08 de julho de 2026
Geral

Lixo é abandonado em hospital

Marcus Libório
| Tempo de leitura: 5 min

Não é de hoje que o Hospital Estadual Manoel de Abreu sofre vandalismo e descaso por parte da população. Lixo e entulho são depositados nos arredores do prédio e no terreno da unidade, quase que diariamente. 

 

Segundo vizinhos, alguns chegam de carro, em plena luz do dia, e tiram os detritos do porta-malas, sem se intimidar com quem está vendo. Até um pufe foi jogado por dentro dos muros do hospital. 

 

O episódio mobiliza dois jardineiros da instituição, que se veem obrigados a recolher o lixo para manter a higiene. Além de resíduos, a reportagem do JC flagrou entulho e parte do muro queimada por conta do lixo incinerado. 

 

“Vejo gente chegando de carro para jogar o lixo, geralmente, à noite. Alguns, quando percebem que tem alguém vendo, colocam de volta no porta-malas e vão embora. Outros nem se intimidam”, contou a dona de casa Lurdes Lourenço Batista, de 76 anos. Ela mora há 23 anos na rua Professor Antônio Guedes de Azevedo, em frente ao hospital.

 

A menos de duas quadras dali, o empresário Júlio César Zancheta, 31 anos, que há 10 anos possui uma loja de acessórios e consertos de som automotivo, confirma a versão de Lurdes. “Já vi o pessoal jogando lixo da janela do carro em movimento. Além disso, carroceiros despejam entulhos nas calçadas. Isso é uma falta de respeito e consciência. Acho que são moradores de outros bairros”, suspeita. 

 

Ponto de vista

 

A falta de comprometimento com a cidadania desperta uma discussão entre estudiosos e médicos, em torno do estigma das doenças contagiosas, como é o caso da tuberculose pulmonar e HIV, tratadas na unidade . Junto com o descaso do lixo, pacientes lutam não só contra a doença, mas também contra o preconceito. 

 

Médicos, estudiosos e até mesmo pacientes e seus familiares contam sobre as dificuldades e esperanças que permeiam o dia a dia deles no hospital. Indagada sobre ter receio de permanecer em um hospital visto de forma negativa por muitos, a dona de casa Terezinha Rosa Xavier, 68 anos, que acompanhava o marido em um dos leitos, diz que não faz diferença para ela. 

 

“Dizem que quem está internado aqui, está no inferno. Não vejo assim. Fiquei internada uma vez no Manoel de Abreu e acho um hospital igual aos outros. O que falta é conscientização”, observa. 

 

Deitada à cama, ela tentava recuperar o sono atrasado de quatro dias, desde que o marido foi internado para o tratamento de uma nefrite nos rins. “Ele começou o tratamento hoje. Se Deus quiser, vai dar tudo certo”, disse. 

 

Livro e fé

 

Em meio a corredores vazios e quartos fechados, um olhar de esperança. Sentado em um banco de madeira, com um jardinzinho à volta, o aposentado Antônio Perez, 74 anos, lia um livro de romance, cujo título resumia o sentido de não desistir da cura. 

 

“O nome do livro é ‘Se abrindo para a vida’. História muito interessante e cativante, de como devemos encarar os problemas de uma forma geral”, contou. Perez é da cidade de Promissão e teve início de pneumonia no mês passado. Após uma radiografia levantar a suspeita de leishmaniose, ele foi transferido para o Manoel de Abreu. 

 

“Enquanto espero os exames, aproveito para ler. Hoje recebi a visita de duas filhas. Domingo veio outra”, contou. Poucos metros e cerca de um minuto de caminhada separam o jardinzinho dos quartos que abrigam os pacientes de tuberculose. Hoje, a unidade hospitalar cuida de seis tuberculosos., índice baixo já que, na média, são em torno de nove a dez por mês.

 

‘Preconceito nós temos e devemos admiti-lo”

 

As portas fechadas nos corredores do Hospital Estadual Manoel de Abreu, com cartazes pregados que explicam sobre como entrar nos leitos sem correr risco de contágio, nos induz a um questionamento: como distinguir a prevenção da discriminação? 

 

Para o professor de antropologia da Unesp de Bauru, Claudio Bertolli Filho, todos, de certa forma, carregam consigo um pouco de preconceito. 

 

“Preconceito nós temos e devemos assumir que ele existe em relação a tudo: ao homossexualismo, ao leproso, ao aidético. A partir desta discussão, é preciso entender que isso é uma construção simbólica e que não pertence ao real”, observa. 

 

O professor, que é autor do livro “História social da tuberculose e do tuberculoso:1900-1950”, lançado em 2001, relata que o problema é frequente e está próximo da nossa realidade. 

 

“O preconceito contra o tuberculoso continua sendo algo sério, incluindo na cidade de Bauru. Recentemente eu soube de um caso de uma pessoa que contraiu tuberculose e a própria família o tratava de forma diferente. Primeiramente, as roupas de cama, pratos e talheres tinha de ser diferentes dos dele. Depois, por não tomar os medicamentos corretamente, ele acabou sendo expulso de casa”, contou. 

 

O infectologista e diretor técnico do Hospital Estadual Manoel de Abreu, Edson Carvalho de Mello, compartilha da opinião de Bertolli e diz que ainda há preconceito por parte dos familiares e amigos.

 

“Por falta de esclarecimentos, os familiares acabam discriminando e renegando o indivíduo que tem tuberculose. Porém, por outro lado, há famílias que buscam mais informações com a gente e conseguem dar um suporte adequado ao tratamento, pois o apoio familiar é muito importante”, observa.

 

Hospital: à espera de reforma e mais leitos

 

Há 63 anos em Bauru, completados em janeiro deste ano, o Hospital Estadual Manoel de Abreu precisa de reforma e ampliar os leitos. Hoje, a unidade possui 57 leitos, divididos em clínica médica, infectologia e dependentes químicos. 

 

De acordo com a gerente administrativa do hospital, Vera Lúcia Custódio Rodrigues, um projeto que visa melhoria estrutural do hospital já foi encaminhado ao Estado. 

 

“Ainda não conseguimos nada, mas percebi que os governantes já olham de forma positiva para nós”, comemora.

 

Uma das inovações seria a instalação da pressão negativa nos quartos que abrigam portadores de tuberculose. O dispositivo serve como um filtro de ar e impede a transmissão da doença. “Custa caro e o hospital não tem, mas estamos com um projeto de reforma, que inclui a compra deste aparelho”, disse o infectologista Edson de Mello. Para o médico, o Manoel de Abreu precisa de uma infraestrutura de suporte aos pacientes após a alta médica. 

 

“O ideal seria se a gente conseguisse começar um tratamento na internação e pudéssemos mantê-lo ainda no hospital no pós-internação, porque a maior parte do tratamento, na verdade, é quando a internação acaba. Precisaríamos de ambulatórios especializados”, observa.