08 de julho de 2026
Geral

A cidade medida pelo conceito do peso

Nelson Gonçalves
| Tempo de leitura: 11 min

A obesidade sempre foi tema de governo comprometido com seus representados. O que começa a despertar entre uma corrente de urbanistas é a utilização do ‘indicador de obesidade’ como ferramenta para “medir” o panorama de equipamentos e ações em cultura, lazer, saúde, alimentação escolar, meio ambiente e desenvolvimento urbano.  

 

A abrangência da proposta não é o de realizar o posicionamento de qualidade de vida da população de um determinado município a partir da simplista coleta de dados que combinem peso e altura por diferentes faixas etárias. O conceito difundido entre urbanistas é o de que o homem do novo século não terá outra saída contra o esgotamento do modelo de capital e consumo e adensamento urbano a não pela subversão de alguns paradigmas de desenvolvimento adotados nas últimas décadas: como crescimento de uma comunidade a partir de dados como expansão imobiliária, indicadores sócio-econômicos e nível de renda, entre outros.

 

O ‘indicador de obesidade’, como ferramenta de gestão, significaria mudar a ordem do jogo. Ao invés do carro, o homem... ao invés do consumo a racionalização, ao invés do adensamento a otimização e, o mais importante, o coletivo – sempre – como matriz, prioridade absoluta em detrimento ao individual. 

 

Mas há outras vertentes desse conceito espalhadas pelo mundo. Em Freiburg, Alemanha, por exemplo, a população está sendo estimulada a consumir menor energia elétrica do sistema de geração público. A substituição gradual de qualquer matriz energética, por lá, deve dar lugar a um dispositivo simples, prático, que permite recarregar baterias de tablets, IPods e telefones celulares a partir de uma placa portátil solar. Foi desenvolvido um pequeno equipamento armazenador que dá eficiência a essa economia. 

 

Na terra das potências mundiais do setor automobilístico como Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz, o governo adotou meta de fabricação obrigatória de 1 milhão de carros elétricos em um determinado tempo, contra os 100 mil atuais que andariam nas ruas para percursos mais curtos. 

 

E o argumento não é somente o de tornar o transporte menos poluente (emitindo menor carga de CO2 na atmosfera à medida do aumento da frota de elétricos sobre quatro rodas). Associado a essas ideias, em cidades europeias que adotam o conceito, o carro foi abolido em algumas áreas centrais de grande fluxo. O cidadão é convidado a se locomover motorizado até determinado ponto e, lá, deve deixar seu possante para realizar o restante do percurso a pé ou de bicicleta. 

 

Já pensou o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) decretar o fechamento integral da avenida Rodrigues Alves em determinados horários para carros de passeio? No decreto estaria mais ou menos assim: “Das X horas às Y horas, é proibido circular carros de passeio na avenida Rodrigues Alves das quadras 02 a 12. Nos dois sentidos estão liberadas faixas exclusivas para ônibus coletivos”.        

 

O fato é que, surreal aqui, o indicador alimenta outras ações urbanísticas espalhadas pelo mundo. A questão central não é meramente, nem de forma isolada, tratar o conceito de qualidade de vida nas cidades através de ações que estimulem as pessoas a deixar o sedentarismo. 

 

É muito além disso. A ação de governo tem de ser integrada e vista sob mais de um eixo. Associada a políticas públicas interssetoriais de estímulo de práticas esportivas e educação alimentar, mas já a partir do ciclo básico nas escolas, as prefeituras também vinculam seus planos de ação a áreas como urbanismo e lazer.

 

Ou seja, os governos que adotaram o indicador de obesidade olham e acompanham no tempo o gráfico do peso em função da altura para decidir desde o planejamento ou reforma para parques, ou sistema viário, até a realização de calendário de atividades culturais ao conceito. Muitas das ações de gestão estão ligadas a promover a adesão de uma verdadeira legião de cidadãos que antes não tinha nem o hábito simples de atentar para a relação peso e altura com regularidade.

 

Oklahoma

 

Em Bauru, o vereador Fernando Mantovani (PSDB) é entusiasta da ideia. Ele conta que viu a “febre do indicador de obesidade” a partir da cidade de Oklahoma.  “É um olhar novo para a obesidade como índice de medir a cultura, lazer, saúde e desenvolvimento e ocupação urbana, longe do conceito anterior de apenas verificar quantos estão acima do peso para qualificar ações da área de saúde”, cita. “Criaram as cidades para os carros e as edificações e não para as pessoas? Isso precisa mudar. Bauru e todas as cidades brasileiras estão nessa onda”, questiona.

