|
|
O caso do menino Bernardo Boldrini, 11 anos, chocou todo o Brasil (leia mais abaixo). Antes da tragédia, ele procurou sozinho ajuda do poder público. Algo tocante, porém, não incomum. Só em Bauru, segundo dados da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), cinco crianças procuram o Conselho Tutelar pessoalmente, todos os meses, para denunciar casos de abandono, negligência, violência física e psicológica e ainda, abuso. A mais nova tinha apenas 7 anos.
A vice-presidente do Conselho Tutelar 2 de Bauru, Letícia Tizianel, explica que, deste total, a maioria das denúncias de abuso é feitaa por meninas. Já grande parte dos meninos relatam abandono ou negligência e violência física e psicológica.
“É um número flutuante. Então, não dá para precisar se a maioria das denúncias vem das meninas ou dos meninos, mas, na maioria dos casos, as meninas relatam abuso sexual e os meninos violência física ou psicológica, e ainda negligência ou abandono”, explica.
De acordo com os dados divulgados ao JC, a maior parcela daquelas que buscam ajuda é de crianças. Porém, há também adolescentes de até 17 anos.
Mas como uma pessoa nessa idade vai sozinha buscar ajuda? Isso acontece porque há cada vez mais informações, aponta Darlene Tendolo, titular da Sebes. “Hoje todos têm acesso à informação. Eu percebo que sempre que divulgamos nossos telefones de contato e falamos sobre nossos serviços, aparecem denúncias. As crianças hoje sabem dos seus direitos.”
A titular da pasta explica ainda que os casos em que as próprias crianças ou adolescentes vão buscar, sozinhas, ajuda são, geralmente, bastante graves. “São casos extremos”, diz Tendolo.
|
Quioshi Goto |
|
|
|
Letícia Tizianel, do Conselho Tutelar, afirma que uma criança pode ser acolhida imediatamente |
Denúncias
Letícia Tizianel, do Conselho Tutelar, complementa que a porcentagem de denúncias em que são descobertas informações não fidedignas é muito baixa. “Isso quase nunca acontece. Acredito que a informação também vem das escolas e projetos, onde o Conselho sempre faz palestras e orienta sobre as denúncias”, salienta.
Entre janeiro e dezembro do ano passado, a Sebes contabilizou 556 denúncias, sendo 260 relacionadas a negligência e abandono, 204 de violência física ou psicológica e ainda 92 de abuso sexual (veja quadro ao lado).
Somente entre janeiro e março deste ano, a pasta já somou 62 denúncias, sendo 25 queixas de abandono ou negligência, 21 de violência física ou psicológica e ainda 16 de abuso sexual.
Serviço
O Conselho Tutelar em Bauru fica na sede da Sebes, avenida Alfredo Maia, quadra 1, Vila Falcão, e funciona diariamente das 8h às 18h, além do plantão noturno.
Caso Bernardo
No último dia 14, Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, foi encontrado morto dentro de um saco plástico e enterrado em um matagal, em Três Passos (RS). Durante as investigações, que apontam o pai e a madrasta como principais suspeitos pela morte do garoto com uso de uma injeção letal, foi apurado que ele procurou ajuda diversas vezes.
Bernardo foi ao Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Três Passos, onde morava. O sistema de amparo à criança teria tomado conhecimento do caso desde 2013.
‘Crianças e adolescentes perderam o medo de denunciar’, diz Darlene
“A verdade é que as crianças perderam o medo de denunciar”, afirma a titular da Sebes de Bauru, Darlene Tendolo. O Conselho Tutelar tornou-se um “amigo” e pode até fazer um acolhimento excepcional. São casos em que é detectado imediatamente que a criança ou adolescente teve seus direitos violados.
“Geralmente, em primeiro lugar as violências são cometidas pelos pais ou responsáveis, avós, tios, entre outros. Em segundo lugar quem pratica a violência são os companheiros desses responsáveis”, explica Letícia Tizianel, vice-presidente do Conselho Tutelar 2 de Bauru.
Quando uma denúncia chega pessoalmente à Sebes, o denunciante passa por atendimento psicológico no Centro de Referência Especializado da Assistência Social (Creas), que fica no mesmo prédio da secretaria. Os pais ou responsáveis são contatados e também passam por avaliação. O acolhimento, mediante autorização do juiz, pode ser imediato ou acontecer posteriormente.
Atualmente, Bauru conta com dois conselhos, por conta de seu número de habitantes. Cada um deles fica responsável por três Centros de Referência em Assistência Social (Cras), ou seja, um total de seis no município. Cada Conselho Tutelar possui cinco conselheiros titulares e cinco suplentes.
União
Para tornar o trabalho do Conselho Tutelar ainda mais fidedigno e seguro, a Sebes conta com apoio das polícias Militar, Civil e Federal, Ministério Público (MP), secretarias municipal da Saúde e Educação e Emdurb, onde fica localizado o “QG” de abordagem social noturna da Sebes.
“É um trabalho em conjunto. Estamos unidos para identificar cada caso. É preciso saber se um machucado pode tratar-se de uma agressão ou um simples tombo. Cada caso é analisado minuciosamente e contamos com um apoio muito grande”, frisa Darlene Tendolo, titular da Sebes.