10 de julho de 2026
Geral

Pedestre ainda não tem preferência e motoristas não respeitam faixa

Vítor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

Faça a experiência: vá até a beira de uma faixa de pedestres e espere até um motorista parar para que você faça a travessia. Mas vá com paciência. Tanto a Polícia Militar (PM) quanto o município concordam que o bauruense, ao contrário de outras cidades, não tem a cultura de dar preferência ao pedestre sobre a faixa.

 

Malavolta Jr.

Motoristas em geral negam preferência a quem está na faixa de pedestre. Por sua vez, quem está a pé se arrisca fora da faixa e ignora o perigo

 

O dispositivo, que é tido como essencial na segurança do trânsito, ainda é muito desrespeitado em solo bauruense. A legislação é clara: se houver um pedestre na faixa à espera da travessia, o motorista deve aguardar. Na prática, contudo, essa legislação não existe. 

 

O JC esteve em alguns pontos movimentados da cidade e na região central e constatou o problema. No cruzamento da praça Rui Barbosa com a Batista de Carvalho, Lúcia de Fátima Godoy Maia, 48 anos, esperou vários minutos até conseguir uma brecha e atravessar. “Passo por aqui todo dia. Não me lembro nunca de alguém ter parado para eu passar”.

 

O mesmo ocorreu na quadra 9 da Nações Unidas. “Negativo”, disparou Antônio Dal Posso, 63, questionado se o motorista respeita a faixa de pedestre. Ele conta ainda que, dirigindo, bateram em sua traseira quando ele parou na faixa.

 

“Não há respeito. Eu tenho um negócio em Brasília e lá é só os pedestres levantarem a mão que o carro para. Vai fazer isso aqui para você ver. O carro te leva embora”, aponta o empresário Wilson Cardoso, 51.

 

Também por meio de comparações com outros locais, a costureira Syrlei Fonseca, 63 anos, concorda que a faixa de pedestre não é respeitada em Bauru. “Viajei para Maceió no ano passado e é só juntar duas ou três pessoas perto da faixa lá que o carro já para. Aqui nem o motorista e nem o pedestre respeitam a faixa”.

 

Outro ponto bastante crítico é a Araújo Leite na altura da rua Bandeirantes. Ali, é só o sinal fechar na esquina de baixo para a situação virar um caos. Quem precisa fazer a travessia na Araújo, encara uma missão muito difícil e arriscada.

 

“É sempre assim. Temos que esperar um monte até conseguir atravessar a rua”, conta Aline Pereira, 36 anos. Além de os veículos não darem a preferência, alguns se acomodam calmamente sobre a faixa. “Tem horas que temos que passar correndo”, complementa Elisangela Majesto, 41. 

 

Por conta de os veículos sequer cogitarem dar a preferência e de alguns pararem sem cerimônias sobre a faixa, Aline e Elisangela tiveram que se apressar, correr e ainda desviar por onde não havia marcação.

 

Outro lado...

 

Mas não só o motorista desrespeita a sinalização da faixa. Os próprios pedestres, que reclamam tanto dos condutores, não usam o espaço destinado a eles como deveriam. Na rua Agenor Meira, Solange Thomaz, 45, tratou de atravessar no meio da rua. “Eu sei que estou errada. Mas é a pressa, né?, Da próxima vez, atravesso certinho”, declarou, consciente.

 

A uma quadra dali, na 13 de Maio, o mesmo problema. Mesmo a poucos metros da faixa, o aposentado José de Oliveira, 71, fez a travessia bem no meio da via. “Eu vi que o sinal fechou lá em cima e aproveitei para atravessar. Mas sempre respeito”, justificou-se. 

 

São 38 atropelamentos só em 2014

 

Na tarde da última sexta-feira, a PM divulgou o número de atropelamentos ao JC em 2014: 34 casos, com dois óbitos. Infelizmente, os dados precisaram ser atualizados. Só durante o fim de semana, foram mais quatro atropelados, incluindo uma criança de 6 anos e, no mais grave deles, um aposentado que não resistiu.

