|
Éder Azevedo |
|
|
|
Alexandra Fabri tem ouvido de empresários que precisam mesclar quadro com gente experiente |
Eles cumpriram 30, 35 anos de trajetória profissional, muitos começaram ainda como aprendizes em suas áreas, alguns fizeram o curso superior dividindo o tempo com o emprego, mas chegada a hora do descanso, a pantufa e a vara de pescar foram descartadas por ordem do mercado: a oferta de trabalho está gerando vagas para aposentados qualificados em postos de chefia, liderança em projetos que exigem relação de confiança, em diferentes níveis, e em funções de conselhos administrativos.
As oportunidades que adiam a inatividade ou permitem novos estímulos à carreira, mesmo após anos de dedicação à vida profissional, estão surgindo da combinação da carência por jovens que detenham, ao mesmo tempo, boa formação profissional e maturidade emocional para exercer funções de confiança, sobretudo em conglomerados ou missões executivas em empresas.
De outro lado, vagas em postos chave da administração pública também não são mais oportunidades apenas para a acomodação de apadrinhados. Prefeitos, governadores e presidentes de Câmaras estão recorrendo a profissionais aposentados para ter suporte e segurança institucional na execução de seus projetos ou avaliação de cenários e riscos. No caso da gestão pública, outras vantagens estão embutidas na abertura das oportunidades para aposentados qualificados: os convidados chegam com bagagem, maturidade e desapego inicial na função, já que não dependem da renda para sobreviver, ao contrário dos apadrinhados.
Para a gestora de pessoal e relacionamento humano, Alexandra Fabri, o fenômeno está em curso, sobretudo no setor privado. E há explicação para a opção pelo empresariado. “O que eu ouço de empresários é que falta maturidade comportamental aos jovens com formação para enfrentar frustrações após a fase de qualificação. Diante do risco de pagar para formar o jovem com currículo e ele não permanecer na empresa em razão do imediatismo, muitos empresários preferem recorrer a aposentados já com liderança e maturidade solidificadas”, comenta.
A oferta para o “idoso” qualificado tende a ser crescente ou permanecer aquecida, avalia a gestora. E aqui há vários elementos a serem levados em conta para entender a postura do mercado. Há, de um lado, um contingente de jovens que estão chegando e ingressando no primeiro emprego mais tarde que nas décadas passadas.
Pais que não têm tempo para se dedicar aos filhos estão “compensando” a ausência com o equívoco de banca-los por mais tempo apenas com a missão de estudar. Mas esses jovens, por consequência, só vão ter contato com emprego após a formação superior. Resultado: apresentam teoria, mas nenhuma prática no currículo.
Para liderar
Além de o primeiro emprego estar sendo efetivado mais tarde, para depois dos 22 anos, uma parte desses jovens também não sabe lidar com frustrações. “A superproteção e a compensação emocional cria a primeira fragilidade nessa cadeia de consequências que gera o vácuo no preenchimento de vagas no mercado para líderes lá na frente. Esses jovens querem resposta mais rápida, mas não têm experiência e lidam mal com frustrações. O empresário não pode arriscar, então vê no aposentado qualificado, com muita energia e vontade de realizar, uma oportunidade de resolver seu problema de liderança sem dissabor e o contrata”, explica Fabri. O aposentado, com bagagem e larga experiência na convivência com conflitos do meio e de inter-relações do mundo dos negócios, surge como opção para funções de liderança. “O risco de apostar em um jovem, mesmo com talento, de perdê-lo pela sua pressa em se resolver na carreira, aliado à possibilidade desse jovem trocar de emprego com facilidade, mais o fato de o aposentado saber já lidar com tudo isso e já ter a maturidade emocional para desenvolver ações de liderança, criam esse fenômeno”, reforça a consultora.
De outro lado, a população está envelhecendo e o conceito de “idoso”, “velho” mudou. “Profissional com 40 anos era velho há 15 anos, mas os brasileiros estão com expectativa de vida crescente e em condições muito diferentes de 20 anos antes. Então temos homens que com 50, 55 anos, atingem o auge da carreira e da maturidade e controle emocional. Isso reforça a oportunidade para essa faixa de homens com qualificação e aposentados que estão sendo convidados a gerenciar, liderar processos e negócios, ao contrário do que acontecia há alguns anos”, finaliza Alexandra Fabri.
