08 de julho de 2026
Geral

Bairro tem um ?guardião? centenário

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Os passos já não são tão largos e firmes quanto antes e a audição não é mais a mesma que há 20 anos, mas a lucidez e a vontade de trabalhar e ajudar a cuidar das ruas e calçadas do Jardim Panorama, bairro que viu crescer de perto, são as maiores virtudes de Paulo Galvão, um dos primeiros moradores do local e que nesta terça-feira (18) completa 100 anos de idade. Uma marca que, mesmo com os avanços da medicina, poucas pessoas ainda conseguem alcançar.

 

Éder Azevedo

O aposentado Paulo Galvão é conhecido por cuidar da limpeza e da seguranã do Jardim Panorama, em Bauru

Exemplo de vitalidade, quando está sentado à frente da porta da casa, a mesma em que morou com a esposa – Januária Maria Galvão, falecida há mais de dez anos – e com seus oito filhos desde que chegou a Bauru, Galvão observa atento toda a movimentação de carros e pedestres das vias que desembocam e cruzam com a rua Almeida Cintra, na altura da quadra 8.

 

“A vida dele é ficar aqui na calçada observando e conversando com o pessoal que passa. Para os moradores daqui, ele virou uma espécie de guardião das ruas. Tem gente que para o carro aqui e deixa aberto porque sabe que ele vigia”, comentam as filhas dele, Brasília e Malvina Galvão.

 

‘Aí vou eu’

 

Mas o auge da demonstração de vitalidade do seo Galvão ocorre mesmo quando ele é colocado frente a frente com uma vassoura e uma calçada suja.

 

“Ele sai varrendo a frente da casa e vai até os quarteirões lá de baixo”, detalha Malvina. “Lembro da cidade quando ainda era pequena e tudo isso era mato. Esse lugar é a minha vida, por isso cuido e varro, não gosto de ver sujo”, fecha questão o morador, que não perde a simpatia com a vassoura nas mãos. “Aí vou eu”, brinca.

 

Histórico

 

Nascido em 18 de março de 1914, Paulo teve uma vida sofrida. Era trabalhador rural e capinava a roça na região de Reginópolis (68 km de Bauru), onde morou com a família até 1969. No mesmo ano, convencido por uma das filhas, que se casaria com um bauruense, ele decidiu vir morar na cidade.

 

Aqui, trabalhou até os 88 anos como jardineiro, auxiliar geral e até fez bico como vigia para entidades como a Casa do Médico. “Ele nunca teve sérios problemas de saúde e adorava trabalhar, mas o convencemos a deixar, com medo de que ele se acidentasse”, comenta Brasília.

 

Há dois meses, enquanto realizava a limpeza diária das calçadas da rua Almeida Cintra, Paulo sofreu uma queda. 

 

Mesmo tendo resultado em apenas escoriações, Galvão, agora, é vigiado de perto pelas filhas, que não permitem que a atividade ocorra de forma diária, visando maior segurança ao pai.

 

“Ainda hoje ele nos pergunta onde é que estão as ferramentas dele”, frisa Brasília.

 

'Não tem segredo, gosto de viver'

 

Qual o segredo ou a receita para a longevidade? Essa é uma resposta que seo Galvão diz não saber. 

 

“Não tem segredo. Gosto de viver”, resume, sentando-se novamente em sua cadeira na calçada da casa número 25 da quadra 8 da rua Almeida Cintra.

 

Segundo as filhas, o pai nunca teve uma vida regrada, sempre comeu de tudo e nem era uma sumidade em exercícios físicos e hábitos saudáveis.

 

“Nunca gostou de comer coisas leves. Gosta mesmo é de se alimentar normalmente, mas sem extravagâncias. Largou o cigarro e a bebida, há alguns anos”, comenta Brasília. “Ele é bem lúcido, independente e saudável. O único remédio que ele toma é para controlar a pressão”, completa.