10 de julho de 2026
Cultura

Premiada autora duartinense fala sobre inspiração e técnica

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 4 min

Éder Azevedo

Em visita a Bauru, premiada autora duartinense Lúcia Hiratsuka fala sobre sua carreira, inspiração e suas técnicas

Desde que desenhou um peixinho no chão de seu quintal em Duartina, imitando sua avó, ainda na infância, Lúcia Hiratsuka percebeu imediatamente a vocação que a levaria a se tornar uma autora premiada. Mas da menina que teve uma infância feliz no seu “furusato”, rodeada de bichos reais e imaginários e árvores, à escritora, pesquisadora e ilustradora reconhecida, um caminho de estudos, com dedicação e disciplina, foi percorrido. 

 

Formada em Artes Plásticas, Hiratsuka fez aperfeiçoamento na Universidade de Educação de Fukuoka, no Japão, na década de 1980. Seu extenso e primoroso trabalho como escritora e ilustradora recebeu várias premiações, como o da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1995, por Tanaba¬ta, Momotaro e Hatikazuki; dois prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, com as obras Contos da Montanha, de 2006, e A Visita (2012), um livro sem palavras, que conta a história só com ilustrações, etc. 

 

A autora esteve em 17/04 em Bauru, no Colégio Batista, onde entrou em contato com seus jovens leitores e viu trabalhos dos alunos relacionados à sua obra. Na ocasião, Hiratsuka concedeu entrevista ao Jornal da Cidade.  

 

JC – O que veio primeiro: a literatura ou a ilustração?

Lúcia Hiratsuka – Acho que foi, primeiro, a paixão pelas histórias e pelos livros. Mas desenho também. Meu pai assinava alguns livros que chegavam do Japão todo mês e, quando ele chegava em casa com um pacote em formato quadrado, eu já sabia que ali tinha livros. Quando abria tinha muitos desenhos e histórias. Mesmo eu não sabendo ler, eu já sabia que queria fazer aquilo. 

 

JC- Era vocação precoce.

Hiratsuka – Sim. Minha avó conta e tenho lembrança muito vaga que ela desenhou um peixe no chão do quintal e eu imitei. E não parei mais. 

 

JC – A inspiração vem sempre da cultura japonesa?

Hiratsuka – Não. Não importa se é do Japão ou não. Se é universal é porque tem sentimento humano comum a todos. É aí que eu sinto que consigo atingir leitor de qualquer lugar. Por eu ter uma avó japonesa, trago também as lendas, que é repertório dela. Pode ser que tenha um toque oriental no desenho, com muito vazio, um espaço de silêncio, porque estudei muitas técnicas orientais e estive no Japão estudando um ano depois de fazer faculdade de Belas Artes. Entra um pouco da influência da técnica do sumiê.

 

JC – Como é esta técnica?

Hiratsuka – Sumi vem da tinta feita à base de carvão. Basicamente, você tem que pegar a essência daquilo que vai retratar. Por exemplo, o bambu vai crescer de baixo para cima. Então, a pincelada é de baixo para cima. Você treina muito com elementos da natureza. É importante que tenha o vazio, ter o foco daquilo que está retratando, a essência daquela forma. E não vai corrigir, é uma pincelada precisa. Se não gostar, repete. É quase como uma dança. Se o movimento não for preciso, repete.

 

JC – Além do sumiê, você usa outras técnicas.

Hiratsuka – Uso várias. Grafite, aquarela, guache, às vezes, uso tinta acrílica. Eu misturo bastante, mas a história é que me diz.

 

JC – A opção de escrever para crianças veio desde o início?

Hiratsuka – O gosto pela literatura infanto-juvenil veio para poder ilustrar. Apesar de que livro ilustrado não é só para criança. Mas tenho este gosto de me comunicar com as crianças. Tive uma infância muito feliz, com muitas brincadeiras, e é uma coisa que me agrada manter. Sempre tem uma criança dentro da gente. Acho importante para quem escreve para criança não infantilizar. Se você conseguir encantar a criança que está no adulto, aquele livro está legal. Pode ser simples, mas não infantilizado.

 

JC – E no caso das ilustrações, o que vale mais é técnica ou inspiração?

Hiratsuka – Sem uma técnica é também impossível se expressar. A inspiração está muita ligada à observação. Se você não tem um olhar apurado, não consegue perceber que aquela composição não está forte, não está comunicando bem ou que a ideia está fraca. 

 

JC – Você busca suas histórias no seu furusato. Este termo tão poético, explique o que significa.

Hiratsuka – Quem falava de furusato eram os imigrantes japoneses. Furu vem de olhar para trás. Hoje, eu olho para trás e vejo meu quintal. Então, este é o furusato, aquele lugar que parece que lhe acalenta. Eu só fui entender depois o motivo pelo qual meus avós e os amigos deles se juntavam e ficavam falando da terra natal. Porque eu também sai do Interior e fui para São Paulo. 

 

JC – Você é uma autora premiada. Qual a relevância deste reconhecimento?

Hiratsuka – É bacana, mas acho que quem vai escrever ou atua na área de artes não pode pautar seu trabalho pelo prêmio. No prêmio entram várias circunstâncias. Se muda o júri, o prêmio pode mudar. Tem que ficar feliz quando ganha, mas não ficar triste quando não ganha. É uma consequência apenas. Mesmo a publicação é uma consequência. 

 

JC – E o contato com jovens leitores, é importante em que sentido?

Hiratsuka – É quando dá para perceber a parte que mais tocou, é um retorno. E as crianças são muito receptivas, carinhosas. É muito gostoso o encontro com o leitor. E eu tinha vontade de voltar a Bauru e fiquei vem feliz com o convite.