09 de julho de 2026
Bairros

População pede mais eficiência na coleta

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

A Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) passou a operar a coleta seletiva em maio de 2013 e, desde então, segundo informações da autarquia, ajustes necessários vêm sendo feitos para melhorar a qualidade do serviço. Em matéria publicada recentemente, o JC apontou que falta material reciclável para o trabalho nas três cooperativas instaladas no município. Realidade que tem fonte em fatores que vão desde a falta de conscientização da população na hora de separar o lixo, até a má qualidade do serviço público. 

 

Éder Azevedo

 Três caminhões operam pela coleta seletiva, recolhendo os lixos, no período da manhã, dois à tarde e um à noite. 

 

“Eu, por exemplo, desisti de colocar as embalagens na calçada de casa porque o dia e horário da coleta mudam muito e não somos avisados. Cansei de ligar perguntando sobre as mudanças de horário. O lixo fica dias exposto, os catadores selecionam o que querem e espalham o restante, e aí vem a chuva, que espalha ainda mais. Como eu tenho consciência ambiental, não deixo de separar o lixo, lavar os recipientes e encaminhar à reciclagem. Minha solução? Levar tudo até um dos ecopontos. Muitos ainda não se deram conta da importância da reciclagem, mas a coleta irregular e a ausência dela em algumas localidades é a principal causa do pouco material enviado às cooperativas atualmente”, avalia a psicóloga  Maria Edith Arantes, moradora da rua Oliciar de Oliveira Guimarães, no Jardim Aeroporto.  

 

Assim como Maria Edith, boa parte da população se mostra descontente e até perdida com o serviço de coleta realizado na cidade. Em resposta às cartas enviadas para a coluna Tribuna do Leitor, a Emdurb ressaltou que ações estão sendo colocadas em prática para melhorar o trabalho. Como exemplos, citou o fomento ao desenvolvimento de novas cooperativas, apoio às já existentes, reestruturação dos setores de coleta, adequações na estrutura existente para receber esse novo serviço, além da divulgação da coleta, visando o aumento da participação por parte da população. 

 

Hoje, três caminhões operam pela coleta seletiva no período da manhã, dois à tarde e um à noite. Ainda segundo a Emdurb, 80% da cidade é coberta pelo serviço e estudos estão sendo feitos para aumentar esse percentual, de acordo com a capacidade de coleta e separação por parte dos moradores.

 

O JC nos Bairros percorreu os “quatro cantos” da cidade para mostrar como está o hábito da população e o que as pessoas pensam a respeito da coleta seletiva. 

 

‘É preciso fazer algo de bom; deixar alguma coisa para os netos da gente’

 

O mecânico José Dário Corrêa confessa que o hábito de separar as embalagens recicláveis do lixo é recente. Há cerca de três anos, ele e a esposa tomaram gosto pela prática socioambiental e ele aponta que, inclusive, se preocupam com o consumo consciente de energia e água.

 

“Começamos a olhar mais para o meio ambiente para fazer algo de bom, deixar alguma coisa para os netos da gente”, relata. 

 

“Seu” Dário vive na rua Carlos Galliters, no Parque São Geraldo.              

 

E por lá, segundo ele, a coleta seletiva não falha. “O caminhão passa toda segunda-feira, pela manhã. Colocamos os recicláveis na calçada e outros vizinhos fazem o mesmo. A maior parte do que é separado é composto por embalagens plásticas, papelão, vidro... Em casa, nada disso é considerado lixo mais”. 

 

‘Separo o lixo há mais de 20 anos e faço até sabão com o óleo usado’

 

Desperdício é uma palavra cujo significado não entra na casa de Iracema Sanches Ramos, dona de casa e moradora da Alameda Três Lagoas, na Vila Dutra. Até o óleo de cozinha usado ela recicla. “Eu junto e faço sabão. E um bom sabão, viu!”, orgulha-se. 

 

O material reciclável é separado por “dona” Iracema e armazenado em um saco. Caixas de leite, latas de molho de tomate, garrafas de água mineral... Tudo é lavado e, depois, doado para um catador do bairro que realiza a coleta há anos. “Eu não jogo nada. Na lata de lixo, somente as folhas das árvores”. 

 

Com quem Iracema aprendeu a manusear corretamente o lixo que produz? A resposta está na ponta da língua: “Sempre fiz isso, mesmo antes do pessoal começar a falar em reciclagem. Faço há mais de 20 anos.

 

Eu tinha um restaurante no Centro da cidade e já agia dessa forma, porque não gosto de ver o lixo cheio, precisamos aproveitar tudo o que for possível. Agora, quanto ao caminhão de coleta seletiva, não sei se passa por aqui. Nunca recebi orientações sobre isso. Faço tudo por minha própria iniciativa”, afirma. 

É preciso orientar mais o cidadão e haver constância na coleta’

Na opinião da dentista Marta Gisele Silveira, moradora da rua Felício Soubihe, Jardim Planalto, o serviço de coleta seletiva tem se tornado mais efetivo a cada dia, porém, ainda falta constância nos dias e horários que o caminhão passa em muitas regiões da cidade. Ela também acredita que, para melhorar, educação ambiental e a conscientização da população são fundamentais. 

 

“Hoje podemos confiar na coleta, ao menos na rua onde eu moro ela tem passado sempre no mesmo dia: às terças, pela manhã. Mas é claro que muitas arestas precisam ser aparadas: é necessário aumentar a educação ambiental para conscientizar os moradores sobre a importância de separar as embalagens recicláveis do lixo molhado, além de mostrar constância na recolha”.

 

É comum encontrar embalagens espalhadas por calçadas e ruas. Esse é outro ponto apontado por Marta. Ela ressalta que já chegou a parar de separar o lixo. Isso porque as embalagens ficavam na calçada à espera da coleta, que não passava. “Com isso, catadores pegavam uma coisa ou outra e espalhavam o resto. A chuva vinha e deixava a calçada e a rua ainda mais sujas. Mas isso vem mudando. Dá para sentir que estão querendo melhorar esse serviço”, analisa.    

 

‘Nunca vi um caminhão da coleta seletiva por aqui’

 

Desapontada, a vigilante Micheli de Oliveira diz nunca ter visto um caminhão da coleta seletiva passar na rua onde vive, a Antônio Alcazar, no Núcleo Residencial Beija-Flor. “Sei que a prefeitura passa recolhendo o material reciclável, isso porque eu vejo nos jornais e TV, mas por aqui...”

 

Embora não tenha esse tipo de coleta em casa, ou ao menos não tenha recebido orientação sobre tal serviço, Micheli diz que faz a sua parte separando as embalagens e colocando-as na calçada para os coletores do bairro.

 

“Muita gente vive do dinheiro gerado pela venda dessas embalagens. Por isso não acho certo misturar com o lixo molhado. Eu separo, mas acredito que deveria haver mais divulgação sobre os dias da coleta seletiva, assim como acontece com a coleta tradicional. Esse é um serviço importante, significa renda para muitas famílias. E poderia render mais se fosse mais organizado pelo poder público”, opina.