A Rússia informou ontem que “não tem a intenção” de invadir o leste da Ucrânia, respondendo a alertas do Ocidente sobre o aumento do número de tropas na fronteira, após Moscou anexar a Crimeia.
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, reforçou a mensagem do presidente Vladimir Putin de que a Rússia vai ficar, pelo menos por enquanto, só com o controle da Crimeia, apesar de ter destacado milhares de soldados para a fronteira com o Ucrânia.
“Não temos absolutamente nenhuma intenção de, ou interesse em, cruzar a fronteiras da Ucrânia”, disse o ministro Sergei Lavrov.
Mas ele alertou que a Rússia vai proteger o direito dos cidadãos que têm o russo como língua nativa, referindo-se ao que Moscou vê como ameaça às vidas de compatriotas no leste da Ucrânia, depois da queda do presidente Viktor Yanukovich em fevereiro.
O Ocidente impôs sanções à Rússia, incluindo proibição de vistos para algumas pessoas próximas a Putin, depois de Moscou anexar a Crimeia neste mês, após a realização de um referendo na região de maioria russa, algo que o Ocidente classificou como ilegal.
O Ocidente ameaçou impor sanções duras contra a economia russa se Moscou enviar mais tropas à Ucrânia. Autoridades dos EUA afirmaram que até 40 mil soldados estão na fronteira.
O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), general Anders Fogh Rasmussen, afirmou que a aliança está “extremamente preocupada”. “Vemos isso como uma ameaça concreta à Ucrânia, e vemos potencial para mais intervenções”, disse. “Tememos que não é o suficiente para ele (Putin). Tememos não estarmos lidando com um pensamento racional e, sim com emoções.”
Países teriam sido ameaçados com retaliação antes de votação na ONU, dizem diplomatas
A Rússia ameaçou vários Estados do Leste Europeu e da Ásia Central com retaliação se votassem a favor de uma resolução da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas nesta semana declarando inválido o referendo da Crimeia sobre a secessão da Ucrânia, disseram diplomatas na ONU.
As revelações sobre as ameaças russas surgiram depois que Moscou acusou países ocidentais de usarem “pressão descarada, até o ponto de chantagem política e ameaças econômicas”, em uma tentativa de coagir os membros da ONU, formada por 193 nações, a darem seu apoio à resolução sobre a crise na Ucrânia.
De acordo com entrevistas com diplomatas da ONU - a maioria preferiu falar sob condição de anonimato por medo de irritar Moscou -, os alvos das ameaças russas incluíam Moldávia, Quirguistão e Tadjiquistão, bem como alguns países africanos.
De acordo com os diplomatas, as ameaças russas não eram específicas. Mas disseram que ficou claro para os destinatários dos avisos que, se apoiassem a resolução, medidas de retaliação poderiam incluir ações como a expulsão de trabalhadores imigrantes da Rússia, interrupção do fornecimento de gás natural, ou a proibição de certas importações para a Rússia, para causar dano econômico.
No fim, a resolução ucraniana declarando inválida a votação realizada em 16 de março na Crimeia, em favor da secessão da Ucrânia, foi aprovada com 100 votos a favor, 11 contra e 58 abstenções. Outros 24 Estados membros não votaram.
Um porta-voz da missão da Rússia na ONU negou as acusações.