10 de julho de 2026
Cultura

Entrevista da semana: Rogério Lourenço (Tutti)

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

Ele nasceu em Bauru e ganhou o mundo com a música. O pianista erudito Rogério Lourenço dos Santos, o Tutti, começou a tocar e a estudar música aos 11 anos de idade e, aos 35 anos, já está concluindo o seu pós-doutorado e é aclamado pelo mundo. No seu currículo estão títulos das principais escolas internacionais, como a Escola Nacional de Artes, em Cuba; Conservatório Tchaikovsky, na Rússia; New England Conservatory  e Universidade de Dakota do Norte, nos Estados Unidos. 

 

Na entrevista de hoje, ele conta porquê considera a música a sua missão: “Sou um apaixonado pelo que faço. Estudo mais de oito horas por dia por prazer e para sempre poder oferecer ao público o melhor de mim.  Eu acredito que a música tem poder transformador. Se todos tivessem o mínimo de experiência com a música, o mundo mudaria muito. E eu vou entendendo a minha responsabilidade nesse contexto”. 

E por que o nome “Tutti”? Confira esta e outras histórias do entrevistado de hoje, a seguir. 

 

Divulgação

Bauruense Tutti começou a tocar e estudar música aos 11 anos de idade. Aos 35 anos, está concluindo seu pós-doutorado e é aclamado em concertos pelo mundo

 

Jornal da Cidade - Quando você descobriu o talento para a música?

Rogério Lourenço dos Santos (Tutti) - Eu comecei a tocar quando tinha uns 11 anos de idade. Mas antes disso, aos 4 ou 5 anos, eu pedi um “casaco de rabinho” para a minha mãe. Ela nem sabia o que era isso. Ninguém da minha família era músico. Provavelmente eu tenha visto tal roupa pela primeira vez em um episódio do desenho Tom e Jerry, onde o Tom é pianista (risos). E eu só consegui o meu casaco com rabinho depois de estudar muito (risos), com mais de 20 anos.

 

JC - Como teve início a sua profissionalização musical? 

Tutti - Eu fiz faculdade de música em Bauru, na Universidade Sagrado Coração (USC). Estudei em Cuba por um ano, na Escola Nacional de Artes, em Havana, quando ganhei uma bolsa de estudos depois de ter participado de um concurso. Depois eu fiz um curso na Rússia, no Conservatório Tchaikovsky, e fui bolsista New England Conservatory, em Boston, nos Estados Unidos. Esta é uma das mais famosas escolas do mundo.  

 

JC - Você tem trabalhos gravados, certo?

Tutti - Tenho. Tenho um DVD que eu gravei em 2007, logo que cheguei dos Estados Unidos. Neste momento, estou preparando uma série de gravações de um compositor brasileiro chamado Guerra-Peixe, que é um projeto do meu pós-doutorado e envolve a gravação da obra para piano deste compositor. Este ano comemoramos o centenário do nascimento do Guerra-Peixe. 

 

JC - Você leciona música?

Tutti - Eu gosto muito do estudo, tanto do piano quanto da pesquisa acadêmica. Gosto de me aprofundar nas coisas. Dou aulas há muito tempo, desde os 16 ou 17 anos. Mesmo quando fui bolsista nas universidades, fazendo mestrado, doutorado... eu dava aulas. Atualmente sou professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal. Hoje estou afastado por causa do pós-doutorado. Se você me perguntar onde eu moro, vou dizer que vivo boa parte dos meus dias em aeroportos e navios (risos). Mas hoje estou em São Paulo. 

 

JC - Você vê o cenário da música clássica como fonte de inspiração para as novas gerações de músicos?

Tutti - Eu acho que esse mercado tem crescido muito. Há 10 ou 15 anos havia poucas orquestras no Brasil. Hoje, praticamente todas as capitais ou mesmo as cidades têm uma orquestra ou um núcleo de música. Temos muitos incentivos fiscais, editais... Vejo oportunidades na nossa cultura.

 

JC - Como é tocar em cruzeiros?

Tutti - Os cruzeiros surgiram mais recentemente. Uma agência de Nova Iorque cuida da minha carreira em navios da Royal Caribbean, por exemplo. Faço um show chamado “O mundo do piano”. A apresentação é mais diversificada do que as feitas em casas de concertos, mas é um show que mostra as facetas do piano. Já me apresentei em muitos países: Brasil, Argentina, Uruguai, muitos países do Caribe, além de boa parte da Europa: Espanha, Portugal, Itália, Grécia... 

 

JC - Quais são as suas fontes de inspiração? 

Tutti - O brasileiro Villa-Lobos é uma delas, mas também sou muito fã de Beethoven, Chopin e Liszt.  

 

JC - Considera a música uma missão?

Tutti - Considero como minha missão de vida levar a música para todas as pessoas. Sou um apaixonado pelo que faço. Estudo mais de oito horas por dia por prazer e para sempre poder oferecer ao público o melhor de mim. Tenho orgulho de ser brasileiro e procuro sempre tocar uma peça nacional em todos os concertos pelo mundo. Sou muito grato à vida pela coragem e força para seguir o que eu sempre senti em relação à música e por ter superado os desafios. Eu acredito que a música tem poder transformador. Se todos tivessem o mínimo de experiência com ela, o mundo mudaria muito. E eu vou entendendo a minha responsabilidade nesse contexto. 

 

JC - Qual é a sua atual relação com Bauru? 

Tutti - Minha família ainda vive na cidade: meus pais, um irmão, tios, primos... Sempre que posso estou em Bauru.  

 

JC - Você  adota Tutti como nome artístico. De onde vem?

Tutti - Na verdade é um apelido de infância. Eu me identifiquei muito com esse nome, mas só depois de adulto tomei consciência de que Tutti significa “todos” em italiano, e eu acho que isso casa muito bem com o que eu acredito, com a minha missão de levar a música para todas as pessoas. Por isso este é o meu nome artístico e ideal. 

 

JC - Onde você conheceu a sua esposa? 

Tutti - Em um concerto meu aqui, no Brasil. Amigos em comum nos apresentaram. Eu ainda estava vivendo em Boston e a gente se falava diariamente por telefone. Ela é brasileira, uma excelente advogada e, hoje, trabalha comigo. Ela cuida da minha carreira. Cuida de tudo. É por causa do suporte dela que eu fico livre para cuidar da música. E ela faz isso com genialidade. Sou muito grato.    

 

JC - O que já aconteceu de mais inusitado em outro país?

Tutti - Acho que um caso interessante ocorreu quando eu fazia mestrado em Dakota do Norte, nos Estados Unidos. A orquestra local havia contratado um pianista japonês para um  concerto, o Concerto de Tchaikovsky. Porém, ele machucou as mãos e cancelou a sua apresentação. A diretora da orquestra me convidou para substitui-lo. Eu tive de aprender o concerto em 15 dias e solar com a orquestra Grearter Grand Forks Symphony Orchestra. O público aplaudiu de pé e até hoje quando toco tal peça me lembro da emoção daquele concerto. Foi uma experiência única. Um grande desafio e uma grande satisfação por ter conseguido. Anos depois, quando toquei novamente em Grand Forks, fui condecorado com o título de cidadão honorário da cidade e ganhei a chave de ouro do prefeito. Vou tocar este mesmo concerto agora, em junho, na Sala São Paulo com o maestro Isaac Karabichevisk, um dos maiores regentes do mundo.