08 de julho de 2026
Geral

À espera de um transplante de rim

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

O Dia Mundial do Rim é comemorado sempre na segunda quinta-feira do mês de março. Neste ano, portanto, a data está marcada para o dia 13. Por ironia do destino, 84 pessoas com Doença Renal Crônica (DRC) aguardam um transplante de rim em Bauru nas vésperas do dia que homenageia o órgão. Além delas, mais 303 pacientes fazem hemodiálise no Hospital de Base e no Hospital Estadual de Bauru, as duas únicas instituições locais que dão subsídio a esse tipo de doença.

 

Em relação ao Hospital Estadual, 56 pacientes aguardam transplante, 171 passam por hemodiálise e 23 por diálise peritonial neste ano. Em 2013, foram realizadas 26.994 sessões de hemodiálise e, em 2014, são 4.273 até o momento. Já no Hospital de Base 28 pessoas esperam por uma doação de rim, 132 fazem hemodiálise e outras 44 fazem diálise neste ano. Em 2013, foram feitas 18.213 sessões de hemodiálise e, em 2014, são 3.197 até a última semana. 

 

Diante disso, os portadores de falência renal não estão totalmente desamparados. Em função do Dia Mundial do Rim, membros da Associação Bauruense de Apoio e Assistência ao Renal Crônico (Abrec) irão a Brasília, pelo segundo ano consecutivo, reivindicar a elaboração de um projeto de lei em que considere como deficientes físicos aqueles que sofrem da DRC.

 

“No ano passado, a Abrec esteve presente em Brasília entregando um manifesto para a presidente Dilma Rousseff para reivindicar uma legislação que favoreça o doente renal crônico e que o considere um deficiente físico. Como a doença não é aparente, hoje ele não é considerado deficiente, mas o paciente passa por hemodiálises e sai em um estado deplorável do procedimento. Neste ano, vamos insistir no tema junto à presidente”, defende a presidente da Abrec, Maria Bernadete Matos Bueno.

 

Porém, as comemorações da data não param por aí. Maria acrescenta que pacientes, voluntários da Abrec e profissionais ligados à área de nefrologia estiveram presentes em uma passeata, ontem, no Calçadão da rua Batista de Carvalho, em Bauru. Com a proposta de esclarecer a sociedade sobre a importância da prevenção da insuficiência renal, a instituição reuniu aqueles que, de alguma forma, convivem com essa doença silenciosa.

 

Para este domingo, a Abrec prepara um bazar beneficente com o objetivo de captar recursos. O evento terá início às 8h e ocorrerá na garagem da casa de uma voluntária da instituição, localizada na rua Gustavo Maciel, 4-57, no Centro. Entre roupas e utensílios domésticos, oriundos de doações, os participantes terão a oportunidade de conciliar o útil ao agradável: adquirir produtos de boa qualidade e ajudar aqueles que mais precisam.

 

Segundo a presidente da entidade, o apoio da sociedade é necessário, uma vez que a instituição sobrevive com recursos da Prefeitura de Bauru - destinado apenas ao projeto Serviço Especializado de Atendimento ao Idoso, ao Deficiente e suas Famílias -, além de doações de voluntários. “Convidamos, portanto, toda a população para dar um pulinho no bazar e para conhecer o nosso trabalho junto aos pacientes acometidos pela DRC”.

 

Uma doença silenciosa

 

De acordo com o coordenador de nefrologia do Hospital Estadual de Bauru, Daniel Marchi, a Doença Renal Crônica (DRC) atinge ambos os rins, gerando dificuldades na depuração de toxinas produzidas pelo metabolismo do próprio organismo, além de tornar quase impossível a excreção de líquidos do corpo. É uma doença silenciosa, porque só se manifesta quando o paciente já perdeu grande parte da função renal.

 

Segundo o especialista, os principais sintomas da insuficiência nos rins são: dificuldade para urinar, queimação ao urinar, dor quando urinar, urinar muitas vezes à noite, urina com aspecto sanguinolento ou com muita espuma, inchaço ao redor dos olhos e nas pernas, dor lombar que não piora com o movimento e, por fim, histórico de pedras nos rins.

 

Marchi acrescenta ainda que as maiores causadoras da enfermidade no País são a hipertensão arterial e o diabetes tipo 1 ou 2. Para ele, o mau controle dessas duas condições pode levar à insuficiência renal. “Portanto, a melhor forma de prevenir a DRC seria dar um pouco mais de atenção às maneiras de prevenção da hipertensão e do diabetes”, adverte.

 

Quando não há mais tempo de prevenir a doença, existem algumas opções de tratamento, que variam com base nos graus de gravidade da mesma. Na primeira delas, é o Tratamento Conservador (TC), o paciente portador de disfunção renal consegue sobreviver sem a terapia dialítica. “Ele é acompanhado por um nefrologista para tratar as doenças de base, como hipertensão, diabete ou uma doença primária do rim”, explica.

 

Já nas outras opções de tratamento, os pacientes são considerados doentes renais crônicos terminais, passando pela Terapia Renal Substitutiva (TRE). Nela, os doentes podem passar pelo transplante, pela diálise peritonial - quando um líquido é injetado para auxiliar na excreção de toxinas - e pela hemodiálise - filtração do sangue. Marchi conta que nenhuma dessas opções cura a doença, são apenas tratamentos. “A melhor de todas seria o transplante renal. Mesmo assim, não é considerada uma cura, porque um rim transplantado não funciona perfeitamente durante toda a vida do paciente. Quando a doação do órgão é feita por uma pessoa viva, o rim dura até 20 anos. Se doador já estiver morto, essa durabilidade pode cair para até 13 anos”, frisa.

 

“Me deram 2 dias de vida”

 

É o que afirma Isaias Aparecido Gonçalves, que descobriu ser portador da Doença Renal Crônica (DRC) há quatro anos. Ele conta que tinha hipertensão arterial e isso desencadeou a paralisação dos rins. Na ocasião, o médico que o atendeu chamou a esposa dele em um canto e disse que Gonçalves não aguentaria sobreviver nem por dois dias a mais.

 

Porém, após quatro anos e incontáveis sessões de hemodiálise, o paciente está vivo. Gonçalves aproveitou para compartilhar uma boa notícia junto à equipe de reportagem do Jornal da Cidade: conseguiu um transplante renal. O órgão será doado pela própria esposa ainda no segundo semestre deste ano. “Maior prova de amor do que essa, não existe”, desabafa.

 

Em relação à Associação Bauruense de Apoio e Assistência ao Renal Crônico (Abrec), Gonçalves só tem elogios para fazer. Ele explica que, desde que começou a fazer hemodiálise, procurou a entidade e conseguiu o passe livre para andar de ônibus, além de algumas cestas básicas. “O legal é que a instituição sempre se lembra da minha família no Natal, na Páscoa e até no Dia dos Pais”, conclui.