10 de julho de 2026
Cultura

Da Vila para Bauru: drama homenageia Noel Rosa

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 4 min

“Fazer poema lá na Vila é um brinquedo”, diz Noel Rosa em uma de suas composições mais conhecidas, “Palpite Infeliz”. E foi mesmo assim, com humor e um pitada de crítica, brincando com o cotidiano de maneira genial, que o “Poeta da Vila” se eternizou como um dos principais compositores do País e nome fundamental da Música Popular Brasileira. Para homenageá-lo, a teatróloga Dora Girelli, que também nasceu em Vila Isabel, escreve e dirige a peça “Noel... Quem Nasce lá na Vila”, encenada pelo Grupo Abertura, que será atração hoje em duas sessões no Teatro Municipal de Bauru, às 19h30 e 21h.

 

Divulgação

Teatróloga Dora Girelli conta "Noel Rosa era o filósofo da Vila, era o poeta dos botequins, o mulherengo, o amigo"

 

Girelli, autora e diretora da peça, conta que cresceu ouvindo sua mãe, também carioca, cantando as músicas de Noel. A trilha sonora de sua infância e juventude deixou profundas raízes em Girelli, que resolveu dividir a admiração pelo compositor com o público bauruense. A autora afirma que, hoje, Noel é conhecido em todo o Brasil, graças a intérpretes famosos que regravaram suas músicas, muitas de carnaval. Além dessas regravações, foram feitos filme e shows para TV sobre sua vida. “Mas quando eu era criança, fora do Rio de Janeiro, as músicas dele eram cantadas, mas ninguém se dava conta de que eram dele”, constata.

 

O texto não conta a vida cronológica de Noel, mas busca características de seu comportamento através de suas músicas e maneira de viver em seu cenário predileto: o botequim. Noel morreu com 26 anos e deixou 117 canções, algumas delas joias da Música Popular Brasileira. Na peça, serão apresentadas várias músicas de seu repertório, além do desafio musical entre ele e o sambista Wilson Batista. “Noel era o filosofo da Vila, o poeta dos botequins, o mulherengo, trocava o dia pela noite nas companhias de amigos e sambistas do morro, fumando e bebendo sem controle”, relata Girelli.

 

A peça se passa no local mais frequentado por Noel Rosa, o botequim. Neste cenário desfilam o próprio Noel e seus amigos, as mulheres que passaram por sua vida e os rivais do samba ao som das músicas do “Poeta da Vila”. “Por exemplo, o Wilson Batista era o principal rival do Noel e eles começaram a ‘trocar farpas’ através de músicas. Como eram grandes compositores, quem ganhou foi o público. Saíram músicas lindas tanto de um lado quanto do outro”, relata Girelli. Para criar o espetáculo, a autora e diretora fez um extenso trabalho de pesquisa para os figurinos e ambientação e até mesmo as bebidas dos anos 1930 no Rio de Janeiro.

 

A peça tem realização do Grupo de Teatro Abertura, fundado em 1986 por Girelli e formado por estudantes e voluntários, e Retiro da Família e a renda será revertida para projetos sociais.

 

Conterrânea de Noel

 

Jornal da Cidade - Por que a opção por fragmentos marcantes de Noel?

Dora Girelli – Eu nasci em Vila Isabel e, quando eu era criança, minha mãe, que era carioca também, sempre cantava as músicas do Noel Rosa para os meus irmãos e eu. Eu queria fazer uma homenagem, mas a vida dele não é exemplo para ninguém. Morreu tuberculoso, era uma pessoa de classe média que estudou nas melhores escolas do Rio de Janeiro, trocou a faculdade pela boemia, se envolveu com mulheres casadas, com a vida noturna, bebida, cigarro até chegar ao ponto de morrer tuberculoso. Eu queria homenagear o que ele deixou, ele fazia a crítica do cotidiano carioca, o cara é um gênio. Eu peguei as 117 letras das músicas dele e escolhi uma frase, independentemente de saber o que eu iria fazer com elas. Destas que eu selecionei, montei um texto. Todo o diálogo da sequência que vai ter na peça é do Noel mesmo. É rimado, em verso. E deu certo, nem sei como.

 

JC - Falando de Noel, você sente que, de certa forma, fala também um pouco da sua história?

Girelli – Eu nasci na Vila Isabel e vivi até 1978 no Rio de Janeiro. Gosto de Carnaval, escolas de samba, do futebol do Rio. E as músicas que a minha mãe cantava em minha infância ficaram marcadas em minha vida. Quando viemos para o Interior de São Paulo, o pessoal da cidade que morávamos nem imaginava que eram músicas do Noel Rosa. O trabalho dele foi mesmo divulgado de uns dez anos para cá. Antes, fora do Rio, ele era pouco conhecido. Quero que Bauru conheça e aceite as músicas de Noel Rosa. Como teatróloga é uma obrigação minha fazer isso.

JC - As peças do grupo são sempre autorais ou há montagem de textos de outros autores?

Girelli – Trabalho com textos meus. Quando eu pego textos sem serem meus, adapto. Seriam, no caso, romances tradicionais franceses, ou gregos, tragédias gregas, ou ainda Sheakespeare. Mas atuais eu não me envolvo. Se existe um tema atual, eu pego e escrevo. Trabalho muito contra as drogas, prostituição infantil, alcoolismo. 

 

Peça “Noel... Quem Nasce lá na Vila”, dia 29 de março, no Teatro Municipal de Bauru. Sessões às 19h30 e 21h. Duração: 90 minutos. Ingressos: R$ 10,00 (inteira).