09 de julho de 2026
Geral

Mãe carrega bebê da filha no útero

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 6 min

Se não for apressadinha, Alice Dotta Castilio deve vir ao mundo na primeira semana de junho. Está tudo programado para ser assim. Seu quartinho quase pronto, os pais fazendo todos os preparativos. E ela virá realizar o sonho da bancária Amanda Priscila Basílio Castilio, 32 anos, e do representante comercial Régis Castilio, 36 anos, de serem pais.

João Rosan

Régis e Amanda Castilio com Delma: a filha Alice está prevista para chegar na primeira semana de junho

O casal está passando por todos os preparativos e toda a ansiedade típica dessa fase maravilhosa da vida e que milhares de pais conhecem: a gestação de um filho. Mas há uma única (e surpreendente!) diferença: não é Amanda quem carrega a bebê no útero. E sim, sua mãe, Deuma de Fátima Dotta, 50 anos, já no sétimo mês de gestação, a terceira de sua vida. Ela tem duas filhas. E desta vez está gerando sua neta. Se habilitou a ser a barriga solidária diante da impossibilidade de a filha mais velha gerar.

Amor e promessa

Esta é uma história de amor e também do cumprimento de uma promessa. Quando Amanda soube, aos 12 anos, que havia nascido sem útero (a chamada Síndrome de Rokitansky acomete uma em cada 4 mil mulheres no mundo – leia mais na página ao lado), a mãe lhe fez uma promessa: “Se algum dia eu puder fazer alguma coisa para ajudar você a ter um filho, eu farei”. Deuma intuiu que muito rapidamente a medicina iria estar avançada e seria ela a pessoa a gestar a sua neta.

Os anos se passaram e, 20 anos depois, Deuma, separada do marido, com duas filhas, sendo que Amanda é a mais velha, vivendo com a filha solteira Natália Dotta Basílio, de 26 anos, está cumprindo a promessa. Ela tornou-se o que se chama de barriga solidária, o nome mais comum para o que a ciência chama de “útero de substituição”.

Gestação normalíssima

E para que a promessa se cumpra não lhe falta apoio. Desde o apoio da família, como o do ex-marido, o avô, que logo exultou quando soube da possibilidade, quanto o da outra filha, Natália, que curte cada momento da gravidez da mãe e compartilha a expectativa da irmã e do cunhado pelo nascimento da bebê.

E a gravidez está transcorrendo normalmente. Na véspera de completar 50 anos – dia 14 de março foi seu aniversário –, Deuma esteve no consultório do ginecologista e obstetra Salvador Cabello Filho, o mesmo que já acompanhou suas filhas, e constatou mais uma vez que Alice se desenvolve de forma saudável.

E Deuma, a dona da barriga solidária, também tem uma gestação normalíssima. Faz hidroginástica, engordou apenas 9 quilos até agora, se cuida.

“Sabe que está tudo mais tranquilo, acho que é a maturidade, a idade que traz isso para a gente. Mas esta gravidez está sendo muito gostosa do que a das duas filhas, mais calma”, diz uma avó barriguda e feliz.

Naturalidade

Amanda já aprendeu a encarar o momento com naturalidade. Claro, sofre com a expectativa, mas a alegria é maior. Está ciente de ter tomado a decisão certa: “Aprendi que a gente é feliz quando abraça as possibilidades. E que bom que a medicina nos abre essa possibilidade. Penso que é coisa de Deus. Ele me deu essa possibilidade e eu abracei”.

Esta também é uma história de vitória, de persistência no sonho. Régis tinha dúvidas se era a hora de contar, mas Amanda e Deuma têm certeza que sim. É só o primeiro capítulo porque em breve o JC espera mostrar o segundo: o nascimento de Alice.

