09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Via Sacra USC 2014 - péssima direção


| Tempo de leitura: 4 min

Nos dias que antecedem a Páscoa, nossa sociedade cristã e seguidora da tradição religiosa se esforça de maneira apaixonante tentando uma forma de homenagear data tão importante.

Indo além de ovos de chocolate, prestigiamos nessa época peças teatrais embasadas em passagens bíblicas, como a Paixão de Cristo ou a Via Sacra. Nas cidades da nossa região essas peças são muito bem organizadas, algumas chegam a ser apresentadas em praça pública, atraindo pessoas de outras religiões e até mesmos ateus, que acabam atraídos pelo espetáculo em si.

Na nossa Bauru, essa encenação fica por conta da USC - Universidade do Sagrado Coração - uma entidade de cunho católica, liderada e dirigida por membros da maior igreja do planeta. Pois bem, como se sabe, essa peça realizada pela USC na Semana Santa conta com a participação em sua maioria com alunos do curso de artes cênicas de todos os anos, que se unem para realizar esse feito. Como estudante da própria universidade, sempre me esforço para garantir meu lugar na plateia, devido à superlotação do Teatro Veritas, mesmo nos três dias de apresentações, o conselho é chegar cedo para garantir lugar na fila. A Via Sacra da USC segue uma temática diferente das vias sacras tradicionais, pois no desenrolar do enredo vemos a mistura da história bíblica com a história contemporânea, a história de Jesus relacionada a algum problema social.

Depois de aguardar na fila e sentar no meu lugarzinho confortável, a peça começou. Logo nos primeiros atos fui ficando indignado com a peça em si, minha maior pergunta era: cadê a parte religiosa? Não teve. Esse ano não teve a passagem de João Batista reconhecendo Jesus como o Messias, mas alguém irá dizer: não tinha João Batista, mas a Santa Ceia tinha, sim, mas uma Santa Ceia aonde Jesus estava sentado no chão com onze discípulos, pois havia um discípulo sentado em um banquinho, chega até ser irônico, mas é a pura verdade, Jesus no chão e o discípulo no banquinho, teve soldado que tropeçou na cruz e quase caiu, teve Maria Madalena muda, pois não abriu a boca em nenhuma cena.

A trilha sonora parecia trilha do filme O Poderoso Chefão, aquela trilogia famosa na qual Al Pacino se consagrou, teve microfone que falhou, picando a voz da cantora, detalhe, isso aconteceu no segundo dia da apresentação também, sem falar que o enredo contemporâneo estava mais pra novela das oito do que pra Via Sacra, sem falar que em uma cena em especial a mesma população judaica que pede a crucificação de Cristo pede também com cartazes (isso mesmo, cartazes) a pena menos severa para criminosos nos dias atuais.

Será que todas essas falhas teriam um culpado? Será que a diretora da peça não leu a Bíblia para corrigir essas falhas? Será que ela não viu que a peça fugia do tradicional se tornando uma peça sem pé nem cabeça? Não sou contra a união do religioso com o contemporâneo, mas se for fazer isso, que saibam unir os temas, o que não aconteceu com a Via Sacra desse ano... Será porque o curso de artes cênicas da USC não tem na sua grade de professores nenhum professor mestre e doutor? Como todos os outros cursos da mesma? Mas irão falar: o curso de artes cênicas da USC é conceito 4 no MEC. Sim, ele é, mas devido aos alunos esforçados que lá se encontram.

Não quero só jogar pedras, quero também parabenizar alguns atores, que se destacaram em meio a tanta trapalhada da peça. Tiro meu chapéu para a atriz que protagonizou a doutora Martina da peça e também agradecer ao ator que representou Pilatos, dando vida ao personagem, do resto, não os culpo, pois seus personagens foram vazios e sem vida, não por causa deles, mas sim pela incompetência da direção da peça e pela própria reitoria da universidade que não se atentou pela importância e tradição de tantos anos de espetáculo.

Que na Semana Santa de 2015 a direção da peça se esforce mais, que tenha João Batista, que nenhum soldado caia, que todos os discípulos sentem igual ao mestre, que comprem microfones novos, que a trilha sonora não seja de filme mafioso, quero me emocionar com a Via Sacra e não sair de lá ironizando e decepcionado ...

Rodrigo Pereira - Professor de História e aluno da USC