 

Ações multiurbanas e campanha direcionada

 

Mick Cornett percebeu, entretanto, que não bastava dificultar a vida dos carros e dos conglomerados horizontais de edificação em Oklahoma. Ele viu que planejar e redimensionar parques, áreas de caminhada, ciclovias e ciclofaixas e programas permanentes de atividade física feitas pelo poder público, por si, não resolveriam o problema.

 

Então o prefeito de Oklahoma montou uma ação de comunicação e marketing e foi para a TV com propaganda chamando o cidadão de sua cidade a ajudar na derrubada da posição no ranking dos obesos. “Esta cidade está de dieta”, lançou Cornett em uma das frases de efeito.

 

No primeiro desafio, o chamado foi para a população, de 450 mil habitantes, passar por medição de peso e altura e, a partir daí e por um período determinado começar a reagir. “Vamos perder 1 milhão de quilos em X semanas!”. O desafio de marketing e comunicação, associado a um programa do governo de incentivo a visitas a parques, participação em caminhadas e sessões de atividade física ao ar livre, programas com conteúdos sobre reeducação alimentar, etc. gerou adesão. 

 

“O movimento foi elaborado e isso foi disseminado nas ruas, com participação do comércio, entidades, escolas, igrejas, indústrias, todos. Oklahoma despencou no ranking de obesos em 4 anos. E em uma de suas recentes palestras o prefeito Mick fala que o projeto continuou, mostrando para a população o movimento inverso de migração de jovens em busca de qualidade de vida e para morar na cidade que se preocupa com as pessoas e não com os motores e o cimento”, diz Fernando. 

 

Ele questiona: “Qual nosso programa preventivo para obesidade em Bauru? Quantos obesos temos e por que eles estão nesta situação? Quais indicadores de diabete, pressão alta, sedentarismo?”.  

 

A dimensão humana no mundo urbano

 

As cidades deveriam, sempre, ser espaços para as pessoas se encontrarem para trocar ideias, comprar e vender ou relaxar e se divertir. Daí o conceito de que o “domínio público de uma cidade” passa pela apropriação de projetos de ruas, praças e parques que privilegiem o encontro entre as pessoas e não, como na concepção de ocupação do solo das últimas décadas, um processo de isolamento que privilegie automóveis e edifícios.

 

Para Jan Ghel, as cidades compactas, que acomodam espaços onde o próprio roteiro dos “caminhos” “força” ou acentua o encontro entre cidadãos, são a única forma de estabelecer correlação entre vida humana e sustentabilidade de ocupação. No livro, Ghel diz que a dimensão humana tem sido esquecida nesse processo, sucumbindo às forças de mercado e a tendências arquitetônicas que privilegiam as paredes ao invés do indivíduo. 

 

O pedestrianismo tem sido abolido como conceito de locomoção, o que, em escala, gera efeito negativo para outros problemas, como a ausência de conexão entre espaço, pontos de encontro e de conhecimento entre pessoas e opções culturais e sociais. O local de encontro sucumbiu a pistas para automóvel e, dos lados, prédios e prédios.

Não por acaso, o urbanista questiona o conceito míope de que desenvolvimento urbano seja alastrar áreas impermeáveis e construir mais e mais relações de tijolos entre os habitantes. Em 1961, a jornalista americana Jane Jacobs já preconizava o esgarçamento dessa realidade de ocupação no livro “Morte e Vida das Grandes Cidades”. 

 

Jan Ghel fala das mudanças que promoveram o retorno do encontro entre pessoas em Copenhague (Dinamarca), ou medidas pontuais, que foram implantadas em Nova Iorque em 2007, como o alargamento das calçadas da Broadway e a criação de uma nova ciclovia.  

 

Em Bauru, quando técnicos da Emdurb apresentaram mudanças na av. Rodrigues Alves para ampliar área de calçada e restringir o uso da via para automóveis, frases carregadas de crítica vieram com facilidade, sem que, ao menos, alguém tivesse sentado para discutir o conceito da proposta.

 

Um lugar para privilegiar pessoas

 

As cidades deveriam ser locais apropriados para as pessoas se encontrarem para conversar, interagir... relaxar, viver. E para tanto, praças, ruas e equipamentos públicos deveriam catalisar o relacionamento humano. Com este conceito, aqui sintetizado, o urbanista Jan Ghel se contrapõe com a maior parte dos projetos de intervenção urbana em andamento por vários cantos do mundo.

