10 de julho de 2026
Articulistas

A comunicação que está isolando o homem

Joaquim Eliseo Mendes
| Tempo de leitura: 3 min

Como consciente e disciplinado safenado portador de marcapasso, frequento academia três vezes por semana e em outros dias faço as minhas caminhadas quando ainda o sol não pôs sua cara e o alvor começa a despontar afastando o negrume da noite que se esvai fazendo raiar a esplendorosa manhã. Ressalto que a cada caminhada faço um percurso diferente com duração aproximada de cinquenta minutos, vendo, descobrindo e redescobrindo fatos e comportamentos humanos, quando, muitas vezes vem-me à mente uma belíssima crônica do jornalista João Jabbour quando em um Jornal "Segunda Feira" discorreu sobre a "pressa" que está gravando a vida do homem sem saber para onde vai e, o "por que correr tanto para chegar a lugar nenhum? Todo mundo tem muita pressa." Pois, também, quando medrosamente me aproximo de uma Avenida como a Duque de Caxias e Rodrigues Alves presenciando a corrida desenfreada de carros e motos, também me lembro do tremendão Erasmo Carlos que escreveu para a sua belíssima música "Sentado à beira do caminho". "Vejo caminhões e carros apressados passar por mim. Preciso lembrar que eu existo. Existo". Como não poderia deixar de ser, nestas salutares e teimosas caminhadas passo por inúmeros pontos de ônibus, quase sempre os mesmos, cobertos ou não, em que inúmeras pessoas mantendo uma mudez impressionante aguardam condução para o trabalho diário ou estudo. E ao passar próximo ao ponto, sem outra pretensão a não ser a de cordialidade, dou o meu efusivo "bom dia" recebendo a resposta de apenas algumas, justamente daquelas que estão desconectadas. Pois as que não respondem estão conectadas com seus aparelhos digitais de última geração se comunicando com alguém ou alguéns que se encontram distantes talvez nesta ou em outra cidade, país ou mesmo do outro lado do mundo.. Realmente a proximidade da voz ou imagem desse que está longe, inebria, empolga! Então, a pessoa se desinteressa pela que está próxima, considerando como mais importante a que está longe. Só que essa mesma pessoa empolgada se esquece de que em qualquer caso de emergência, não digital mas física, presencial, quem socorre é o ente próximo e não o distante. É o próximo que chama a ambulância em caso de acidente, chama a polícia, que abana em caso de um desmaio ou que estende a mão para levantar de uma queda. É o mesmo caso do vizinho que chamamos por cima do muro e que nos acode em caso de urgência, em vez do parente que está longe e que pode demorar para chegar, Aquele mesmo vizinho que fica de olho em nossa casa quando viajamos e que presta informação sobre o nosso paradeiro. Há um ditado que afirma que em determinados momentos o vizinho é o melhor parente. . Infelizmente hoje em nossos dias o homem está inebriado, fanático pela comunicação, tornando-se indiferente, frio para com o próximo. Há famílias onde não existe mais a conversa entre pais e filhos, pois estão separados pela tv em ambientes diferentes ou quando juntos, cada um está digitando e se comunicando com o distante. E o grande perigo é o dele, homem, tornar-se um zumbi, autômato, substituindo o amor à vida e ao próximo pela comunicação. Quem se atreve a pensar o futuro? Eu entendo que a inteligência humana descobriu a maravilha da comunicação que deve servir e não apagar ou escravizar o homem. "Eu existo".

O autor, professor Joaquim Eliseo Mendes, é membro efetivo da ABLetras