08 de julho de 2026
Regional

Setor do etanol pede socorro

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

Éder Azevedo

Manifestação no palanque contou com presença de deputados e produtores de cana-de-açúcar

Cerca de duas mil pessoas envolvidas com a produção de cana-de-açúcar de 10 municípios da região de Bauru participaram ontem pela manhã de uma manifestação no km 303 da rodovia Leônidas Pacheco Ferreira (Jaú-Bariri) nas proximidades do trevo que cruza a Comandante João Ribeiro de Barros (Jaú-Brotas). O evento, denominado Dia da Competividade do Etanol, foi promovido pela Associação dos Plantadores de Cana da Região de Jaú (Associcana) e apoio de mais três associações.

“Estamos protestando contra a crise no setor e em defesa da competividade do etanol. O setor não pode continuar vivendo com o fechamento de tantas usinas e tanto desemprego”, disse o presidente da Associcana, Eduardo Vasconcelos Romão.

Pelo menos quatro usinas paralisaram as atividades para engrossar a manifestação.  A última safra em todo o País contou com a moagem de 596,94 milhões de toneladas do produto, mas a previsão para este ano é de que esse número caia para 580 milhões segundo dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica).

Diante desta perspectiva, representantes de associações de fornecedores de cana-de-açúcar de todo o País resolveram protestar com uma série de reivindicações. Entre as exigências, está o retorno da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), que incidia sobre a gasolina até 2012, favorecendo o preço do etanol nas bombas dos postos de combustíveis. Eles também pedem a compra de energia produzida pelo bagaço do produto por parte do governo federal, além do aumento da mistura do etanol na gasolina de 25% para 27,5% e a desoneração de PIS/Cofins aos produtores do setor.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que no momento o governo não cogita elevar a mistura do etanol na gasolina, atualmente em 25%. (leia texto abaixo).

FECHAMENTO DE USINAS

De acordo com o deputado federal e presidente da Frente do Etanol, Arnaldo Jardim (PPS), 44 usinas brasileiras fecharam as portas desde 2008, fato que gerou desemprego e afetou a saúde financeira dos municípios em que elas estavam instaladas. Embora o cenário da região esteja estável, os produtores resolveram aderir às reivindicações do restante do País. “Nós queremos políticas estáveis que levem à recuperação da competitividade do etanol”, explica.

O deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) afirma que sempre apoiou o trabalho dos produtores do setor. “Eu acho que o País está cometendo suicídio. O correto seria que o governo estabelecesse uma política definitiva para regulamentar a situação do setor sucroalcooleiro, o que só será feito por meio da pressão dos manifestantes. Por isso eu apoio a movimentação de hoje (ontem)”, diz. Para o dia 13 de maio, está agendada uma marcha a Brasília, também em defesa do biocombustível.

Para o presidente da Associcana, Eduardo Romão, as reivindicações começaram no ano anterior, mas de maneira interna. Porém, as entidades chegaram à conclusão de que as dificuldades enfrentadas por produtores do setor deveriam ser amplamente divulgadas, contando com o apoio de prefeitos e vereadores. “É muito importante que as autoridades locais tomem conhecimento da situação, porque algumas usinas estão sediadas nos municípios sob administração deles e, se quebrarem, isso pode causar prejuízos municipais também”, esclarece. A Associcana organizou o evento.


Justiça proíbe carreata

Representantes de associações de fornecedores de cana-de-açúcar da região promoveram logo pela manhã manifestações em seus respectivos municípios de origem, antes de irem até a rodovia Leônidas Pacheco Ferreira. O objetivo seria fazer uma carreata até o local, mas ela foi impedida por uma liminar expedida pela juíza da 1ª Vara Cível do Fórum de Jaú, Paula Maria Castro Ribeiro Bressan.

A Centrovias, concessionária responsável pela Bauru-Jaú-Itirapina (SP-225),  entrou com interdito proibitório, porque os veículos poderiam provocar congestionamento e risco de acidente. A empresa pretendia, inclusive, que o evento fosse cancelado, não apenas a carreata. A juíza, porém, entendeu que apenas a carreata deveria ser cancelada, sob pena de desobediência e multa de R$ 100 mil contra a Associcana.

De acordo com a assessoria de imprensa da concessionária, a intenção da empresa foi, unicamente, a de garantir a fluidez do tráfego e a segurança dos usuários da rodovia sob sua administração.

Por conta desta decisão, a carreata foi cancelada, mas a manifestação ocorreu às margens do trevo entre as duas rodovias, num terreno em frente da fabricante multinacional de máquinas agrícolas New Holland. Dezenas de caminhões, ônibus e tratores de usinas e fornecedores ficaram estacionados nas margens da rodovia.

Para Daniel Aparecido Demétrio, tenente da Polícia Militar Rodoviária, foi possível garantir a segurança e a fluidez do trânsito nas rodovias de acesso dos municípios envolvidos no protesto. Oito viaturas e 16 policiais estiveram no local.


Sem elevar a mistura

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse anteontem que, apesar de sempre ser “possível”, neste momento o governo não cogita elevar a mistura do etanol na gasolina, atualmente em 25%.

O ministro disse ainda que espera maior oferta de etanol nos próximos dois meses, o que seria uma contribuição para menores preços da gasolina na bomba.

“Estamos começando a safra do etanol. Entrar essa safra vai reduzir o preço do etanol e também dos combustíveis”, afirmou Mantega.

Mantega disse ainda que este momento de pressão na inflação é sazonal, “já previsto”, e que os indicadores serão menores em maio e junho. Em nota, a assessoria de imprensa da Secretaria de Energia do Estado de São Paulo informou que o governo acredita na capacidade energética dos biocombustíveis. Tanto que conseguiu a aprovação do Plano Paulista de Energia, prevendo o aumento da participação das energias renováveis dos atuais 55% para 69%.