08 de julho de 2026
Geral

Casa de Pelé: fogo ?atinge? o passado

Vítor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

O primeiro imóvel que o rei Pelé deu ao seu pai é um símbolo histórico e que certamente permeia as lembranças daquele que é o melhor jogador de futebol da história. Contudo, quem passa em frente à casa localizada na quadra 4 da rua Sete de Setembro, em  Bauru, encontra um local que atravessou a linha tênue do histórico e caiu no abandono. A chamada casa do Pelé foi alvo de um princípio de incêndio na madrugada desta terça-feira (1).

 

O imóvel teve parte do assoalho e uma porta queimadas. No mesmo horário, a duas casas dali, outro local abandonado, na mesma rua, foi totalmente consumido pelas chamas (leia mais abaixo).

 

Um aposentado, de 67 anos, morador das proximidades, contou que, era por volta das 3h da madrugada desta terça-feira, quando ouviu intenso barulho. De repente, viram que havia chamas na casa do Pelé. “Um outro vizinho pegou a mangueira e conseguiu apagar o fogo. Foi por sorte”, complementa.

 

Na residência, o mato alto no quintal e a pintura já quase inexistente deixam claro a ação do tempo. Entre as paredes rabiscadas e as janelas sem vidros, também é comum encontrar, pelo chão, latinhas cortadas usadas no consumo do crack. 

 

Todos são unânimes em dizer que a casa, com o passar das décadas, migrou de motivo de orgulho para um problema no bairro. “Eu até colocava cadeados lá, mas, agora, nem mais portão tem. É muito triste ver essa casa desse jeito. Tem toda uma história ali”, lamenta Manoel Pereira de Oliveira e Souza, 63 anos, que viu o Pelé entregar uma camisa da seleção ao irmão bem naquela rua.

 

Impasse

 

Mas como um local que carrega tanta história se tornou ponto de uso de drogas? A decadência do local perpassa por um processo na Justiça. A casa não é reconhecida oficialmente como propriedade da família do ex-jogador.

 

Até hoje, a escritura do imóvel não foi oficializada no nome dos pais de Pelé. É que, na década de 50, não foi feita a escritura e, agora, não se consegue localizar os antigos proprietários. Em janeiro de 2012, conforme o JC divulgou, os advogados do ex-jogador entraram com um processo de usucapião para tentar obter o domínio do imóvel.

 

“Nós estamos trabalhando para que a situação seja resolvida. Em novembro, foi pedido para citar três pessoas, mas, até agora, nada. Nós temos a intenção de comprovar o domínio para poder negociar o imóvel ou, enfim, tombar mediante à indenização”, explica Ana Carolina Borges, advogada da família.

 

A ação judicial segue na 3.ª Vara Cível do Fórum de Bauru e ainda não há qualquer decisão. Caso o impasse seja resolvido, a prefeitura já demonstrou a intenção de obter o espaço para construir o Memorial do Esporte Bauruense. 

 

Apesar do estado do imóvel, a advogada da família de Pelé rebate que a casa não está abandonada. “É degradação em razão do tempo. A família sempre foi dona e está fazendo de tudo para resolver a pendência. De tempos em tempos, manda cortar o mato alto... Esperamos que o poder público também ajude”.

 

Fora a questão na Justiça, prefeito alega que preço também emperra

 

O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) confirma que ainda tem interesse no imóvel para montar o Memorial do Esporte Bauru, porém, aponta que não é somente a questão judicial da falta de documentação da família do ex-jogador que emperra a negociação.

 

“Há também a questão do preço. A família quer um valor justamente pelo fato de os familiares do Pelé terem morado ali. Nós não podemos pagar um valor muito acima do de mercado. E, ali, está um imóvel já bastante deteriorado”, destaca. No processo de usucapião, o valor de ação é R$ 56.936,08.

 

Em 2010, a prefeitura até iniciou o tombamento do imóvel, porém, não foi em frente. Na ocasião, Agostinho justificou que não iria dar seguimento ao tombamento para, posteriormente, poder reformar e construir o memorial.

 

Ali, passava férias e fins de semana 

 

Ao contrário do que muitos acreditam, Pelé nunca morou na casa localizada na Sete de Setembro, 4-10.  De acordo com uma o jornalista e historiador Luciano Dias Pires, ele residia, na verdade, a poucos metros dali, na quadra 3 da rua Rubens Arruda.

 

“Em agosto de 1956, o Pelé foi embora para o Santos. Foi somente aí que ele comprou para seu pai a casa da Sete de Setembro. Ele vinha passar as férias e alguns fins de semana nesta casa”, conta.

 

Apesar disso, o primeiro “grande presente” que Pelé deu aos seus pais entrou para a história. Anos depois, o rei do futebol teria comprado ainda um sobrado localizado na quadra 15 da rua Quinze de Novembro para que a família fosse morar. 

 

Foi consumido 

 

Na mesma madrugada em que a antiga residência da família de Pelé teve o princípio de incêndio, outro imóvel, a duas casas de distância dali, foi consumido pelas chamas. O local, que também era frequentado por moradores de rua e usuários de drogas, teve queda do telhado e ficou bem danificado.

 

“Começou por volta das 2h e ficou até 4h30. Suspeitamos que são os próprios usuários que estavam ali e brigaram entre eles. Foi um susto enorme”, conta um morador vizinho, de 40 anos. A Polícia Civil investiga os dois casos.