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Douglas Reis |
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Casa em Cássia Servulo vivia com sua mãe, Zenaide Martins Servulo, 54 anos, e três irmãos |
Sangue espalhado pela sala, cozinha e corredores. O cachorro de estimação morto a facadas no quintal e o corpo de uma mulher embaixo de uma porta de madeira, no vão entre paredes que separam os quartos do muro da casa. Este foi o cenário que policiais encontraram ao chegar no local de um crime cometido por uma jovem de apenas 22 anos contra sua própria mãe.
Cássia Martins Servulo matou a mãe Zenaide Martins Servulo, 54 anos, e o cachorro da família, “Neguinho”, com vários golpes de faca na madrugada de ontem na rua Tamandaré, no Jardim Vitória. Em seguida, procurou uma base da Polícia Militar (PM) e confessou o homicídio, o 17º registrado em Bauru só neste ano.
“Sangue para tudo o que era lado. Uma cena desoladora. Em 26 anos na polícia, nunca havia visto algo tão brutal assim. Chocou bastante”, disse o delegado plantonista Roberto Cabral Medeiros, sobre o que viu ao chegar na residência onde ocorreu o crime.
De acordo com Cabral, não foi possível precisar quantas facadas teriam atingido tanto Zenaide quanto o cachorro. “Quando o boletim de ocorrência (BO) foi finalizado, o exame necroscópico ainda não tinha sido concluído. Só sabemos que foi uma quantidade grande de golpes”, observa.
Ao chegar na residência, o delegado tentou falar com a autora do homicídio, mas a maior parte do tempo ela permaneceu calada. “Tentei interrogá-la, mas ela estava muito confusa e falando coisas desconexas”.
O JC esteve na delegacia e encontrou a jovem totalmente desnorteada.
O motivo que a levou a cometer o crime ainda é desconhecido, porém, familiares disseram à polícia que Cássia sofria com problemas psicológicos e já esteve em tratamento pelo município (leia mais abaixo).
Arrastou o corpo
“No momento em que eu cheguei, dava a impressão que a ficha dela ainda não tinha caído”, explicou Roberto Cabral. Ainda de acordo com o delegado, após matar a mãe, ela teria arrastado o corpo pela casa até chegar no vão.
Uma porta de madeira foi colocada em cima do cadáver, que permaneceu de bruços até a chegada da perícia.
“Ela que mostrou onde estava a mãe para os PMs. Acredito que teve muito trabalho e insistência para levar o corpo até esse local. Mas a pessoa, quando está transtornada, tira forças que a gente nem consegue calcular”.
O cachorro foi encontrado morto no quintal. Após o exame pericial, um parente pegou o animal para enterrá-lo. “Não deu para saber quem ela matou primeiro. Tudo indica, pela concentração de sangue, que a mãe tenha sido esfaqueada na cozinha”, finaliza o delegado Roberto Cabral.
Agora, quem prossegue nas investigações é o delegado Ismael Cavalieri. “Vou chamar os irmãos dela para depor e tentar levantar a motivação do crime”, informou.
O caso foi registrado como homicídio qualificado doloso, cometido por motivo torpe .
Cássia Servulo foi recolhida à Penitenciária Feminina de Pirajuí, onde permanece à disposição da Justiça.
‘Ela estava estranha’, conta vizinha que viu Cássia antes do assassinato
Uma das vizinhas, Leda Maria Alves, que vive próximo à casa há dois anos, disse ter ouvido gemidos do cachorro na noite do crime. De acordo com ela, não houve discussões e nem gritos. “O único barulho que ouvi foi do cachorro”, afirma.
Além disso, ela chegou a conversar com a autora do crime pouco antes do ocorrido e notou que ela estava estranha. “Ela só respondia o que eu perguntava e a fisionomia dela estava totalmente transformada”, conclui.
Uma hora antes do crime, outro vizinho, Wagner Ribeiro, disse ter conversado com um dos irmãos de Cássia por mensagem de texto, mas ele não estava em casa no horário do homicídio.
Além disso, Ribeiro acrescenta que nunca ouviu brigas muito graves da família e que todos são evangélicos. “Quando fiquei sabendo, não consegui acreditar”, frisa.
Ele observou também que a jovem começou a apresentar comportamento estranho há dois anos. “Ela andava a pé de dia e de noite, com sol ou com chuva, pelas ruas. Ela tinha uma fisionomia que não aparentava ser de uma pessoa tranquila”, explica.
O vizinho contou ainda que a jovem perdeu o pai muito cedo e que a mãe era a base de toda a família.
Psicólogo afirma que pais precisam ensinar filhos a lidar com os conflitos
Apesar das características específicas do caso, o fato de a filha ter matado a própria mãe abre uma discussão sobre a educação e os limites dos filhos.
Conflito na família, contudo, é algo comum e que deve ser trabalhado desde cedo, segundo orienta o psicólogo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Lucas Faria Gonçalves.
“Os pais tem que ensinar os filhos a lidarem com os conflitos. A forma como os pais negociam com o filho é fundamental para que haja uma boa relação entre as partes”.
O psicólogo ainda diz que essa relação pode ser abalada por conta da pressão que o mundo oferece. Na opinião dele, os pais protegem muito os filhos e isso não é bom. Quietude também seria um sintoma preocupante.
“Temos que nos atentar se filho é muito quieto. Isso é um problema porque ele pode estar vivenciando conflitos dos quais não sabe lidar”, observa.
No caso de Cássia, o psicólogo observa que não tem como levantar um diagnóstico preciso sem conhecer a realidade dela. Porém, falta de diálogo pode ser associado a problemas graves entre a família.
“Há pais que dialogam pouco. Temos que pensar em estabelecer uma boa relação com os filhos desde sempre. Só assim, pode-se evitar problemas futuros. Uma boa relação não é fazer tudo que o filho quer, por exemplo. Tem que ensinar a negociar”, finaliza Lucas Gonçalves.
‘Neguinho’
Vizinho, Wagner Ribeiro conta que o cachorro da família era muito bem tratado. “Neguinho”, inclusive, era “namorado” da cachorra de estimação dele.
“No último sábado, os dois cãezinhos chegaram a brincar na rua e o animal da família de Cássia sempre foi muito bem cuidado. Realmente, não dá para acreditar que isso aconteceu”, completa.
Ouvia vozes
Os familiares afirmaram que Cássia Servulo tinha problemas psiquiátricos. De acordo com dados levantados pela Secretaria Municipal de Saúde, a jovem passou pelo Centro de Apoio Psicossocial (Caps), contudo, abandonou a sequência do tratamento.
“Segundo relato da família e testemunhas que ouvimos informalmente no local, ela tinha problemas psiquiátricos. Frequentemente, dizia que ouvia vozes, que o Satanás estava no corpo dela e mandava ela tomar certas atitudes”, disse o delegado Roberto Cabral.