08 de julho de 2026
Articulistas

Rir é o que nos basta

ZARCILLO BARBOSA
| Tempo de leitura: 4 min

A charge do nosso genial Fernando, de ontem, sintetiza a frustração de milhares de "caras pintadas" que saíram às ruas em guerra à corrupção e agora veem o verde amarelo das faces refletidas no espelho, transfiguradas no vermelho do nariz de palhaço. O ex-presidente Fernando Collor, depois de 20 anos, foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) dos crimes de peculato, corrupção e falsidade ideológica. Segundo a relatora, ministra Carmen Lúcia, a "ausência de provas de autoria e materialidade dos crimes" - seja lá o que isso queira dizer - levou ao arquivamento do processo. De qualquer forma, as duas últimas imputações já estavam prescritas por inércia da Justiça. Resta como consolo aos jovens secundaristas que foram às ruas (1991-92), o fato de terem assistido à queda do governo Collor. Mas ele continua por lá, como senador da República. Desta vez ainda sem conseguir um empreiteiro que pague a pensão da ex-mulher. Expulsos do Palácio do Planalto, ambos saíram de mãos dadas e nariz empinado. Aquela solidariedade acabou. Dona Rosana, hoje uma compenetrada irmã evangélica, cobra na Justiça R$ 20 mil por mês para compensar o contubérnio.

O próprio ex-presidente foi um grande humorista. Sim, existe o poder do mau humor. Quem viveu o período "Collor, o Breve", um dia acordou e descobriu que tinham lhe batido a carteira - levaram a poupança suada de milhões de viúvas e aposentados. No outro dia, e nos dias subsequentes, fomos contemplados com pacotes e calotes, planilhas e tablitas e um plano atrás do outro. Depois levaram o nosso Fundo de Garantia, corrigido a índices inferiores à da inflação. Fomos obrigados a esconder os trocados sob o colchão, o único lugar onde - teoricamente - eles estariam a salvo dos ladrões. Mas, se o ladrão usar colarinho branco, ele nos aliviará desse dinheiro antes que possamos pronunciar a palavra "impeachment". Como dizia o sábio e bem humorado Anísio Abrão David, banqueiro de jogo do bicho: "O que o Brasil precisa é de homens honestos".

Voltemos ao Fernando. Mas, não a "aquele". Ao nosso Fernando, colega aí de cima que nos brinda diariamente com sua inteligência e valoriza a página. Ele que nos dá a única arma que podemos ter contra esse poder cruel e corrupto: a mordacidade, aquilo que morde, corrói, fere. Esse poder não sossegará enquanto não nos tirar do sério. A imagem vale mais do que mil palavras, dizem os chineses. Mas o humor consegue ir além. Ao longo dos séculos nada foi mais corrosivo que o humor para lavar as mazelas da sociedade cheia de falhas morais, como contributo efetivo ao seu aperfeiçoamento. "Ridendo castigat mores" - a frase latina de origem desconhecida foi celebrizada pelo teatro de Molière, justamente por dedicar toda a sua obra a "castigar os costumes, rindo". Voltaire seguiu o mesmo caminho. Antes dele, Horácio (65 a.C) advertia os poderosos de plantão que do humor ninguém se defende: "Que é que poderia impedir aquele que ri de dizer a verdade?" (Sátiras). Na história do Brasil, os humoristas tiveram papel fundamental na queda da Monarquia, na libertação dos escravos, contra os ditadores e à restauração democrática mediante o exercício do voto livre, inclusive para as mulheres. Por enquanto, a única coisa que a piada não conseguiu acabar foi com a propina, fruto das relações obscuras entre órgãos de governo e empresas privadas.

O tema volta à baila em todas as campanhas eleitorais. Como questionou uma vez o ministro Dias Toffoli, do STF, que desde 2010 preside a comissão de juristas visando a reforma eleitoral: "Se empresa não vota, por que doa recursos para campanhas?" O ministro sabe a resposta à própria pergunta. Graças às conjuminações promíscuas com as empresas, Collor veio fazer campanha em Bauru de helicóptero; Maluf usou um trem exclusivo; outros chegam de jatinho e os mais modestos em ônibus azul. Virão outros. "Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lugar lhe vêm", dizem lá em Portugal. A maioria dos parlamentares, numa admissão explícita de fragilidade moral, advoga o financiamento público como panaceia para se evitar que os eleitos fiquem devendo favores a quem os financia.

Já os cidadãos, por não confiarem nos seus representantes, rejeitam a ideia de destinar mais dinheiro dos impostos para partidos e candidatos, sem a segurança de que muitos políticos não continuarão recebendo por fora dos financiadores privados. É tudo muito engraçado.


O autor é jornalista e articulista do JC