10 de julho de 2026
Regional

Navegação na hidrovia Tietê-Paraná fica restrita

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 4 min

João Rosan

Nível do rio Tietê baixou bastante em trecho próximo a terminal onde ficam as barcaças em Pederneiras

A falta de chuva já afeta a navegação na hidrovia Tietê-Paraná próximo a Pederneiras (26 quilômetros de Bauru), onde tem o porto intermodal que faz interligação com ferrovia. O Departamento Hidroviário do Estado (DH) confirmou ontem que a hidrovia está com a movimentação restrita em função da estiagem que afeta o Estado e é agravada pela crise no setor energético, porque está direcionando a água para geração de energia em detrimento da navegação.

 

A Tietê-Paraná é das mais importantes vias para o escoamento da produção agrícola dos Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e parte de Rondônia, Tocantins e Minas Gerais. 

 

O sistema de eclusas viabiliza a passagem pelos desníveis das represas existentes nos dois rios, dos quais Bariri, Ibitinga e Barra Bonita ficam na região de Bauru.

 

A hidrovia, em 2011, movimentou cerca de 5,8 milhões de toneladas de carga, ficando muito próxima de sua capacidade de carga, e a previsão é de movimento anual de 6 milhões de toneladas de cargas neste ano. 

 

Escoamento

 

De acordo com o DH, o problema da estiagem afeta o escoamento da produção de soja, que é recorde em 2014. 

 

As barcaças que navegam pela hidrovia estão subindo o rio com apenas dois terços de sua capacidade (de 6 mil toneladas, que é a capacidade normal, estão saindo com cerca de 4 mil toneladas, o restante da carga está vindo pela rodovia, o que significa 133 caminhões/dia a mais nas estradas. 

 

Segundo o DH, a hidrovia opera com o calado (designação dada à profundidade a que se encontra o ponto mais baixo da quilha de uma embarcação) de 2,25 metros (praticamente no mínimo, que é de 2,20 metros). 

 

A fiscalização é feita pela Capitania Fluvial do Tietê-Paraná, ligada a Marinha do Brasil, com sede em Barra Bonita.

 

Garantir navegação

 

A assessoria de imprensa do DH informou que o órgão que administra a hidrovia iniciou entendimentos com o Operador  do Sistema Elétrico (ONS) para tentar garantir a navegação. “A medida é para manter os níveis mínimos dos reservatórios para navegação, a estiagem é um problema que afeta todos e a hidrovia está dando sua contribuição, navegando com 2,25 m de calado (o mínimo foi 2,20 na semana passada) e com isso perdendo 30% de sua capacidade”, informa.

 

O JC procurou a assessoria de imprensa da ONS no Rio de Janeiro que se prontificou a prestar esclarecimentos hoje. 

 

A AES Tietê, que tem concessão de usinas na região, informou que é atribuição do ONS o controle dos volumes dos reservatórios.

 

Levantamento de ontem fornecido pela AES Tietê informa que o reservatório com o menor volume útil de água para geração de energia é o de Ibitinga: 37,37%. As hidrelétricas de Barra Bonita e Bariri, respectivamente, estavam com 81% e 82,3% do volume total de capacidade.

 

A hidrovia possui 2.400 quilômetros, destes 800 quilômetros estão em São Paulo onde é administrada pelo DH. 

 

Nível crítico

 

 falta de chuvas neste ano já tinha afetado o nível do rio Tietê, entre as usinas de Três Irmãos (Andradina) e Nova Avanhandava (Buritama), e  prejudicou a navegação na hidrovia Tietê-Paraná no início de fevereiro, conforme o JC noticiou. 

 

O nível do reservatório da represa de Três Irmãos baixou de 46,35%, no dia 1º, para 30,04%. A profundidade menor do rio fez com que fosse reduzida em um terço a capacidade de transporte dos comboios, de 6.000 toneladas para 4.000.

 

O trecho opera no limite mínimo que permite a navegação e, se o nível da água seguir baixando, o transporte de cargas terá que ser interrompido,  alertou em nota no dia 20 o diretor do Departamento Hidroviário do Estado, Casemiro Tércio Carvalho.

 

‘Chuva qualquer não resolve’

O engenheiro e consultor em energia Carlos Augusto Ramos Kirchner de Bauru explicou  ontem que o ONS não pode operar os reservatórios com menos água do definido pelas normas de navegação. Isso significa que não é só priorizar a geração de energia elétrica. “O operador do sistema tem que obedecer às cotas mínimas de navegação. Para o órgão não obedecer o limite seria situação emergencial ou ato da presidência da República”, explicou.

 

Na atual conjuntura, o Governo Federal está na expectativa de que a situação possa ser resolvida com a chegada das chuvas, diz.

 

Kirchner explica que a situação é tão complicada que não é uma chuva qualquer restabelecerá e aumentará o nível de água dos reservatórios das hidrelétricas. O engenheiro diz que o sistema elétrico está melhor do que no “apagão” de 2001, porque tem mais termelétricas operando. “Como aumentou o gasto de energia, o volume dos reservatórios equivalem ao consumo de 4 meses.”