As cidades deveriam, sempre, ser espaços para as pessoas se encontrarem para trocar ideias, comprar e vender ou relaxar e se divertir. Daí o conceito de que o "domínio público de uma cidade" passa pela apropriação de projetos de ruas, praças e parques que privilegiem o encontro entre as pessoas e não, como na concepção de ocupação do solo das últimas décadas, um processo de isolamento que privilegie automóveis e edifícios.
Para Jan Ghel, urbanista autor do livro "Cidades para Pessoas", as cidades compactas, que acomodam espaços onde o próprio roteiro dos "caminhos" "força" ou acentua o encontro entre cidadãos, são a única forma de estabelecer correlação entre vida humana e sustentabilidade de ocupação.
Outro dia, vi gente desinformada e sem a menor paciência cultural ouvir proposta da gerência de transportes da Emdurb para alargar, em forma de calçadão, os espaços destinados ao pedestre na avenida Rodrigues Alves. Sei que pensar isso, a olho nu do massacre de gêneros e conteúdos da indústria de consumo, é ser chamado meio de besta suburbano. O homem se incomoda com o desconhecido e, quase sempre, se enrosca com mudanças. No livro, Ghel pontua que a dimensão humana tem sido esquecida nesse processo, sucumbindo às forças de mercado e a tendências arquitetônicas que privilegiam as paredes.
O pedestrianismo tem sido abolido como conceito de locomoção, o que, em escala, gera também efeito cascata negativo para outros problemas urbanos, como a ausência de conexão entre espaço, pontos de encontro e de conhecimento entre pessoas e opções culturais e sociais. O local de encontro sucumbiu a pistas para automóvel e, dos lados, prédios e prédios. Não por acaso, o urbanista questiona o conceito míope, tacanho, de que desenvolvimento urbano seja alastrar áreas impermeáveis e construir mais e mais relações de tijolos entre os habitantes. Em 1961, a jornalista americana Jane Jacobs já preconizava o esgarçamento dessa realidade de ocupação no bom livro "Morte e Vida das Grandes Cidades".
Em sua obra, Jan Ghel fala das mudanças que promoveram o retorno do encontro entre pessoas em Copenhagen, ou medidas pontuais, mas com efeito coletivo, que foram, por exemplo, implantadas em Nova Iorque em 2007, como o alargamento das calçadas da Broadway e uma nova ciclovia.
Em São Francisco, a mudança na forma como os urbanos se relacionam com seu meio veio pela tragédia. Após o terremoto de 1989, que destruiu uma larga via expressa com tráfego congestionado, as pessoas passaram a se acomodar. Hoje, o local conhecido como Embarcadero, se transformou em um grande boulevard, com árvores, bondes e muitos ciclistas presentes.
Em 2002, em Londres, foi implantado o pedágio urbano para minimizar o efeito de regiões com ruas muito congestionadas. Hoje a região com restrição para a presença do carro se estendeu para uma área de 50 quilômetros. A essência da "lógica" da vida é o encontro, a troca e a harmonização entre as pessoas. Não é uma questão filosófica, do tipo "hominização" versus "humanização".
É uma opção pela celebração da vida...
O autor é jornalista do JC e compositor