09 de julho de 2026
Articulistas

Mau Senso F.C.

Sinuhe Daniel Preto
| Tempo de leitura: 3 min

Fiori Gigliotti, se fosse vivo e estivesse a narrar uma partida de futebol no Estádio Alfredo de Castilho, mudaria seu famoso e espetacular pontapé inicial de toda e qualquer partida: "Apita o árbitro, abrem-se as cortinas e NÃO começa o espetáculo!" O meu maior medo, por ser um fanático torcedor do Esporte Clube Noroeste, é esse, que não haja mais espetáculo, a não ser os stand-ups, que se proliferam por esta Sem Limites, alijando-nos de peças que não nos preguem peças!

No entanto, a peça que falta a esse time de ferroviários é o tal do vil metal, a Era Damião findou-se, o clube foi estruturado pela família Garcia, mas não soube preparar-se para o fim e, em um golpe não tão maquiavélico, os meios justificam o fim, será o fim, Noroeste?

Há tempos não tão distantes, o Jornal da Cidade realizou uma campanha questionando se o bauruense amava o Esporte Clube Noroeste e o resultado foi um "Sempre te vi, nunca te amei", frustração dos raros que amam esse clube centenário!

Leonardo de Brito, um dos responsáveis, se não o maior responsável em uma histórica parceria com o saudoso Celso Zinly, de trazer Damião Garcia para Bauru, costuma dizer: "Entender de futebol é fácil, difícil é entender de Noroeste!" Concordo com o mestre da terra do sociólogo Gilberto Freyre. Creio que o Norusca não é nem da Casa Grande, nem da Senzala: "Noroeste, torcida de poucos, paixão de alguns, polêmica de todos!"

Mas, afinal, qual é o problema que aflige eternamente esse time apelidado de ioiô, devido aos seus eternos acessos e descensos? Creio que o que tenho observado nesses meus felizes 40 anos de torcedor noroestino é a falta de credibilidade. Às vezes, penso que o clube extinguiu-se simultaneamente com os trens, sua razão de nascer e ser, assim como o trem foi trocado pela tríade: caminhão, diesel e pedágio, o Norusca foi trocado pela televisão, cabo e o "pagar para ver"!

O que é mais incrível nisso tudo é que o Esporte Clube Noroeste ainda é o maior veículo de divulgação da Sem Limites. Ao viajar -se por qualquer parte do Brasil, pergunta-se sempre sobre o clube da Vila Pacífico, ou seja, o Norusca divulga Bauru, ainda que esteja na Terceira Divisão!

Ao longo dessa história, foram muitos erros: sede campestre, vendas irregulares de jogadores, vendas por preços pífios de ótimas promessas, pessoas injustiçadas, soberba em não querer apoio. Veja o Baroninho. Está na Turquia, no Fenerbahçe, e ninguém o procurou. Ele foi responsável pela revelação de muitos jogadores. Dirão os críticos: "Futebol virou negócio!" E e o que não virou? Então, não é a hora de o clube ser empresa?

A saída é mostrar ao empresariado bauruense que o clube é rentável, não tão somente por placas expostas no estádio, mas pela extensão empresa-clube-empresa. O patrão e o empregado têm que amar o mesmo time por uma cidade, as empresas têm que divulgar, comprando ingressos, distribuindo-os para seus funcionários. Por todo canto, deve-se falar do Noroeste aos filhos, netos, sobrinhos... Devem-se exaltar Zeola, José Carlos Coelho, Baroninho, Lela, João Marcos... O torcedor quer que o time o represente, por isso, ele se sente mal, quando o time está mau!

A certeza é a de que o Esporte Clube Noroeste é muito grande. Os homens, bem ou mal intencionados, passam, e o Norusca continua, sobrevive à míngua e à má língua do torcedor que o trai. Tal qual a "dama da noite", na esquina da Ezequiel Ramos, no Centro de Bauru, o Noroeste espera o seu cliente. A noite é longa, a demora é marcada pelo sereno, pela frieza, pela "lua que tal qual a dona do bordel pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel..." Entretanto e entre tantos, o cliente aparece e grita: "Ah! Eu sou Norusca!" E Fiori Gigliotti, lá do céu: "Apita o árbitro, não se fecham as cortinas e continua o espetáculo!"

O autor, Sinuhe Daniel Preto, é Norusca até a morte, desde que a sua seja primeiro que a do Esporte Clube Noroeste!