08 de julho de 2026
Bairros

Adolescente morre após usar drogas


| Tempo de leitura: 5 min

Uma adolescente de 16 anos morreu na madrugada desta segunda-feira (10) no trajeto para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Bela Vista. A jovem passou mal no cruzamento das ruas Bela Vista e Padre Nóbrega, no mesmo bairro, onde consumia drogas na companhia de outras pessoas. 

 

A vítima foi levada ao atendimento médico por um dos integrantes do grupo. A suspeita é de overdose e o laudo do Instituto Médico Legal (IML) sairá em 30 dias.  A identificação dela e da família foi preservada em obediência ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

 

A família está transtornada. A mãe, segundo os parentes, está em estado de choque e não foi ouvida pela reportagem, mas um parente próximo contou que a menina que nasceu em Bauru e sempre morou no Bela Vista era usuária de maconha, álcool e cocaína. 

 

“Ela não usava crack, mas vivia entre usuários de drogas e frequentava uma sorveteria daqui do bairro onde é sabido que ocorre o tráfico”. 

 

O parente explica que a mãe e as outras duas filhas dormiam quando uma mulher bateu no portão desesperadamente e comunicou que a adolescente tinha sido levada à UPA porque não estava bem. 

 

“Nós assustamos, era por volta de 1h30. A mulher falou que ela consumia drogas, caiu com tremores e foi levada ao atendimento médico. Lá o plantonista comunicou que eles fizeram todo o possível, porém ela já teria chegado morta. Ele contou que a pulsação dela estava zerada e que a pupila totalmente dilatada, sinal de morte”. 

 

A menina era filha caçula da família. As outras irmãs estudam e trabalham. “Desde os 13 anos que ela usa drogas. Parou de estudar e não planejava nada para o futuro. A vida dela era ir para a rua encontrar esses amigos. Durante o dia ela passava algum tempo em casa, mas à noite ia consumir drogas. Dormia fora e retornava pela manhã”.

 

O caso foi registrado na Polícia Civil como morte suspeita. A mulher que foi comunicar os familiares que a adolescente estava na UPA disse que ela consumia lança-perfume. 

 

“A mulher disse que ela passou mal depois de cheirar lança-perfume. Nós acreditamos que ela tenha morrido por overdose porque costumeiramente bebia e consumia maconha. O IML vai fazer o laudo, só então teremos a confirmação”. 

 

O corpo da jovem foi liberado ontem para a família. O enterro será hoje, em horário ainda a ser definido. “Ela sempre foi uma pessoa tranquila. Depois que fez essas amizades, nunca mais voltou a ser a mesma. Minha família é de Promissão, Garça e São Paulo. Vamos aguardar os parentes para o enterro”. 

 

O diretor do Departamento de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, confirmou que a adolescente foi encaminhada para a UPA do Bela Vista. “Ela chegou morta na UPA. Vamos aguardar o laudo para saber a causa da morte”. Ele não descarta a possibilidade de overdose, porém diz que lança-perfume dificilmente leva à morte. 

 

Combinação pode matar

 

O lança- perfume normalmente é uma mistura de éter, clorofórmio e perfume quando vendido comercialmente. No Brasil é proibido o comércio, porém países vizinhos como o Paraguai vendem e é através dele que os frascos chegam ao consumidor brasileiro. 

 

Para aqueles que não acreditam que o inalante pode matar, a especialista em drogas da Unesp de Botucatu, Florence Kerr Correa, explica que a forma caseira do inalante ou a combinação dele com outras drogas podem levar à morte. 

 

“No lança-perfume comercial é feita a dosagem adequada. No caseiro, se uma das substâncias estiver em dosagem exagerada ou for acrescentada outra substância, pode matar. Se a pessoa consumir álcool e cheirar lança-perfume em exagero, os efeitos são somados e pode ocorrer uma parada cardiorrespiratória”. 

 

A professora lembra que habitualmente o lança-perfume não provoca a overdose. 

 

“Porém, dependendo dos componentes, pode matar sim. A pessoa começa a inalar e sua respiração vai ficando cada vez mais devagar até a morte. A mistura com qualquer bebida com 40% de álcool potencializa os efeitos e ataca o sistema nervoso central. Normalmente o consumo exagerado de lança-perfume ocorre com pessoas que estão iniciando no mundo das drogas”. 

 

Ela lembra que, anos atrás, um estudante de medicina da Unesp de Botucatu morreu após inalar lança-perfume. 

 

“Em dois eles foram cheirar lança-perfume. Desmaiaram sobre um tapete. O frasco caiu e aquele que estava mais próximo ficou inalando a droga. A droga lesou a pele de seu rosto e parte da musculatura. O outro foi salvo porque ficou mais longe do frasco”. 

 

Cinco meses de pausa

 

A adolescente de 16 anos esteve internada em uma casa de recuperação em Araçatuba por cinco meses, porém, assim que retornou a Bauru reencontrou seus colegas e voltou a frequentar a rua. 

 

A internação é recente e outras tentativas de recuperação foram adotadas pela família, porém sem êxito. No ano passado, 36 meninas e 127 meninos foram atendidos no ambulatório do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD) para se livrar das drogas. 

 

“Há muito tempo ela deixou de frequentar a escola e nunca trabalhou. Nós tentamos muitas alternativas para tirá-la da rua, mas ela resistia”, completou a parente.

 

Em 2013, uma pessoa morreu vítima de overdose em Bauru

 

A Secretaria Municipal de Saúde, por meio do Departamento de Saúde Coletiva, informou que, no ano passado, somente uma pessoa morreu por overdose em Bauru. O registro aponta que foi uma intoxicação causada por drogas, porém, não especifica o tipo de entorpecente.

 

Em 2014, ainda de acordo com o município, o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD) mantém o atendimento ambulatorial a 25 adolescentes, sendo 15 meninos e 10 meninas.

 

Estes são atendidos na sede do ambulatório. Outros 35 adolescentes estão internados através de encaminhamento do Caps/AD, sendo 27 do sexo masculino e oito do sexo feminino, todos dentro de uma faixa média de idade entre 14 e 16 anos.

 

  • Serviço

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, para ingressar em tratamento, seja por conta do álcool ou por uso de outras drogas, o paciente deve comparecer para acolhimento, cujo atendimento ocorre de segunda a sexta, das 7h às 9h, munido de RG, CPF, comprovante de residência e o Cartão do SUS. O Caps/AD fica na rua Antônio Alves, 17-78. Telefone: (14) 3227-3287.