Coronel da segurança e logística
José Humberto Nardo percorreu as escalas da carreira militar até concluir os trabalhos como tenente coronel. Ao passar para a inatividade como coronel, foi surpreendido com um convite de uma empresa bauruense de escala nacional para coordenar a segurança em logística.
Antes ainda de colocar em dia a vara de pescar ou se preparar para o contato permanente com netos, coronel Nardo já havia assumido a missão de formar e treinar vigilantes.
“Eu aposentei em setembro de 2011 e logo em seguida fui dar aula para Academia de Vigilantes. Quando 26 turmas estavam tend formação no grupo de instrutores, fui convidado para a área de segurança em logística. Estou aqui e me sinto um menino. Além da satisfação pessoal após a aposentadoria, estou em contato com o mundo dos novos aprendizados”, cita.
Nardo comenta que o convite para atuar como executivo na empresa com cobertura em outras praças exigiu adaptação. “Eu fiquei 34 anos na Polícia Militar. E agora senti enorme satisfação com o convite. É reconhecimento e também a confirmação de que o que você fez foi certo, gerou conteúdo. A velha máxima de que aposentado vai cuidar de horta, dos netos ou vai pegar a vara de pescar não aconteceu comigo, comenta.
O coordenador de segurança viaja muito. “São filiais a serem cobertas e essa cobertura exige mobilidade. Atuo em gestão de perdas e em sinistros também nesse sistema. A vida começa a partir dos 50 anos também com boas oportunidades para trabalhar”.
Afinidade com o cargo
José Carlos Broto estava ainda se adaptando à vida longo da correria da gerência na Caixa Econômica Federal, em Botucatu (SP). Durante 30 anos, o setor bancário foi sua segunda casa. Eis que, no início do ano passado, sua experiência em programas de moradia, sobretudo para a população de baixa renda com uso de recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), o levou a ser convidado para assumir a Secretaria Municipal de Habitação botucatuense.
“Para mim foi orgulho ser convidado, mas recebi com naturalidade. Eu acumulei muita experiência exatamente nessa área. Quando veio o convite eu ainda estava naquela fase de transição de acomodação de tempo pessoal livre. Vivia o choque de, um dia para o outro, ficar parado. Estou podendo utilizar minha bagagem exatamente no setor de habitação, agora com foco principal para os projetos de interesse social”, conta.
Broto esclarece que o desafio lhe veio como ânimo adicional. “Nessa fase, despois de 30 anos no setor bancário, o salário não fazia mais diferença, até porque fosse isso o patamar da Caixa era até melhor que aqui. Honestamente, eu cumpri minha missão profissional e posso ajudar muita gente com o que conheço e aqui na cidade desenvolver projeto com envolvimento com a causa. Isso pra mim está gerando uma transformação que você não pode imaginar”, acrescenta.
Ao analisar as condições que o levaram de volta ao mercado de trabalho, no lugar de vaga que poderia ser preenchida por muito jovem já com maturação profissional na faixa dos 40 anos, José Carlos Broto pondera: “Olha, eu tenho experiência, familiaridade com o setor onde fui convidado. O desafio é para mim animador, tem envolvimento pessoal com a causa e a cidade e veja que é até melhor para o prefeito ter esse perfil para a função de confiança. Eu tenho minha renda consolidada com a aposentadoria e sei que a função de confiança é temporária, dura o tempo do mandato no máximo”.
Para finalizar, o secretário de habitação de Botucatu complementa: “O gestor não terá nesse caso a dependência com relações de proximidade política, ou partidária. Minha natureza já é técnica. Se esse convite fosse no início de minha carreira não ia me interessar, porque eu procurava estabilidade e uma posição a se firmar. Agora eu cumpri minha missão e sou chamado a realizar uma nova missão, mas com o nível de comprometimento com o projeto e a confiança. É pessoal. Tem colegas que se aposentaram e foram descansar. Me sinto bem no que faço”.
Conselheiros para pensar estratégias
A formação de conselhos administrativos para pensar estratégias e antecipar a análise de cenários para definir investimentos e ações de mercado tem sido prática comum entre empresas médias no Brasil. Antes restrito ao segmento de sociedades anônimas (S/A), em razão da necessidade de capital aberto com ações na Bolsa de Valores, os conselhos passam a ter presença em grupos que precisam unir expertise de mercado com capacidade de cartelização de cenários. E olha aqui, de novo, um alçapão de oportunidade para “novos empregos“ para os “aposentados qualificados”.
