11 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Mea culpa militar nos 50 anos do golpe de 1964


| Tempo de leitura: 3 min

Nesses 50 anos do Golpe Militar, data lembrada no dia do seu sucesso enquanto motim, 1º de Abril, o tradicional Dia da Mentira, daí a comparação mais acertada para todo o ocorrido na sequência, a imensa sucessão de falácias, controvérsias, rede de autoritarismo disfarçada de benesses e mentiras implantadas à Nação. Por quase duas décadas o país foi brutalmente submetido a um regime de exceção, perda de direitos e estancamento das liberdades individuais, pairando sempre sob o ar o medo coletivo. Medo esse ainda não totalmente dissipado.

De tudo o que de mal tivemos como péssimos exemplos, algo insiste e perdura até nossos dias. Exemplo maior está nas esquinas de qualquer cidade, na figura de qualquer guarda de trânsito. Esse diante do cidadão comum se vê investido de um poder tão avassalador, algo imposto como portador de uma ordem absoluta, dessas que deve ser imediatamente cumprida, inquestionável e ele, a sumidade, suprassumo da autoridade, não restando ao cidadão nada além da resignação ao cumprimento do ali estabelecido. Resquício evidente dos desmandos autoritários daquele período, feridas não totalmente cicatrizadas.

A fatídica frase "sabe com quem está falando?" possui o mesmo significado. São poderes ilegitimamente subtraídos por uns para benefício próprio, em detrimento do que deveria ser a regra, o "todos são iguais perante a lei". Sim, a ditadura militar contribuiu e muito para fixar na cabeça do homem comum que o fardado é uma instransponível e inquestionável autoridade. Quebrar isso não é fácil. Quantos de nós até hoje quando diante de uma farda não nos redimimos, cabeça baixa, voz embargada, acabamos sendo vencidos mesmo tendo razão, deixando-se perder para não complicar ainda mais a situação. Esse medo persiste e resiste.

A instituição militar, executora do golpe, infelizmente pouco tem feito para se enquadrar dentro de um padrão dito normal de conduta. Vivem num mundo à parte. Até hoje, resistindo ao tempo e a própria Lei Maior da nação, uma Justiça Militar julga os seus ao seu modo e jeito, fazendo pouco caso da própria Constituição vigente. Militares não deveriam se diferenciar em quase nada dos civis, "cada um no seu quadrado", respeito mútuo, porém até as pedras do reino mineral sabem que a realidade é bem outra. Nem a própria Presidenta da República, Chefe Maior das Forças Armadas consegue obter informações definidas dos arquivos militares. Isso é quase um Governo Paralelo.

Falta a esses a humildade em reconhecer os excessos cometidos. Já é chegada a hora do "mea culpa" militar. Pegaria muito bem o reconhecimento dos seus erros, afirmando que tudo ocorreu também por influência direta de uma elite que os instrumentalizaram, referendando-os para os atos ilegais. Nada fizeram sozinhos. Não só livrariam a própria cara, como escancarariam terem sido também usados. Nem o país caminhava para o comunismo em 1964, nem esse eterno silêncio deles demonstra espírito democrático. Fechando-se em copas, reafirmando ideais ultrapassados não mais possíveis de utilização e identificando-se ainda como únicos baluartes de civismo não é posição das mais salutares, muito menos recomendável.

Salutar seria vir a público e em alto e bom som afirmarem: "erramos"! Pedir desculpas à Nação, saindo do imbróglio com a maior dignidade possível. Mereceriam efusivos aplausos coletivos. É evidente a existência de descompasso cada vez maior entre uma cúpula militar e a maioria do pensamento vigente na tropa, essa mais arejada, renovada e sensível, advinda das camadas populares. Muitos clamam por esse Mea Culpa, forma de finalizarmos um período tétrico na história do país, mas uma minoria resiste, insuflada pelos de pijama e ainda fazem questão de pregar o atraso.

Já é tempo do desejo da tropa se fazer valer. O país num todo ficaria muito grato às suas Forças Armadas por tão nobre gesto. Aos 50 anos de fatídico fato manchando nossa história, o país finalmente poderia varrer do seu passado nefastos acontecimentos. Todos ganhariam com isso.

Henrique Perazzi de Aquino,

jornalista e professor de História