10 de julho de 2026
Geral

Atenção: golpes usam instituições para roubar

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 6 min

Duas instituições foram utilizadas por golpistas nas últimas semanas em Bauru. Passando-se por operador de telemarketing da Associação Bauruense de Apoio e Assistência ao Renal Crônico (Abrec), estelionatários têm ludibriado doadores e recolhido quantias em dinheiro em nome da entidade.

Num segundo caso, registrado na Secretaria Municipal de Saúde, munidos de crachás da pasta, os golpistas batem às portas de idosos residentes na região da prefeitura solicitando o fornecimento dos números das contas-correntes, alegando depósito de um falso benefício.

Qual a relação entre os casos? Além de ocorrerem em datas próximas e terem como finalidade a obtenção de vantagem ilícita por meio do prejuízo alheio, as duas ocorrências possuem o mesmo alvo: pessoas com mais de 60 anos.

Apesar dos casos não terem sido registrados oficialmente na Central de Polícia Judiciária (CPJ) pelas vítimas nem pelas instituições, que alegam medo ou falta de provas para o registro, a Polícia Civil não descarta a atuação de uma quadrilha na cidade e orienta sobre a importância da comunicação imediata dos fatos.

 

Sem telemarketing

Presidente da Abrec, Maria Bernadete Matos Bento conta que os golpes foram percebidos pela entidade em outubro de 2012.

“Estávamos em um chá beneficente e algumas pessoas vieram comentar que tinham recebido a ligação e estavam contribuindo. Na hora eu disse que era golpe. Até porque nunca tivemos telemarketing”, conta Maria Bernadete, acrescentando que as contribuições são recolhidas sempre por ela ou pelo motorista da entidade, que utiliza uma viatura identificada com adesivos da Abrec.

De lá para cá, os supostos golpes em desfavor da associação só aumentaram e há três semanas mais uma pessoa teria descoberto a prática criminosa.

“Já recebemos ligações de pessoas até bravas conosco por conta da insistência do telemarketing. Nossa entidade vem sendo usada por pessoas de má-fé que saem pela cidade pedindo contribuições oferecendo, em troca, produtos como sacos de lixo, por exemplo. Isso tem nos trazido problemas e a falta de credibilidade”, lamenta a presidente da Abrec.

Sobre a comunicação dos casos à polícia, Maria Bernadete alega que, por várias vezes, tentou convencer as vítimas a concederem o nome completo e o contato para o registro do boletim de ocorrência, mas sem sucesso. “Como a quantia é pouca, eles preferem não registrar nada”, ressalta.

 

‘Cara crachá!’

O bordão humorístico parece ter efeito apenas na telinha. Com um falso crachá em nome da Secretaria Municipal de Saúde e do Ministério da Saúde, um grupo de estelionatários teria saído às ruas na Vila América, região do Palácio das Cerejeiras, batendo de porta em porta na casa de pessoas idosas recentemente.

Alegando depósito de um benefício que seria liberado pelo governo federal, os falsos funcionários solicitavam os números das contas-correntes das vítimas.

Na ocasião, a pasta recebeu várias ligações de pessoas reclamando e emitiu uma nota, alertando sobre o golpe.

“Trata-se de golpe, uma vez que nem o município, nem a União, solicitam o número das contas-correntes ou mesmo a documentação para a identificação de idosos em visitas casa a casa. Qualquer documentação necessária é solicitada no ato do atendimento ao munícipe, no serviço de saúde, e apenas documento de identificação e não de contas-correntes”, informou a assessoria de imprensa da prefeitura.

A situação, entretanto, também não foi registrada na CPJ, nem pelas vítimas e nem pela secretaria, o que impede as investigações.

 

 Quadrilha

Qualquer pessoa que se sentir lesada por golpistas deve registrar boletim de ocorrência. A falta de registro impede a investigação. O alerta é feito pelo delegado titular da Delegacia de Investigações Gerais da CPJ, Kléber Granja, que não descarta a atuação de uma quadrilha nos crimes citados.

Uma das dicas para não cair na lábia dos malfeitores é evitar abordagem por telefone. “O telemarketing é perigoso. Essas associações geralmente possuem sede própria, site”, reforça.

“Ninguém deve atender pessoas desconhecidas na porta de casa, principalmente idosos. Na dúvida, ligue para a polícia.”


Vítima relata detalhes do crime

O aposentado Joaquim (nome fictício), 85 anos, é uma das mais recentes vítimas do “golpe da Secretaria da Saúde”. “Ultimamente venho comprando muitos medicamentos caros. Ele me disse que o governo me auxiliaria na compra desses remédios”, conta o aposentado.

O golpista estava com um crachá de identificação que possuía um emblema da Secretaria da Saúde, mas quando Joaquim pediu para ver algum documento que comprovasse a profissão, a reação não foi muito amigável. No momento do crime, o aposentado estava com sua mulher, que sofre do mal de Alzheimer, e a responsável por cuidar do casal.

Primeiramente, foi pedido o número da conta bancária, e logo em seguida a senha do cartão de Joaquim. “O número da conta eu passei, sem problemas. Depois ele pediu a senha, e eu achei estranho. Mas ele utilizou muitos argumentos, e eu acabei cedendo”.

Além de possuir o número da conta e a senha, o golpista também furtou o cartão bancário de Joaquim, que só percebeu o ocorrido algum tempo depois. Imediatamente, o banco foi acionado, mas já haviam sido retirados R$ 1 mil da conta. Após o ocorrido, Joaquim diz que selecionará melhor quem entra em seu domicílio.

 

JC - Como aconteceu?

Joaquim - Não sabemos como eles nos acharam. Ultimamente, estou comprando muitos medicamentos caros. Ele me falou que estava fazendo um recadastramento dos idosos que pegam remédio pelo posto de saúde. Disse que a presidente Dilma estava fazendo esse processo por causa dos laboratórios que recebiam dinheiro e não passavam os medicamentos para o posto de saúde. Por isso o remédio não seria mais obtido nos postos e sim nas farmácias autorizadas. Quando não houvesse o medicamento necessário, seria depositado o dinheiro no valor dos medicamentos em minha conta. O rapaz tinha um crachá com o nome dele escrito. Perguntei se ele tinha alguma identificação ou documento que comprovasse o que ele estava dizendo. Eu duvidei no começo, mas ele reagiu de forma agressiva, e não parava de falar. Falava muito, apresentava vários argumentos. Ele me pediu a conta bancária para depositar o dinheiro, eu passei sem problemas. Mas no momento em que ele pediu minha senha, eu tentei argumentar contra ele dizendo que era algo privativo, não podia passar para um desconhecido. Mas novamente ele utilizou tantos argumentos que eu cedi mais uma vez. Depois ele veio com uma conversa sobre Imposto de Renda, e eu fui até o fundo de minha casa buscar alguns documentos. Enquanto isso, ele pegou meu cartão do banco, sem que eu notasse. Eu só fui perceber o ocorrido quase uma hora depois, após o almoço, quando eu fui sentar no sofá e percebi que não estava mais com o cartão. Imediatamente, liguei para o banco, mas ele já havia retirado R$ 1 mil da minha conta.

 

JC - O que mudou após esse golpe ocorrido com o senhor?

Joaquim - Daqui para frente, na minha casa só vão entrar parentes e amigos. Acredito que todo mundo devia fazer assim. Esse pessoal que mede água, luz, que traz gás não entra mais. Tem muita gente ruim no mundo, e eles podem te enganar e contornar, pois os argumentos que eles utilizam são muito bons.