 

Priscila Medeiros

Como prática de atividade física, os equipamentos das Academias ao Ar Livre não geram resultados; mas espaço cria ‘embrião’ do encontro combinado com vontade de vida saudável

 

No livro “Cidades para pessoas”, traduzido em versão para o português, Ghel desafia gestores públicos a repensar vícios como a instalação de equipamentos de grande porte ou direcionar investimentos para grandes viadutos ou avenidas. Ele provoca que, na contramão dessa lógica, o urbanismo deveria, com alternativas simples (mais radicais em alguns casos) privilegiar caminhos, campos, lagos e praças onde as pessoas pudessem se encontrar. 

 

E algumas das mudanças discutidas no livro ‘chocam’ para os padrões do pensamento do modelo atual. No exemplo mais radical, “para nós”, o urbanista defende dificultar, ao máximo, a vida urbana para o automóvel e, claro, na outra ponta, facilitar o ir, vir, sentar e conversar para as pessoas. A ideia é coibir a passividade da locomoção dentro de um carro para estimular as pessoas a se mexerem com as pernas, a pé ou de bicicleta, não importa.

 

O ambientalista e jovem prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) gosta da visão de Jan Ghel, embora se confesse preso assumido à lógica inversa em nossa fração do latifúndio urbano adensado. “Vivemos em uma geração viciada pelo automóvel, onde a lógica é ter estacionamentos, avenidas, lombadas e asfalto. É tudo pelo automóvel. O conceito do Jan Ghel é em outra direção, uma visão de urbanismo que fala em proibir o carro de circular em vários pontos pelas cidades. É uma visão radical, mas alicerçada no conceito de que a pessoa deve ser forçada a sair de sua casa para conviver com o próximo”, aborda.

 

Lógica urbana

 

Mas o conceito não funciona isoladamente. Confrontar a lógica do automóvel exige outras ações pelo poder público. “As medidas para dificultar a vida do automóvel vêm acompanhadas de ações que estimulem as pessoas a se reunir em praças e demais equipamentos públicos. A aplicação envolve medidas de engenharia de trânsito, com dificultadores para o uso do automóvel e, em conjunto, ações que garantam atividades para shows, leitura, encontros, passeios, caminhadas”, completa o prefeito. 

 

A lógica de “Cidades para pessoas” privilegia a apropriação do espaço público pela comunidade. “Em Bauru 33 mil pessoas apresentam algum índice de hipertensão com registro na rede pública. É 10% da população que precisa participar de atividades físicas e de reeducação de hábitos, assim como o envelhecimento da população deve direcionar, no tempo, ações para a terceiridade. Ao instalar as Academias ao Ar Livre nós geramos um fluxo de participação comunitária e de mudança de postura do cidadão, antes sedentário, que se adequa a este conceito”, opina.

 

O prefeito considera que, apesar de distantes da lógica, mesmo culturalmente, as próximas gerações vão discutir a cidade para o ser e não o ter. “Este é o paradigma central para o planejamento estratégico das cidades desde já, ainda que isso venha a acontecer vagarosamente até como mudança cultural”, cita. 

 

Na visão “futurista” de Rodrigo, haverá uma geração de prefeitos, mesmo no Brasil, que será pressionada a fechar uma avenida inteira para o povo percorre-la de bicicleta à lógica atual, onde a cobrança é para instalar mais vias rápidas para os carros escaparem dos congestionamentos.

 

Em algumas cidades da Europa, áreas inteiras que dispõem de estrutura para comércio e serviços estão tendo suas vias, antes destinadas aos carros, direcionadas para as pessoas. Neste conceito, a idolatrada planta de ocupação em formato de avião de Brasília (DF) seria exemplo de estudo lá fora de como afastar as pessoas, segregá-las em seu próprio mundo. Em seus estudos, por sinal, Jan Ghel aponta Brasília (DF) como exemplo mundial de crítica ao conceito de cidade, no sentido de facilitação para a celebração da vida em suas mais variadas formas em detrimento ao isolamento.     

 

Índice de felicidade

 

Agregada à discussão urbana de privilegiar espaços que valorizem o encontro entre as pessoas, ao invés do isolamento em carros e condomínios, corre paralelo entre estudiosos sobre a vida do homem em sociedade o chamado Índice de Felicidade Humana (IFH). 

 

Para contrapor, em certo grau, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), por exemplo, adotado no Brasil, a ideia do IFH é ir além da tabulação e estudo de dados sócioeconômicos, de alfabetização, longevidade ou riqueza. O caminho seria de aferir se as pessoas estão felizes em suas cidades e o que, neste âmbito de relações comunitárias, mudaria a situação atual. Mas os questionários iriam muito além de cobrar necessidades como asfalto e saneamento.