09 de julho de 2026
Ser

Entrevista - Carlos Saldanha e Rodrigo Santoro


| Tempo de leitura: 8 min

Paisagem brasileira em destaque

Fazer uma animação pode ser complicado, além de caro. Embora os números quase sempre sejam sigilosos para as empresas produtoras, o que se comenta, extraoficialmente, é que são produções na faixa da centena de milhões de dólares. O prazo médio é de três anos. Em compensação, as decisões muitas vezes são rápidas - rapidíssimas. Rio, de Carlos Saldanha, o primeiro, estourou nos cinemas de todo o mundo tão logo foi lançado, em 2011. Em cerca de um mês, a Fox e a empresa produtora Blue Sky já haviam decidido que haveria o 2. O filme estreou na última quinta-feira - inclusive nos cinemas de Bauru -, em cópias 2D e 3D.

Na semana passada houve a coletiva de lançamento de Rio 2. Onde? No Rio, claro. A Fox conseguiu que o Parque Lage cedesse seu imponente cenário - o prédio e as matas ao redor - para abrigar o evento. Na casa do parque, Glauber Rocha rodou uma cena importante de Terra em Transe. Na piscina, em seu interior, Joaquim Pedro de Andrade localizou a feijoada gigantesca de Macunaíma. A Fox armou uma tenda junto à mata para aproximar os jornalistas do hábitat de Rio 2.

No segundo episódio das aventuras de Blu e Jade, a ação começa na orla carioca, no tradicional réveillon que lota Copacabana. Não demora muito - na cena seguinte - e a ação desloca-se para a Amazônia, onde o ornitólogo Túlio descobre que Blu não é o último de sua espécie, mas que existe toda uma reserva de araras azuis.

Carlos Saldanha reconhece que Rio 2 é mais infantil do que o primeiro, mas não houve nenhuma pressão para isso. Foi uma opção dele fazer um filme mais simples e direto para os pequeninos. O réveillon como grande explosão carioca meio que predispõe o público a entrar num universo de magia.

Muitos críticos reclamaram que se trata de obra de propaganda, ?encomendada? para vender a sede (uma das) da Copa do Mundo e, depois, em 2016, da Olimpíada. Saldanha ama o Rio. Nega que o Rio que cria em seus filmes seja uma utopia maravilhosa. A cidade está mais para Alemão, o longa de José Eduardo Belmonte, do que para esse paraíso idílico.

Mas ele faz a ressalva: "O objetivo nunca foi fazer um documentário. Estou trabalhando no registro de fantasia, mas duvido que possam me acusar de falsificação. O Rio é essa cidade maravilhosa."

Do Rio, portanto, a trama salta para a Amazônia, mas para chegar lá é preciso atravessar o Brasil. Presentes à coletiva estavam os compositores Sérgio Mendes e Carlinhos Brown, e o ator Rodrigo Santoro, que dubla Túlio, o ornitólogo. Carlinhos dá a sua definição de Rio 2. "O filme, ao atravessar o Brasil, viaja na nossa diversidade. Ela não é apenas de paisagens, de tipos humanos e de arquitetura. É também musical."


Amazônia

Na Amazônia, o filme encontra outro de seus temas - o desmatamento. Há um vilão que está destruindo a rain forest, e numa cena a destruição ameaça substituir a exuberância verde por um deserto vermelho. As máquinas, a destruição da vida e a árvore na qual, em protesto, se alojam os pássaros - tudo isso remete diretamente a Avatar, de James Cameron. Avatar? "Nunca foi uma referência", avaliza Saldanha. "Está nos seus olhos, nos olhos de quem vê."

Tudo em Rio, o primeiro, virou superlativo - 70 milhões de espectadores em todo o mundo, quase US$ 500 milhões (exatamente US$ 486 milhões) de bilheteria. Não admira que a decisão de produzir o 2 tenha sido tão rápida. E Saldanha conseguiu levar artistas e técnicos brasileiros para a equipe. "São cinco, além da parte musical e do Rodrigo. Essa contribuição brasileira ressalta a universalidade dos filmes. Estamos falando de família, de valores e, no caso do 2, da própria preservação ambiental. Tudo isso é muito valioso."

Mas ele tem de ouvir a reclamação do repórter - cadê o buldogue? Ele aparece um pouquinho no começo e no fim. "Você gosta? É um dos meus personagens preferidos, também. Tentei espichar sua participação na história, contando como ele conseguiu chegar à Amazônia. Os pássaros foram voando, e ele? Só que a explicação ficou comprida e produzia uma quebra na história."

