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Isabela Ribeiro/Divulgação |
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O delegado da Receita Federal, Marcos Rodrigues de Mello, fala ao JC sobre carreira e vida pessoal |
Ele acredita que a educação e a valorização do trabalho são as chaves para o crescimento pessoal e da sociedade: “Eu posso, hoje, ter uma certa tranquilidade por causa da educação, que meu pai não teve, mas fez questão de oportunizar para a gente”, defende o delegado da Receita Federal de Bauru, Marcos Rodrigues de Mello, entrevistado de hoje.
Nascido no município de Salto Grande, ele chegou a Bauru para cursar a faculdade de engenharia elétrica na Fundação Educacional de Bauru. Isso em 1980. “E foi aqui que eu conheci a minha esposa, Maria Lúcia, com quem sou casado há 26 anos e tenho três filhos: Renato, Ricardo e Rafael”.
A carreira na Receita Federal teve início em 1993, quando o então engenheiro optou por seguir um novo caminho profissional. Na época cursando direito, ele até pensou em uma carreira no Ministério Público: “Mas fui orientado por um amigo a fazer um concurso para a Receita Federal. Fiz, passei e gostei muito”.
Sobre os desafios diários do trabalho, ele desabafa: “Trabalhar contra a corrupção no Brasil não é fácil, há confusões políticas, inclusive. E a sonegação é um delito contra toda a Nação, mas não há, de maneira geral, uma ânsia de que isso seja combatido. Não nos sentimos apoiados pela população”. Leia mais, a seguir.
Jornal da Cidade - De Salto Grande a Bauru...
Marcos Rodrigues de Mello - Apesar de ter nascido em Salto Grande, eu fiquei pouco tempo na cidade. Quando eu tinha 6 meses de idade, meus pais se mudaram para Presidente Prudente, onde eu fiquei até o início da minha adolescência. Eu tive uma infância boa, estudei em escola pública, o que na época era muito bom. Saí de Prudente para fazer o segundo grau em uma escola técnica, também pública, em São José dos Campos. Fiz curso técnico em eletrônica. Em seguida, vim para Bauru estudar engenharia elétrica na Fundação Educacional de Bauru. Isso em 1980. E foi aqui que eu conheci a minha esposa.
JC - Por que a “nota 10” para ela?
Marcos - A gente se conhece praticamente desde a adolescência e tudo começou na igreja, quando eu era da Pastoral da Juventude. Ela acompanhou toda a minha trajetória profissional, sempre me apoiando. Estamos casados há 26 anos e namoramos há 31 anos. A nota dez vai para a participação dela na minha vida, compreensão, companheirismo, paixão... Para mim, a família e os amigos são as coisas mais importantes da vida. Minha profissão não é fácil, já sofri muito ataque, e chegar em casa e ter alguém que te compreende e fica do seu lado não tem preço.
JC - Estar com os amigos é um hobby?
Marcos - Sim. Temos um grupo que se reúne toda quarta-feira. Eles vão para jogar futebol e eu brinco que nasci com duas pernas esquerdas e sou destro (risos). Não jogo nada. A gente gosta de fazer churrasco, tomar cerveja e conversar sobre tudo, menos serviço. Tem gente da Receita, da Polícia Militar, empresários... Amigos de todas as áreas. Eu também gosto muito de cozinhar. Inclusive, nos finais de semana, em casa a cozinha é minha. Na verdade, minha esposa tem uma cozinha e eu tenho outra na área de lazer. Minha especialidade são as carnes, mas também faço massas, peixes...
JC -Quando a engenharia deu lugar ao serviço público?
Marcos - Eu trabalhei na indústria até 1993, como engenheiro, ano em que entrei para a Receita Federal. A história foi a seguinte: em 1988 eu comecei a cursar faculdade de direito, inclusive fiz mestrado na área também. Bom, o governo Collor foi dramático para a área de bens de capital, onde eu trabalhava. Eu estava empregado, mas com perspectivas ruins. Foi então que decidi me aventurar por outra área e tinha uma boa ideia sobre o Ministério Público, até por ter familiares promotores, juízes, mas um amigo me orientou a prestar concurso para a Receita Federal. Fiz, passei e gostei muito do trabalho.
JC - Fale sobre a sua trajetória na Receita Federal.
