10 de julho de 2026
Articulistas

Bom é falar do segurança bonitão

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 2 min

Uma das coisas mais difíceis para jornalistas é deixar de rotular. Somos meio maniqueístas, o mundo é dividido entre o bem e o mal, há os certos e os errados e, lá vamos nós, quase que paladinos da justiça, ficar ao lado do bem, da verdade. Que ótimo! Ao lado do bem e do senso comum, angariamos simpatia, empatia e até, com um pouco de sorte (e muita competência), somos galgados a jornalistas de luxo, escritores de sucesso e, alguns nós, ganhamos muito dinheiro com isso. Poucos, bem poucos, é claro. Não me deixam mentir Paulo Coelho, Fátima Bernardes, Walcyr Carrasco. Exemplos são muitos.

Mas, às vezes, o sucesso é só por um momento. Como no caso da modelo da Mega Models Lins, Thais Belmonte, a namorada do Guilherme Leão, o segurança "gatésimo" do Metrô-SP, alçado à fama depois de uma matéria mostrando o quanto eles, seguranças, são sarados e bonitos. E os dois pombinhos foram ao programa da Fátima Bernardes e estão tendo seu momento de glória.

Para os acostumados a jogar pedras na Geni, temos doentes demais, leitos de menos; congestionamento demais e transporte de menos; inundação demais e reserva de água de menos. Isso sem falar na crise mundial, na violência sem controle. Ué, mas não há os Datena, Rezende da vida que mostram a crueldade, requintes de perversidade? Nã, na, ni, na, não... eles também são criticados porque expõem as mazelas humanas, jogam na nossa face o que temos de mais desumano.

Há algo de tragicômico no que vou dizer: é da natureza humana desopilar o fígado nas futilidades. É da essência masculina e feminina. Homens têm enorme dificuldade de falar de si mesmo, dos seus sentimentos. Isso está documentado. Então precisam do futebol, da música, do sexo. É como se isso fosse o suficiente para aplacar o turbilhão de vozes em seu interior. Não fosse isso e estaria esse ser masculino à mercê da bomba-relógio que traz dentro de si. Na essência feminina essa necessidade é igual, mas diferente, entendem? Precisamos sim, das amenidades, da beleza, da novela ou do filme que nos faz chorar. Precisamos de palavras bonitas, do recolhimento e do convívio com nossos próprios sentimentos.

Entre o jornalismo catastrófico e o das celebridades, há mais do que sonha nossa vã natureza humana. Há a certeza de que é preciso expressar o que sentimos, vivemos e nossos sonhos. De forma leve, porque o ato de viver, por si só, já é pesado. Precisamos de enfrentamento, coragem, mas o mundo não pode perder a tal ternura (parafraseando certo famoso...). E isso os comunicadores fazem bem, obrigado. Desde que o mundo é mundo. Do contrário, seríamos engolidos pelo mais puro pessimismo.

A autora é repórter e editora. Jornalista especializada em revistas femininas e na comunicação com a classe C