09 de julho de 2026
Nacional

Uso do ?volume morto? pode acabar com o Cantareira, diz consórcio

Por Lucas Sampaio | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

O uso do "volume morto" do sistema Cantareira pode causar um colapso no sistema de abastecimento de água da Grande São Paulo e nos rios do interior do Estado e colocar em risco a economia do país. A afirmação é do Consórcio PCJ, uma associação que reúne prefeituras, indústrias e entidades de 43 cidades da região de Campinas, Piracicaba e Jundiaí.

O "volume morto" é a água que está abaixo dos sistemas de captação dos reservatórios do Cantareira. Esse volume nunca foi retirado e serve como uma reserva, mas recentemente a Sabesp foi autorizada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) a utilizá-lo.

A Sabesp já está fazendo obras que permitam a retirada desse volume, de cerca de 400 milhões de litros de água. Nesta terça-feira (11), o volume útil do Cantareira – sem o "volume morto" – chegou a 15,8% de sua capacidade, o menor patamar desde que foi criado, em 1974.

Para José Cezar Saad, coordenador de projetos do consórcio, não é recomendável usar a reserva. "O ideal seria adotar o racionamento, sem dúvida. O governo do Estado conta com essa carta na manga [o volume morto], mas ela não deveria ser utilizada", diz Saad. "A finalidade do volume morto é exatamente não ser utilizado."

Saad afirma que, se o volume de chuvas e o consumo de água atuais do Cantareira se mantiverem, o volume útil do sistema se esgotará no fim de maio. E, em junho, será necessário utilizar a reserva.

"É um risco muito grande a utilização do volume morto. Dependendo da quantidade de chuva e do volume utilizado, o sistema Cantareira pode nunca mais se recuperar como um todo", afirma.

Para Antonio Carlos Zuffo, diretor do departamento hídrico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um racionamento hoje pode evitar uma "catástrofe" no período de seca, entre abril e setembro. "Tem de gerenciar o recurso hídrico para evitar um mal maior."

Zuffo afirma também que a falta de água pode colocar em risco a economia do país. "A macrometrópole paulista representa 80% do PIB do Estado e 25% do PIB do país", diz o especialista. "Não estamos gerenciando recursos hídricos, estamos gerenciando uma crise de abastecimento."

Para Francisco Lahóz, secretário-executivo do Consórcio PCJ, "não se pensou na morte do sistema Cantareira". "A economia do Brasil está ameaçada. A insistência em garantir a vazão plena para a capital pode levar ao colapso da Grande São Paulo, Campinas e adjacências."

Lahóz se refere à decisão da Sabesp, com autorização da ANA (Agência Nacional de Águas) e do Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica), de retirar 31 metros cúbicos de água do Cantareira durante os meses de dezembro, janeiro e fevereiro, quando já era evidente a escassez de chuvas.