O economista e consultor de negócios Carlos Sette confirma esta tendência. Tendo migrado do mundo acadêmico para a função de direção executiva no ramo alimentício, Sette passou a observar que a onda de qualificação pela disputa global de mercados, inclusive os regionalizados, gerou o “nicho” de vagas para contratação de pessoas que unam experiência com capacidade de pensar estratégias. “As empresas em franca expansão chegam a um ponto de crescimento de seus negócios onde ou se aperfeiçoam também em antecipar cenários para definir projetos e ações ou correriam riscos. Pessoas que pensam. Elas procuram isso, por mais elementar que possa parecer nas relações humanas. O fato é que profissionais com carreiras consolidadas e com perfil de estrategista, que saibam conciliar seus conhecimentos com avaliação de caminhos para o próximo ano ou as alternativas de novos negócios ou projetos, estão virando alvo dessa onda”, amplia o economista.
Por esta razão, empresas médias estão também passando a constituir conselhos administrativos. “Esse empresário não pode fugir à disputa e ao dinamismo da economia. E muitas dessas empresas também são familiares ou onde os donos não se reciclaram, pararam de estudar ou estão fora desse ciclo de gerar novos projetos. Esses grupos estão contratando aposentados qualificados, gente com saúde e experiência não para ser o executivo da produção, mas o profissional que pensa e aponta caminhos, se antecipa. Os conselhos administrativos nascem aos montes, sobretudo nas empresas médias. Ele coordena o plano de voo, mas não pilota”.
Tecla certa
“O jovem não está sendo convidado por este empresário que quer expandir negócios porque o medo do risco está presente. O jovem tem vontade de vencer, isso é bom, mas o empresário prefere levar para ser seu conselheiro aquele que aperta a tecla certa. E esses profissionais com experiência, traquejo e formação recebem o convite como elemento de motivação. Eles estão prontos para contribuir e dar resultado e sem a correria do mundo executivo. Os novos dominam tecnologia mas sofrem com o imediatismo. Há capacidades no mundo do trabalho que só o tempo pode gerar para determinadas funções, completa Sette.
Executivo
Filho de tradicional família no Parque Vista Alegre, Marcos Madureira aposentou mas continuou trabalhando até que, em 2009, recebeu convite para assumir função executiva da Souza Cruz para a América Latina, mais precisamente a ramificação para o mercado latino da British American Tabaco (BAT). Há dois anos, ele trabalha e mora em Monterrei, no México, onde atua no trade marketing para novos projetos.
20% dos idosos trabalham
Aposentadoria e inatividade não são sinônimos para um universo de pelo menos 3,8 milhões de pessoas com mais de 60 anos no Brasil, segundo dados do IBGE. Isso equivale a 20% dos idosos no País.
A realidade é explicada pelo rendimento baixo no País, o que força muitos aposentados a continuar a gerar renda. Para outro tanto de pessoas nessa situação, a ocupação é questão de sobrevivência. Outro problema que afeta essa correlação é que no País muita gente ainda consegue se aposentar muito antes dos 60 anos, mesmo em ótimas condições para exercitar tarefas e funções. Daqui, a consequência decorrente na difícil sustentação financeira do sistema previdenciário.
Outro apontamento retirado dos dados sócio-demográficos é que em diversas regiões do País, sobretudo na zona rural ou em áreas como no semiárido do Norte e Nordeste, famílias inteiras vivem do ganho da aposentadoria de um idoso.
No mundo, a taxa de participação da população com mais de 55 anos no mercado de trabalho caiu entre as décadas de 60 e 80. O fenômeno lá fora será enfrentado pelo Brasil em 20 anos em escala: o aumento da expectativa de vida.
No Brasil, a presença de pessoas com mais de 60 anos ou a reinserção de aposentados em alguma ocupação ainda é elevada, pelas razões mencionadas acima. Neste momento, as ações governamentais tentam ampliar o tempo de permanência dos trabalhadores na vida ativa, com o aumento da idade mínima para aposentadoria para os novos trabalhadores ou a adoção de regras com redutor para o cálculo dos benefícios, como o fator previdenciário.