08 de julho de 2026
Economia & Negócios

Inadimplência no comércio cresce 19%

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Aceituno Jr.

Sette: “Muitos já tinham assumido parcelas de longo prazo”

O total acumulado de débitos no comércio, registrados pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), cresceu 19% em um ano em Bauru, segundo dados do órgão.

 

Em fevereiro deste ano, o total de compras não pagas somava R$ 28,6 milhões, ante aos R$ 24,1 milhões computados no mesmo mês do ano passado.

 

Segundo o economista Carlos Roberto Sette, mesmo depois da redução do ritmo de consumo verificada no último ano, a população ainda enfrenta dificuldades para equilibrar suas finanças. A explicação está no aumento custo de vida, especialmente nos segmentos de alimentação, educação, saúde e transporte (combustível).

 

“E muitas pessoas já tinham assumido parcelas de longo prazo, depois de comprarem veículos e a casa própria devido à facilidade de acesso ao crédito. Ficaram com o orçamento restrito e, com a elevação de preços impulsionada pelo aumento da inflação, não conseguiram sair do vermelho”, analisa.

 

Emprego

 

Diferentemente de períodos históricos anteriores, os níveis de empregabilidade, desta vez, não influenciaram o crescimento da inadimplência. 

 

Conforme o JC publicou na última terça-feira, o volume de contratações em Bauru quase dobrou no mês passado, em comparação com fevereiro de 2013. 

“E os trabalhadores, inclusive, tiveram reajuste salarial um pouco acima da inflação, mas que ficou aquém do aumento do custo de produtos e serviços que a pessoa não vai abrir mão de ter, como o combustível e os itens de supermercado”, detalha Sette.

 

Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Bauru, Alceu Camargo observa que o serviço de recuperação de crédito do SPC tem enfrentado dificuldades para conseguir reduzir os índices de inadimplência em Bauru. “Depois de uma grande euforia, o consumo reduziu em relação a anos anteriores, sim. Mas, mesmo assim, as pessoas não conseguem sanar suas dívidas. E, em março, a situação do mês passado deve se repetir”, reitera.

 

Tendência

 

Diante do aumento da inflação projetado em 6,11% para 2014, os níveis de inadimplência não devem sofrer queda substancial até o final deste ano, conforme adianta o economista Carlos Roberto Sette.

“E quanto mais baixa a classe social, mais a inflação penaliza e maiores são as chances de o consumidor ficar inadimplente, ainda mais se tiver filhos”, analisa.

Aumentou

Além da elevação do total acumulado de débitos no comércio de Bauru, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) registrou aumento de 15% na dívida média de cada consumidor. Em fevereiro de 2014, o valor médio devido por cada pessoa negativada no órgão era de R$ 793,09, ante os R$ 689,63 devidos por cada consumidor inadimplente no mesmo período do ano passado.

 

Já o número de pessoas com o nome sujo cresceu 2% - de 35.256 para 36.107 – e a quantidade de dívidas não quitadas se manteve estável, variando de 58.290 para 58.436 débitos (leia quadro ao lado).

 

No vermelho

 

A empregada doméstica Aline Cristina de Souza, 25 anos, é uma das devedoras que não deverão conseguir sair tão cedo do vermelho. Ela teve o nome inserido no SPC depois que precisou gastar além da sua capacidade financeira com médicos e remédios para a filha, de 3 anos, que ficou doente.

Com salário de R$ 1,1 mil, ela diz que não possui meios de reduzir suas contas fixas e gastos com combustível, manutenção do carro, alimentação e vestuário para a filha. “Claro que sou vaidosa e também gosto de comprar roupas e sapatos para mim. Mas, quando não dá, eu me controlo. Mesmo assim está difícil de pagar as dívidas”, observa.

A situação atualmente vivida por Aline já foi uma realidade para o mecânico de automóveis William Nery Mariano Ferrari, 37 anos. Há cinco anos, ele se endividou para realizar sua festa de casamento e demorou para conseguir ficar com o nome limpo.

“Casar custa caro e a vida de casado, também”, revela ele, hoje divorciado. Ontem, sem peso na consciência e no bolso, William gastou R$ 155,00 para comprar uma chuteira, um par de meiões e um short para jogar seu futebol de todo fim de semana. “Gosto de gastar, mas aprendi a equilibrar minhas contas e, hoje, não devo nada a ninguém”, comemora.