09 de julho de 2026
Articulistas

Menos incertezas

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Se empresários e trabalhadores se deixarem dominar por dúvidas sobre o futuro da economia, a estabilidade dos níveis de emprego ou quanto a natureza das políticas monetária e fiscal, ou ainda desconfiarem de um ativismo regulatório que implicitamente desrespeita contratos, a tendência do desenvolvimento é murchar. Dúvidas dessa natureza alimentaram o clima de pessimismo dominante nos primeiros meses do ano passado, com empresários adiando investimentos e trabalhadores reduzindo o consumo, como uma forma de seguro quanto aos riscos do desemprego.

No final do primeiro semestre a incerteza cresceu diante dos conflitos nas manifestações de rua, produzindo reações esquizofrênicas nos poderes Executivo e Legislativo. Um balanço mesmo preliminar do comportamento da economia no segundo semestre mostra, contudo, que o pessimismo das pessoas não encontra correspondência nos dados da conjuntura. Com todo o barulho midiático a propósito da queda da taxa de crescimento da economia que fechou 2013 um pouco acima de 2%, dois resultados significativos "esfriaram" o ímpeto pessimista: 1) a produção agropecuária (aumento da oferta de carnes e mais as colheitas recordes de arroz, soja, milho, algodão e feijão, praticamente em todas as regiões do país) não apenas garante o abastecimento alimentar dos 190 milhões de brasileiros como está ampliando as exportações para algo próximo de 100 bilhões de dólares.

2) Na virada do ano e no primeiro mês de 2014 o nível de desemprego caiu para menos de 5%, consolidando uma situação praticamente de pleno emprego, numa conjuntura mundial de seis anos de crise que mantém 60 milhões honestos trabalhadores sem ocupação.

Os problemas que vivemos são, em larga medida, consequências de uma bem sucedida política de inclusão social que deve ter um prosseguimento adequado porque é parte do processo civilizatório que desejamos construir. Podemos aceitar que cometemos alguns exageros ao recorrer a instrumento pouco eficiente para superar a pobreza (principalmente a absoluta), como na correção do salário mínimo, que tem efeitos colaterais dramáticos sobre as finanças públicas. Mas não é possível negar que tivemos um inegável sucesso na superação da "Grande Recessão" de 2008/09. Exorbitamos em seguida, na ênfase ao consumo.

Isso não pode esconder o fato que nos sete anos de escuridão da economia mundial (2007-2013), o PIB brasileiro cresceu à média anual de 3,5%; a Dívida Bruta/PIB andou às voltas do 60% e acumulamos 360 bilhões de dólares de reservas externas. Desde 2011, entretanto, uma conjunção de fatos internos e externos foi expondo a fadiga de nosso crescimento. Uma explicação plausível é que o desenvolvimento econômico consistente exige uma certa harmonia no uso do produzido (o PIB) entre o consumo de hoje e o investimento que aumenta a capacidade produtiva que vai satisfazer o consumo de amanhã.

O problema é que o nível de investimento privado não depende apenas da existência de demanda, mas do sentimento geral dos empresários, do seu "espírito animal". Se eles acreditam (como acreditaram até há pouco), que o governo lhes é pouco amigável, não há incentivo que os mova. A saída para continuar com a política civilizatória é harmonizar as relações entre "distributivismo" (com porta de saída) e a volta ao crescimento, que é a condição necessária para sustentá-lo, o que exige mais investimento. A fórmula é: maior liberdade de iniciativa e ênfase nos estímulos à competição.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC