08 de julho de 2026
Articulistas

Quem somos?

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Em face das crescentes dificuldades decorrentes das alterações climáticas e do crescimento populacional, nosso desenvolvimento como seres humanos está vinculado a uma educação de qualidade, trabalho e a bons hábitos de saúde e cooperação. Sobre educação e saúde muito já se comenta e o que se observa não é nada alentador.

Por sua vez, o trabalho eleva o homem, porque é por meio dele que o homem ganha seu sustento; o trabalho tem um valor espiritual, porque faz parte do desenvolvimento e da criatividade da condição humana. Comer sem trabalhar, eternamente, às custas das bolsas distribuídas pelo governo, não é benção, mas fuga da condição humana. Trabalhar traz dois benefícios. Primeiro, dá independência à pessoa, uma das coisas essenciais numa sociedade livre; qualquer emprego é melhor que nenhum. Em segundo lugar, a primeira imagem que temos do Criador, quando lemos Gênesis, é a de um Artífice, um Arquiteto dando forma ao Universo. É com o trabalho que nos tornamos parceiros do Eterno no processo contínuo de criação. Quem lê a Bíblia, a Torá ou assistiu ao filme Noé sabe que o Criador lhe garante a salvação do dilúvio, mas é o próprio Noé quem precisa construir a arca.

Por outro lado, a base da cooperação está na confiança e na crença de que cada um vai retribuir, agora ou mais tarde, o que foi feito, individual ou coletivamente, para beneficiá-lo. Até a competição só é benigna quando compensada por hábitos de cooperação. Um mundo puramente competitivo, começa criativo, mas acaba autodestrutivo. Se a cooperação sem competição é imperfeita, a competição sem cooperação é cega.

Incentivada pelo governo federal até há pouco, essa cultura dirigida para o consumo e dominada pela publicidade atua cotidianamente contra lealdades duradouras: desafia todos o tempo todo a mudar para uma marca diferente; experimentar uma coisa nova ou procurar algo melhor em outro lugar. Não se deve surpreender, portanto, que estas coisas comecem a afetar também as relações humanas. Uma sociedade saturada de valores de mercado seria uma sociedade de relações temporárias, individualista, com vínculos provisórios e compromissos descartáveis. Uma sociedade onde prevalece a inveja, a raiva e um forte sentimento de injustiça que fertilizam o solo para protestos e violência.

Hoje, além do tempo, até os espaços passam a ser privados através dos centros comerciais e dos complexos de entretenimento. As pessoas os frequentam como consumidoras e não como cidadãs. Assim, os encontros são cada vez mais impessoais e a comunicação cada vez mais virtual. O aumento da criminalidade tornou os poucos espaços públicos, ainda conservados, muito mais perigosos. Se juntarmos tudo isso, constatamos que a sociedade está se tornando cada vez mais dividida e segregada.

No espaço de uma geração e apesar do progresso econômico e do avanço tecnológico, aumentaram a violência, o estresse, as tentativas de suicídio, o alcoolismo e o consumo de drogas. Ora, estes não são sintomas de bem estar, são sintomas de uma sociedade frouxa, permissiva, corrupta, onde os fins justificam os meios; uma sociedade sem as amarras que garantiriam sua sobrevivência: não há lealdade, retidão, obediência às leis, justiça e compaixão. Não basta, também, construir casas e estádios se, nesse processo, se esquecem dos laços que dão tranquilidade e bem estar e que, portanto, ligam, de forma responsável, as pessoas entre si.

O autor é professor aposentado da Unesp