09 de julho de 2026
Geral

Elas são as que mais reivindicam seus direitos no Procon em Bauru

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

As mulheres reivindicam mais seus direitos e são mais persistentes até conseguir alcançá-los. Esta é a constatação do Procon de Bauru, que recebeu, de janeiro de 2013 até ontem, 21.589 queixas de consumidores.

 

Destas, 52% foram protocoladas por mulheres, num total de 11.228 registros. Entre as principais reclamações, estão cobranças bancárias indevidas, falta de entrega de boleto para pagamento de prestação de empréstimo consignado, produtos com defeito e cobranças de serviços de telefonia que não foram solicitados.

 

Malavolta Jr. 

A empresária Zuleica Godoy se considera uma “reclamona”; ela estimula outras mulheres a reclamar

Além de protestarem mais, as mulheres – que comemoram seu dia hoje – também são mais pacientes e organizadas para levar sua reclamação a cabo. Segundo a coordenadora do Procon de Bauru, Fernanda de Assis Martins Pegoraro, o índice de desistência da queixa é infinitamente maior entre os homens.

 

“Eles têm o ímpeto de registrar a reclamação e quase se igualam às mulheres nesta primeira fase. Mas são menos persistentes e tolerantes. Acabam se conformando com o prejuízo porque acham que o esforço não compensa”, esclarece.

 

Segundo Fernanda, todo o procedimento para a solução do caso ou encaminhamento à Justiça pode durar até 90 dias. Durante o trâmite, o reclamante precisa reunir documentos, negociar e, se for o caso, comparecer a audiência de conciliação realizada pelo Procon para tentar acordo com a empresa.

 

Ontem, na sede do órgão no Poupatempo, a reportagem pôde confirmar as estatísticas. Grande parte dos consumidores que aguardavam na fila para registrar queixa era composta por mulheres. 

Uma delas era a administradora de empresas Rosana Venâncio Monteiro, 38 anos, que já perdeu as contas de quantas vezes já registrou reclamações por conta de problemas com operadoras de telefonia e de cartão de crédito.

 

Ontem, ela reclamava do contrato firmado com uma empresa de telecomunicação, que não cumpriu o prometido. “Comprei um pacote que garantia ligações interurbanas ilimitadas para números da mesma operadora. Só que todas as chamadas foram cobradas e a conta veio em R$ 1.311,00, sendo que o pacote custava R$ 108,00”, lamenta, destacando que não recebeu uma cópia do contrato, o que a leva a acreditar que a empresa agiu de má-fé.

 

Já a empregada doméstica Luzia Aparecida Romano Pereira, 41 anos, procurou o Procon para relatar que o número de seu CPF estava impresso em uma conta de celular que não era sua e chegou ao endereço de sua residência. “O número do telefone e o nome não são meus. Agora, terei de trazer alguns documentos para poder registrar a queixa”, adianta.

 

Assim como Rosana e Luzia, a empresária Zuleica de Moraes Godoy, 55 anos, se considera uma “reclamona” e não deixa de buscar seus direitos quando se sente lesada. Mas, no caso de Zuleica, a indignação diante de injustiças é tão grande que ela estimula e acompanha outras mulheres a protestar. 

 

Ontem, ela levou uma cliente da academia da qual é proprietária para prestar queixa contra o plano de saúde que a mulher, de 72 anos, possui desde 2003. 

 

Historiadora cita processo de ‘feminização cultural’

 

Depois de um longo histórico de submissão e da tentativa de se “igualar” aos homens, as mulheres parecem ter encontrado seu caminho para conquistar direitos e, mais do que isso, ser a força que conseguiu reconfigurar os papéis masculinos e femininos na contemporaneidade. 

 

Se, quando as mulheres saíram da sombra masculina elas tentaram imitá-los, agora elas vêm descobrindo – e exercendo – uma nova identidade, cada vez mais aceita na sociedade.

 

Trata-se de um processo de feminização cultural, conforme explica a historiadora e feminista Lídia Possas, professora doutora e coordenadora do grupo de pesquisa “Cultura & Gênero”, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília. 

 

“Não foi um processo natural, mas sim conquistado com anos de luta do movimento feminista em todo o mundo ao longo das últimas décadas”, ressalta.

 

Segundo Lídia, o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, na política, no ensino superior e até nas Forças Armadas, bem como a reconfiguração dos núcleos familiares – cada vez menos tradicionais – contribuíram para a mudança de paradigmas até então ditados pelos homens. Num primeiro momento, ainda no final do século passado, a busca por igualdade de gêneros levou as mulheres a copiar os homens em seu comportamento e até na vestimenta, o que se percebeu como erro anos depois.

 

“No início deste novo século, elas descobriram que possuem uma identidade distinta, que as diferenças sexuais implicam em interesses e aspirações distintos”, observa. Neste processo, as novas as ideias, valores e práticas femininas acabaram sendo incorporadas pelo mundo masculino, embora haja muito ainda a ser conquistado. 

 

Mulheres aguçam o espírito empreendedor cada vez mais

 

Nos últimos 12 meses, as mulheres responderam por 51,2% da procura por financiamento em uma das 524 agências do Banco do Povo Paulista (BPP) espalhadas pelo Estado. As empreendedoras foram responsáveis por aproximadamente R$ 100 milhões emprestados pelo órgão no período. 

 

Segundo o diretor-executivo do BPP, Antonio Mendonça, elas responderam por mais de 17,8 mil contratos firmados no último ano. 

“Entre as ocupações, podemos destacar as cabeleireiras, as costureiras e as vendedoras autônomas. A mulher busca alternativas para melhoria na qualidade de vida, seja por melhores postos de trabalho, seja no mundo do empreendedorismo”, destaca.

 

Os números do BPP, que beneficia empreendedores formais ou informais que não ultrapassam faturamento mensal de R$ 30 mil, se aproximam da última pesquisa divulgada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). O estudo aponta que 52% dos empreendedores com menos de três anos e meio de atividade são do sexo feminino. 

 

Elas são maioria no comando da rede estadual de ensino

 

Levantamento realizado pela Secretaria Estadual da Educação revela que as mulheres são maioria na rede estadual de ensino, desde a sala de aula até entre os cargos de chefia das escolas. No quadro da diretoria, por exemplo, a rede conta com mais de 81% de mulheres em um universo que totaliza 4 mil profissionais em exercício.

 

O cenário não é diferente entre as 91 diretorias regionais de ensino do Estado, responsáveis por administrar as 5 mil escolas estaduais: 77% dos dirigentes são mulheres que controlam dezenas de escolas da Capital, Região Metropolitana e Interior de São Paulo.

 

Entre os docentes, a presença feminina também é majoritária.  No geral, o sexo feminino responde por 73,8% dos professores. No quadro de apoio escolar, lá estão elas novamente: 83,1% são do sexo feminino, enquanto na área administrativa o percentual é de 78,1%. 

 

Educação

 

As mulheres também são maioria nas escolas, seja no ensino fundamental, médio ou superior. Segundo dados do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (Semesp), nos cursos presenciais existentes, elas somam 54% dos 20.493 estudantes entre 19 e 24 anos matriculados em Bauru e 58,7% dos 1.929 alunos de até 18 anos de idade. Nos cursos de ensino a distância existentes na cidade, elas correspondem a 66,4% dos 1.039 estudantes entre 19 e 24 anos de idade e 69,4% dos 49 alunos de até 18 anos.