Ainda não existe decisão nenhuma sobre um terceiro Rio, mas Saldanha promete pensar com carinho no aumento da participação do buldogue. Rodrigo Santoro integrou a coletiva, realizada por volta das 2 da tarde.

De madrugada, havia chegado do Chile, onde, até o dia anterior, participava no deserto do Atacama da filmagem de Os 33, sobre o episódio do resgate dos mineiros chilenos soterrados numa mina no deserto. Santoro ama seu personagem - "Ele tem uma pureza, uma inocência que me encanta. Um cara que acredita que pode falar com os pássaros... Para mim, a integridade dele encerra uma lição nesse mundo em que vivemos."
E Saldanha, o que tem a dizer sobre a técnica, o 3D? "Ela é uma ferramenta, não é o mais importante. Por isso mesmo, procuramos não exagerar, para que o público a toda hora ficasse se admirando e perguntando - ?Oh como fizeram isso?? O que importa é a história, e eu acredito na história de Rio 2." É seu terceiro filme com Rodrigo Santoro.

Além dos dois Rio, eles fizeram o episódio de Rio Eu Te Amo. Saldanha, cada vez mais respeitado como animador, sempre quis fazer uma live action. A experiência valeu - "Como técnica, é diferente, mas em termos de criatividade o desafio é o mesmo. É sempre contar bem a história que nos atrai", acrescenta o diretor.


Desafios ampliados


Qual foi o maior desafio técnico de Rio 2?

Saldanha - Muita gente acha que é o 3D, mas ele é só uma ferramenta que estamos usando. A maior dificuldade e que, inclusive, aumentou em relação ao primeiro filme, é que já era difícil criar todos aqueles elementos orgânicos. Areia, mar, vegetação, morros, a visão aérea do Sambódromo. Com a inclusão da Amazônia no roteiro, foi preciso criar um patamar muito mais complexo para a computação gráfica, mas, na verdade, acho que isso vem ocorrendo com toda a animação, de modo geral, e não apenas com Rio. Com o aprimoramento da técnica, hoje é possível ousar muito mais e alcançar um realismo nos detalhes que antes só podia ser sonhado pela gente.

Você já tinha falado do carnaval no primeiro Rio, agora tem futebol. É difícil levar essa ?brasilidade? para Hollywood?

Saldanha - Acho importante levar nossos temas para Hollywood e acho bacana que a indústria esteja absorvendo tudo isso. É claro que essa boa vontade tem a ver com o sucesso do primeiro filme em todo o mundo, com certeza. Rio superou a expectativa. Isso gerou um movimento de apoio muito forte em torno da produção. Quando nos perguntamos se deveríamos ousar, fazer, a resposta foi: "Vamos". O futebol, por exemplo, é uma das boas coisas que o Brasil tem. Quando começamos a trabalhar, sabíamos que o filme seria lançado neste ano de Copa do Mundo. Não creio que seja oportunismo.


Responsabilidade e estímulo

Você fala muito na pureza do Túlio, personagem ao qual você empresta a voz em Rio. Como é fazer um tipo assim?

Santoro - Ah, é muito bacana e, ao mesmo tempo, é uma responsabilidade muito grande. Porque ele é tão lírico. Ao mesmo tempo, o Carlos (Saldanha, diretor do filme) me dá tanta liberdade... No primeiro filme, enquanto eu gravava minhas falas, havia uma minicâmera no estúdio e eu não sabia por quê. Depois, ele me disse que improvisasse, que gesticulasse, que não ficasse engessado só na voz. Os movimentos seriam usados pelos animadores. Esse exercício de criação é muito salutar. Gosto do Carlos por isso. Ele estimula o melhor na gente.


Você também trabalha com a voz em 300 - A Ascensão do Império, que está sendo um sucesso. Tem diferença?

Santoro - Sempre me impressionou muito o interesse das pessoas pelo Xerxes. É um personagem que depende muito mais da imaginação, enquanto a gente filma. Afinal, durante as filmagens, só temos tela verde, tela azul, nenhum cenário. É preciso imaginar tudo. Lá eu contracenava com fita crepe. O processo é mais rígido, nada de liberdade de movimentos. Mas também foi muito bacana participar do filme.


E a Juliette Binoche em Os 33?

Santoro - Cara, você a conhece. Ela é maravilhosa. Juliette se joga no papel com intensidade. E não é estrela. Compartilha com aqueles que estão à sua volta. Foi uma grande experiência.