um tiro desses. Com certeza, evitamos uma tragédia tirando esse armamento de circulação”, ressalta Martines.
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Éder Azevedo |
Éder Azevedo |
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A quadrilha usava armamento pesado |
Armamento pesado foi apreendido; no detalhe, Thiago Menezes |
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Éder Azevedo |
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Além das armas, foram apreendidos dinheiro e drogas; 14 pessoas foram detidas |