 

Na manhã de sábado, na praça Washington Luís, no Centro, Dino Amélio da Silva, 72 anos, atravessava a rua, quando foi atingido por um veículo Gol. Ele chegou a ser socorrido, mas morreu.

 

Testemunhas disseram aos policiais que a vítima tentou atravessar a via fora da faixa de pedestres.

 

Durante a tarde, um jovem de 20 anos foi preso em flagrante após atropelar uma criança de 6 anos e fugir do local do acidente sem prestar socorro, no Conjunto Habitacional Moradas do Buriti. Ele não tinha CNH. Por sorte, a vítima não teve ferimentos graves.

 

“A fórmula explosiva é a pressa dos motoristas somada com a distração dos pedestres. Mas também ocorre o contrário. O que se percebe, especificamente em relação à faixa, é que nem um e nem outro respeita o dispositivo”, destaca o primeiro tenente José Sérgio de Souza, comandante do Pelotão de Trânsito da PM.

 

Ele explica que, além do desrespeito, falta muita atenção ao trânsito. “Hoje, o celular se tornou um vilão. As pessoas atravessam a rua distraídas falando ao telefone e até mandando mensagens. Isso é algo muito perigoso”.

 

Assim como a Emdurb aponta, o tenente também ressalta que a solução é mais atenção e, principalmente, educação no trânsito. “Vidas estão sendo perdidas por conta disso”, lamenta o comandante.

 

957 pessoas foram multadas em 2013

 

Comparado ao tamanho do desrespeito, a punição ainda é tímida. De acordo com dados da Emdurb, somente 957 motoristas foram autuados em 2013 inteiro por não dar preferência aos pedestres na faixa destinada a eles.   

 

O gerente técnico de infrações da empresa municipal, Gustavo Cardoso, reitera que o bauruense “não tem a cultura de respeitar a faixa” e concorda que a quantidade de autuação ainda é reduzida em comparação ao número de veículos.

 

“Não temos agentes suficientes para fiscalizar toda a cidade. E quando o motorista vê o agente, ele não comete a infração. Mas estamos fiscalizando. O pensamento da Emdurb é que a única solução para esse problema é a conscientização do motorista”, destaca, complementando que o município deve, em breve, ampliar as políticas de educação sobre o tema.

 

Pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), não privilegiar pedestres sobre a faixa e não esperar as pessoas a pé terminarem de atravessar são infrações gravíssimas, com multa de R$ 191,53 e perda de sete pontos na carteira. 

 

Em relação aos pedestres que atravessam fora da faixa, a Emdurb afirma que não tem instrumentos para a punição. “Sabemos que uma parte dos pedestres também ignora. Mas é mais difícil multar. A lei até prevê, porém, não dá instrumentos. Como vou multar um pedestre? Vou negativá-lo no Serviço de Proteção ao Crédito? Não dá”, conclui Cardoso.

 

Exceção à regra

 

Em Bauru, há um “oásis” em meio ao desrespeito com a faixa. Trata-se de uma via em frente a um mercado na zona Sul. A própria Emdurb confirma que é o único local da cidade onde o pedestre tem realmente a preferência. Lá, a faixa fica entre o mercado e estacionamento do estabelecimento. Ao contrário do que se vê em todo o município, é comum ver os veículos parando e esperando a travessia dos pedestres.

 

Em cima da faixa

 

Além de não dar a preferência aos pedestres, alguns motoristas vão além. Eles param e até estacionam sobre a marcação. Segundo a Emdurb, em 2013, 278 motoristas foram autuados por parar sobre a faixa em Bauru enquanto aguardavam abertura do semáforo. A infração é média e são computados quatro pontos na CNH. Já outros 74 motoristas levaram multas por estacionar sobre a faixa. Segundo o CTB, esse tipo de falta é grave, com multa de R$ 127,69 e menos cinco pontos.