Marcos - Comecei trabalhando em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. Eu já era casado e tinha dois filhos. Fomos todos. Em 1995 nos mudamos para Marília e, em 1999, voltamos para Bauru. Mas eu fui trabalhar em São Paulo e minha família ficou em Bauru. Trabalhei em São Paulo até 2003 e voltei para cá. Fiquei no Conselho de Contribuintes. No ano de 2005 passei a ser delegado, mas por pouco tempo, porque fui para Brasília trabalhar como Corregedor Geral da Receita, onde permaneci até 2007. Daquele ano até 2012, ocupei um cargo no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Finalmente, em 2012, voltei para Bauru como delegado da Receita Federal.
JC - Ainda há algo a ser conquistado profissionalmente?
Marcos - Eu estou no último quinto da minha carreira. Considero-me realizado e ainda tenho projetos, sim, mas nada fora do que já tenho feito. A Receita é uma casa muito boa para se trabalhar. Eu já dei aulas de direito tributário na Instituição Toledo de Ensino (ITE), Universidade Paulista (Unip) e Faculdades Integradas de Bauru (FIB), agora dou aulas de pós-graduação na ITE, mas são cursos esporádicos.
JC - Quais são as dificuldades do seu trabalho?
Marcos - Cobrar obrigações dos outros nunca é uma coisa simples, principalmente no Brasil, onde a sonegação ainda é cultural. Trabalhar contra a corrupção no Brasil não é fácil, há confusões políticas, inclusive. E, por outro lado, é mais fácil as pessoas se revoltarem contra o que é praticado em desfavor de um indivíduo. E a sonegação é um delito contra toda a Nação, mas não há, de maneira geral, uma ânsia de que isso seja combatido. Não nos sentimos apoiados pela população. Quando você sonega, você tira recursos que poderiam ir para a saúde, educação, segurança... E isso parece que não fica claro para a população. As pessoas não sentem isso de forma evidente. No Brasil, a classe média é a mais prejudicada pela sonegação, porque ela é assalariada e vem descontado na fonte. As pessoas precisam compreender que, se todos pagam, todos pagam menos. É como em um condomínio residencial. Fiz um treinamento onde ouvi uma definição muito interessante de ética: “Ética é você fazer para os outros o que gostaria que fizessem por você”.
JC - Apesar de tais dificuldades, observo otimismo em suas palavras.
Marcos - Sim. Eu vivo de esperança. Sou muito otimista e acho que a nossa democracia ainda é muito jovem e as novas gerações não aceitam o que a minha geração e a anterior aceitaram. Acho que podemos conquistar essa geração para ser proativa e não ficar calada como no passado. Eu tenho algumas divergências políticas com o “dar o peixe”. Acho que nós temos de valorizar fortemente o trabalho e a educação. Eu posso, hoje, ter uma certa tranquilidade por causa da educação, que meu pai não teve, mas fez questão de oportunizar para a gente.
JC - O senhor vê caminhos para eliminar a sonegação de impostos?
Marcos - Cidadania, educação fiscal e a seguinte compreensão: o que é de todos, é de todos mesmo. As pessoas acham que o que é de todos, não é de ninguém. É importante não só pagar os impostos, mas também ver onde o dinheiro público está sendo gasto. É preciso acompanhar se o asfalto do bairro tem qualidade, se a saúde e a educação têm qualidade... Acompanhar os orçamentos, principalmente os municipais, onde tudo é mais próximo e visível.
JC - Quando o assunto é sonegação, como a região de Bauru se comporta?
Marcos - Não é pior do que outros lugares. É uma região que tem problemas, mas tem lugares piores. No âmbito federal, acompanhamos de perto e eu diria que, em função da qualidade da informação que a Receita tem, principalmente por causa da informatização que nos ajuda, a sonegação diminuiu em relação ao passado. Mas temos pouca gente trabalhando, o que não permite que os índices melhorem ainda mais. A cidadania fiscal, como os pedidos de Nota Fiscal Paulista, entre outras iniciativas, tem ajudado.
Perfil
Nome: Marcos Rodrigues de Mello
Idade: 52 anos
Local de Nascimento: Salto Grande/SP
Signo: Sagitário
Hobby: Ver futebol na TV, cozinhar e estar com a família e amigos
Esposa: Maria Lúcia
Filhos: Renato, Ricardo e Rafael
Livro de cabeceira: “O Pai Nosso”
Filme preferido: “Ghost”
Estilo musical predileto: MPB
Time: Palmeiras
Para quem dá nota 10: Para minha esposa
Para quem dá nota 0: Para a corrupção
E-mail: mello-marcos@uol.com.br