“Tivemos tantas alegrias, tanto a agradecer, tantos sinais de que Deus está conosco, que nos dá a vitória que resolvemos compartilhar com os leitores. É importante que as pessoas saibam que essa possibilidade existe. E que não desistam do que querem”, conclui

Injeções estimulam ovulação

E desde que tomaram a decisão, tudo está dando muito certo. Amanda não tem útero, mas tem ovários. “Tenho até TPM”, brinca, e teve que tomar injeções diárias para estimular a ovulação.

Houve um momento em que ela precisaria tomar mais uma dessas injeções para tudo dar certo – fato detectado em exames feitos diariamente. Regis conta o que ocorreu: “Não tínhamos mais injeção em Bauru, e a clínica mais próxima estava em Campinas. Não é que o doutor Georges disponibilizou um motorista que trouxe até aqui a ampola, devidamente congelada? Sentimos o empenho dele. Estava junto com nossos sonhos, totalmente comprometido com a gente”, exulta Regis. “A nossa escolha foi muito assertiva”.

Tão assertiva que eles fertilizaram três embriões. Resolveram implantar o primeiro e há mais dois lá congelados. E não é que deu certo de primeira? Fazendo a brincadeira popular, “bateu, pegou”. Foi assim mesmo. Na primeira fertilização, Deuma já engravidou.

E mais: era a época da novela “Amor à Vida”, onde a barriga solidária era um assunto que estava em moda. Naquele momento, na novela, a personagem interpretada por Danielle Winits ameaçava retirar o bebê do casal gay. “Eu fiquei feliz e só brincava que não iria não fugir com o bebê”, lembra Deuma.

A avó solidária lembra também que, ao contrário de quando soube do problema da filha, lá atrás, e teve até sentimento de culpa, desta vez a decisão veio mais fácil. “Quando eles falaram comigo, eu não hesitei. Pensei uma única noite. Medo sempre bate um pouco, mas foi muito pouco, me decidi e disse que agora é com Deus”. E acrescenta: “o que uma mãe não faz a um filho? Eu só estou pagando a minha promessa”.

A família é bastante cristã, são evangélicos e, apesar de mãe e filha frequentarem igrejas diferentes, as duas pensaram que poderiam encontrar barreiras e preconceitos quando a notícia saísse do círculo familiar.

“E não foi nada disso. Em nenhum dos casos ninguém questionou. Ao contrário, nos apoiaram muito. Até aproximou mais a gente da Igreja. Minha mãe tem ido junto comigo na minha Igreja, por facilidade de locomoção e tem sido bom”.  Também por parte da família de Régis não houve objeção alguma.

Tanto Amanda quanto Régis consideram a gestação um presente de Deus e agradecem muito.  Os dois se sentem “grávidos” e acham que o vínculo entre eles estreitou. “Todo mundo fala mal de sogra, mas imagina, eu jamais poderia sequer brincar com isso.  Nunca vou poder falar mal da minha”, diz ele.

A história do casal

A bancária Amanda e o representante comercial Régis estão casados há menos de cinco anos. Desde que começaram o namoro, Amanda nunca escondeu dele que estaria impossibilitada de gerar seu próprio filho.

E Régis também não escondeu que gostaria de ter um filho. Cogitaram inúmeras vezes a adoção. Mas foi quando se depararam com a legislação brasileira autorizando a utilização temporária de um útero e quando se informaram melhor sobre a fertilização in vitro que a promessa voltou à cabeça de Amanda e, então, eles se apressaram. É que a legislação só permite a prática em mulheres de até 50 anos de idade.

Se quisesse cobrar a promessa da mãe, nunca esquecida no fundo do seu íntimo, Amanda teria que ser rápida.

Trataram então de procurar uma clínica em São Paulo, a Vivita, do médico Georges Fassola, um renomado especialista em reprodução humana. “Sentimos firmeza, porque essa é a especialidade dele, só se dedica a isso. Todos os que trabalham com ele também só têm essa especialização. Fomos muito bem atendidos. Sentimos que estávamos em boas mãos, um embriologista de primeira”, lembra Regis.