11 de julho de 2026
Articulistas

A fonte da vida não está nas águas!

Clodoaldo Armando Gazzetta
| Tempo de leitura: 3 min

As pesquisas que apontam que o planeta Marte abrigou água num passado distante nos remetem a uma reflexão terráquea sobre o conceito de infinito e as relações humanas com o mineral. Os cientistas ainda não provaram com precisão se água existiu mesmo no planeta vermelho, mas se isso aconteceu, onde este recurso foi parar?

Aqui na Terra, ainda temos uma grande abundância deste líquido precioso, mesmo que mais de 90% estejam nos mares e geleiras, o restante colaborou decisivamente para que as civilizações humanas sobrevivessem ao longo do tempo. Claro que a grande explosão demográfica dos últimos séculos intensificou, e muito, o consumo de água. Mas o que afetou diretamente a oferta do recurso foi o uso irracional e insustentável que as sociedades contemporâneas tiveram com as águas.

Na idade média, por exemplo, a preocupação com o saneamento não estava na agenda política das cidades e as pessoas arremessavam suas fezes pelas janelas das casas, transformando as vias públicas e principalmente os córregos e rios em grandes valas de esgoto e lixo. A consequência deste fenômeno dizimou populações inteiras na Europa antiga, e ainda hoje, em pleno século XXI, vem vitimando milhares de crianças e idosos na África central, na Ásia meridional e na América latina, com doenças de veiculação hídrica.

No Brasil, a situação do saneamento é extremamente preocupante. Ocupamos hoje, segundo o relatório do Instituto Trata Brasil, que avalia os investimentos dos países em saneamento básico, a triste posição de 112º, numa lista de 200 países avaliados. Nossa taxa de investimento neste setor é menor do que países como Trinidade e Tobago, Iraque e Cazaquistão.

Na questão do abastecimento de água, o cenário também é grave. 55% dos municípios brasileiros, segundo a Agência Nacional de Águas, podem ter déficits severos de abastecimento de suas cidades até 2015. Estima-se que são necessários mais de 16 bilhões de reais em investimento para que o país pelo menos equacione seus problemas neste setor.

Infelizmente, a relação das populações humanas com a proteção e conservação dos recursos hídricos não evoluiu ao longo do tempo para os patamares de sustentabilidade. Os esgotos ainda são lançados sem tratamento em rios, córregos e mares; exploramos em demasia nossas reservas estratégicas de água subterrânea; nossos mananciais superficiais foram dragados pela expansão urbana desenfreada; as matas ciliares deram lugar a ganância daqueles que querem produzir a qualquer custo; os pesticidas e metais pesados fazem parte hoje da cadeia alimentar da ictiofauna, e como fechamento desta problemática, as mudanças no clima estão batendo a nossa porta, e devem alterar significativamente o ciclo de chuvas em várias partes do globo.

Estudar Marte pode nos dar a referência de como a água desaparece de um Planeta, demonstrando que se trata, contrariamente às teorias humanas, de um bem finito. Compreender as limitações da Terra e interpretar racionalmente os sinais de alerta que nosso Planeta nos manda não é apenas uma questão de civilidade, mas, fundamentalmente, de existência. A fonte da vida não está nas águas, está na consciência humana!

O autor, Clodoaldo Armando Gazzetta, é biólogo e ambientalista