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Aceituno Jr. |
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Moradora da área central há mais de 40 anos relata que não abre a janela da frente da casa há cerca de 15 anos por medo de assaltantes e de usuários de droga |
A calçada suja e o portão trancado com grades dos mais diversos tamanhos não são sem motivo. Zuleide – nome fictício – tem 85 anos e um trauma que a acompanha desde o final do ano passado. Enquanto varria a calçada da casa, onde mora com a irmã de 84 anos, na rua Ezequiel Ramos, ela foi atacada por um homem que invadiu o interior do imóvel, agrediu as idosas e fugiu levando cartões bancários.
A situação denota um caso isolado, porém, ilustra uma realidade e uma sensação de insegurança que toma parte da população que ainda vive em residências no Centro antigo de Bauru.
Com o cair da noite e o fim do expediente comercial, surge uma legião de residências “ilhadas”, ou seja, sem vizinhos, em meio ao vazio que toma parte da área central. No mesmo momento, surge o medo dos ladrões e dos usuários de drogas que ali rondam,
Entre elas, está a residência das idosas e de aproximadamente mais 7 mil pessoas, que residem no quadrilátero formado entre as ruas Marcondes Salgado e Quinze de Novembro e avenidas Nações Unidas e Pedro de Toledo.
Como, a cada ano, o número de imóveis que viram pontos comerciais nessa região só aumenta, a Polícia Militar (PM) já pensa em estratégias voltadas especificamente a essa população, pregando maior aproximação desses moradores, que se tornam uma espécie de vigilantes, com o comando policial da área (leia mais abaixo).
Isoladas
Em quatro décadas, a casa de Zuleide é uma das únicas que ainda sobrevivem em toda a rua Ezequiel Ramos. “Quando chega a noite, o pessoal passa gritando e fica usando drogas aí na frente. Antigamente, só fechávamos o portão a noite, agora, vive trancado e nem vamos mais para fora”, conta Zuleide. “O problema de não ter vizinhos é que, se acontece alguma coisa a noite e estivermos sozinhas, nem adiantará gritar”, completa.
A mesma realidade é dividida pela família de uma senhora de 71 anos, que, desses, mora há mais de 40 na rua Virgílio Malta com o marido de 73 anos e a filha de 44 anos.
“Há 15 anos, eu não deixo mais as janelas da frente de casa abertas por medo”, comenta a moradora, que também não terá o nome divulgado por segurança. “Há alguns anos, eu tinha meu pai, que morava aqui do lado, mas, agora, não temos mais vizinhos quase. Dá uma insegurança”, reforça.
A única vizinha da residência na Virgílio Malta é uma igreja. No entanto, o local funciona até as 22h.
A algumas quadras dali, ainda na Ezequiel Ramos, um comerciante de 55 anos, que reside no Bela Vista, mas dorme, ao menos três vezes durante a semana, em uma casa aos fundos de um bar, conta que já teve vários problemas com a criminalidade.
“Tive que colocar alarmes, grades, serpentina e reforço de ferro nas portas. Agora, fico aberto só em horário comercial. Depois das 23h, começam a chegar os marginais. Aí, é só rezar para que nada aconteça”, afirma. “A sorte é que a PM tem passado com frequência aqui e espantado eles”, complementa.
Abandono
Já na rua Quinze de Novembro, uma arte educadora, de 58 anos, conta o dilema que tem vivido após 2010, quando seus vizinhos se mudaram do local.
“Era uma paz. Agora, a rua ficou com dois imóveis abandonados. E um deles já está sendo frequentado por moradores de rua. Já até acionei a polícia, mas não adiantou. Como moro sozinha com meu filho e ficamos quase o dia todo fora, estou com medo de que invadam minha casa”, conta a mulher, que reside no local há sete anos.
O problema, segundo ela, parece maior aos finais de semana e em feriados. “No domingo, a sensação é de total abandono. A rua vira terra de ninguém e os ‘noias’ ficam à vontade”, critica.
Além do Centro
Conhecido como o maior núcleo habitacional da América Latina, o Mary Dota, não divide a mesma realidade que o Centro apesar de também ter sua própria área de comércio. “Além do Centro, nenhuma outra região na zona urbana tem essa característica de possuir um grupo de pessoas que morem isoladas. O Mary Dota, por exemplo, ainda é bem residencial”, enfatiza o coordenador operacional do 4º BPM-I, major Alan Terra.
PM quer aproximação com moradores
Sobre a sensação de insegurança dos moradores, a Polícia Militar admite que o Centro virou palco de ações criminosas nos últimos anos, principalmente de furtos a pedestres, mas sem o uso de arma de fogo.
“A falta de estrutura acrescida pela quantidade de imóveis abandonados beneficiam a criminalidade no Centro. A presença de ‘drogaditos’ perambulando naquela região é realidade. Por isso mesmo, essa área tem sido foco de operações constantes da PM. Diariamente, dezenas de policiais são deslocados para lá”, comenta o coordenador operacional do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), major Alan Terra.
Aliada à violência, a falta da vizinhança se apresenta como um ponto ainda mais preocupante, também apara a PM. “A interação com o vizinho muitas vezes previne crimes. Isolado, esse morador acaba se tornando uma espécie de vigilante. E precisa ter o dobro de atenção em atividades simples, como, por exemplo, sair de casa. Por isso, é preciso apostar nessa aproximação com a PM. É importante que essas pessoas que ainda residem ali conheçam a polícia e participem de encontros como o do Conseg Centro/Sul (Conselho Comunitário de Segurança Pública da área Centro e Sul)”, reforça Terra.
Nesse sentido, o batalhão, por meio do major, convida os moradores do Centro a conhecerem a base da Polícia Militar da área, localizada na praça Machado de Mello, e seu comandante, o tenente Michel Collis Prieto.
Serviço
O contato com a base Centro da Polícia Militar pode ser feito 24 horas por meio do telefone (14) 3232-1516.